Um dos principais debates europeus mais ou menos oficiosos prende-se com a sua crise identitária. Para muitos, no entanto, será como discutir o sexo dos anjos, já que a Europa é um caldinho de identidades e nessa medida encontrar um factor cultural que nos una, enquanto europeus, é tarefa que não pertence à análise histórica da raiz cultural europeia mas sim à análise dos valores que, já em meados do século XX, levantaram este edifício comum que é hoje a União Europeia.
Ou seja, a “identidade cultural” europeia histórica será um mito e encontrá-la é uma quimera que pode ter consequências graves e fracturantes ao despertar sentimentos diferenciadores e chauvinistas entre as diversas sensibilidades e comunidades do velho continente. A verdadeira identidade comum europeia, tenho para mim, começou apenas a ser forjada no pós-II Guerra. Antes, era muito mais o que nos dividia do que aquilo que nos unia. Se é certo que muitos países europeus partilharam séculos de preponderâncias comuns (como a cultura greco-latina ou o cristianismo), não é menos certo que essas tradições passaram pelas mais diversas fases de menor ou maior influência nas sociedades europeias e forma-se igualmente transmutando ao longo dos séculos. E também não é menos certo que essas tradições culturais tiveram preponderância mas não foram as únicas.
A Europa, tal como a conhecemos hoje, é produto de uma pluralidade enorme de influências e é isso que faz da construção europeia um caso único na história da humanidade, de uma convivência harmoniosa que subsiste há mais de cinquenta anos. A chave tem sido precisamente a aceitação e o respeito pela identidade multi-cultural do continente, bem como pelas muitas raízes que a sustentam – além do cristianismo, da tradição greco-latina ou do iluminismo, o nosso actual modo de estar e ser foi forjado por inúmeras outras influências, incluindo o islamismo nos países mediterrânicos ou o chamado paganismo nos países do Norte.
É por isto que por vezes penso ser contraproducente (inútil e perigoso) colocar a tónica do debate público europeu em torno desta questão da “identidade cultural”, já que a “identidade cultural” europeia deve ter como ponto de vista central o futuro e não o passado. O passado é precioso e é essencial conhecê-lo, mas não tem de ser um factor legitimador de um projecto de futuro.
Num texto publicado no Público e no seu blog, Pacheco Pereira, brilhante como sempre, coloca esta questão de uma forma que não me parece inteiramente correcta. Afirma, por exemplo, que a Europa se fez verdadeiramente no intervalo medieval entre o império romano (greco-latino) e o iluminismo. «Essa Europa foi feita por uma religião que veio do Oriente, o cristianismo», afirma o historiador, esquecendo as teias políticas e económicas que foram sendo construídas à margem (e muitas vezes em conflito com) do factor religioso. Além disso, o que efectivamente se fez nesse período histórico não foi Europa, foram estados-nações, cada um com a sua identidade étnica ou cultural muito própria. E, apesar do ascendente religioso e moral do cristianismo no espaço europeu desde Constantino até hoje, esta tradição conviveu sempre com muitas outras tradições, locais ou regionais por exemplo, caminhando em paralelo até aos dias de hoje e resultando no que hoje somos.
Destacar uma “identidade” histórica em detrimento de outras quer-me parecer que é não só injusto como negativo. Construtivo, tenho ainda para mim, será relegar a tradição para o seu devido lugar nos livros de história e construir uma identidade de valores novos, olhando para o futuro e não para o passado. Que é, no fundo, o que a UE tem feito desde os anos 50, propondo uma comunidade de nações pioneira e exemplar para o resto do mundo, mostrando que é possível a harmonia apesar das diferenças. O que deve ser relevado e valorizado, precisamente, são as diferenças e não os pontos comuns. Os pontos comuns são, sobretudo, os dos valores e esses estão bem plasmados nos projectos de tratados constitucionais que têm sido propostos e eternamente adiados. Porquê? Precisamente porque há quem se preocupe mais com o passado do que com o futuro.
Mas o recente texto de PP não deixa de ser interessante:
«(…) Tornar “europeia” a cultura das nações da Europa é uma tarefa difícil de levar a cabo, não muito diferente da de fazer um manual de “história europeia” que sirva de norma educativa nas escolas da Europa, também desejado pelos eurocratas. O problema é que, entendida nos seus genuínos factores de “unidade”, a cultura europeia está bem longe de ser a versão iluminista, “progressista” e multicultural que a UE precisa para legitimar a sua cosmovisão olímpica. Como se viu com a discussão do Preâmbulo da defunta Constituição europeia, a definição de uma “cultura europeia”, se for coerente com a história identitária da Europa (e não há outra, nem se decreta a identidade), ou está em choque com o islão, ou dá origem a sucessivas falsificações históricas para a moldar ao “politicamente correcto”. Claro que este problema só existe, quando se quer ter uma “cultura” oficial que sirva uma “agenda”.
É verdade que há uma herança greco-latina como factor de unidade, mas não se pode dar o salto do século de Augusto – a Roma que a UE gosta – para as Luzes – a filosofia que a UE gosta -, porque foi exactamente neste intervalo que a Europa se fez e essa Europa foi feita por uma religião que veio do Oriente, o cristianismo. Paulo trouxe o cristianismo do mundo dos judeus para o dos gentios, o que significou primeiro para os gregos e a filosofia grega, e depois para os romanos, para o direito romano. Desde que Constantino fez do cristianismo a religião do império, da Irlanda à Moscóvia, foi a religião que fez a Europa e essa religião defrontou desde cedo uma religião combatente, o islão.
Se o factor religioso na identidade europeia parece atenuado, isso se deve a um conjunto de factores que prolongam, mais do que se pensa, a “guerra” que antes se fazia nos mares de Lepanto (…) ou nos arredores de Viena. Na verdade, o crescimento da descrença, o imperialismo e o colonialismo, e a decadência do império otomano apagaram a fractura pela religião, embora na realidade a tivessem apenas mudado – ou seja, o cristianismo só deixou de ser um factor forte de identidade da “cultura europeia” quando o islão perdeu o poder militar, abrindo caminho dentro de si a ideias oriundas da Europa, como o nacionalismo (com os “jovens turcos” e Atatürk), ou o “socialismo pan-árabe” (de Nasser, Assad e Saddam Hussein). Mas, como se vê, todas essas ideias, ocidentais na sua génese, estão em crise com o ascenso do islão fundamentalista. Indo ainda mais longe, uma parte do conflito que opõe a Europa ao islão, como seja a necessidade da secularização do Estado, a condição feminina, ou a valorização da liberdade religiosa, são frutos da história europeia que incorporam a capacidade de instituições como a Igreja coexistirem com um mundo laico.
Ora este interregno dos factores da identidade clássica da Europa, que leva os burocratas europeus a acreditarem no sucesso do “multiculturalismo”, está a acabar pelo retorno de um islão combatente e fundamentalista. Por tudo isto, a tentativa de fundar uma “agenda cultural” inócua só pode ser feita por exclusão, com a mesma atitude que levou a UNESCO a não querer publicar a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, porque não correspondia ao “diálogo de civilizações” mítico da culpa do homem branco.»

