Daniel Dennett - Entrevista
Outubro 9, 2007 por joaopc
Por ocasião do ciclo de conferências na Culturgest dedicadas ao tema “Evolução e Criacionismo - Uma relação impossível”, o Naturalmente associa-se ao debate publicando uma série de posts acerca da mesma temática. Naturalmente, promovendo uma visão mais científica e naturalista. Naturalmente, procurando desmistificar a inanidade criacionista e a sua vertente mais sofisticada do “desenho inteligente”. Desde logo, apresentando aqui uma entrevista de Daniel Dennett ao Der Spiegel por alturas do lançamento do seu último livro “Breaking the Spell”, em 2006. Continua, naturalmente, pertinente e actual. Com os nossos agradecimentos a este blog brasileiro, que se deu ao trabalho de a traduzir do alemão. Apenas lhe dei uns retoques, adaptando-a para português europeu. Merece leitura atenta:
Der Spiegel - Professor Dennett, mais de 120 milhões de norte-americanos acreditam que Adão foi criado por Deus há dez mil anos, a partir do barro, e que Eva foi feita com a costela do seu companheiro. Conhece pessoalmente algum desses 120 milhões de indivíduos?
Daniel Dennett - Sim. Mas os criacionistas geralmente não se interessam em falar sobre isso. Aqueles que são realmente entusiastas do desenho inteligente, no entanto, falam sobre o assunto incansavelmente. E o que eu aprendi é que eles estão cheios de desinformações. Mas encontraram essas desinformações em fontes muito plausíveis. Não é apenas o pastor que lhes ensina essas coisas. Eles compram livros que são publicados por editoras famosas. Ou acedem a sites da Internet e vêem propagandas bem elaboradas, publicadas pelo Discovery Institute, em Seattle, que é financiado pela direita religiosa.
Spiegel - No centro do debate está a ideia da evolução. Por que é que a evolução parece provocar muito mais oposição do que qualquer outra teoria científica, como o Big Bang e a mecânica quântica?
Dennett - Creio que é porque a evolução conduz ao cerne da descoberta mais perturbadora da ciência nas últimas centenas de anos. Ela contesta uma das ideias mais antigas que possuímos, talvez mais antiga até que a nossa espécie.
Spiegel - Que ideia é essa, exactamente?
Dennett - É a ideia de que é necessário algo de grandioso, especial e inteligente para a criação de uma coisa menor. Eu chamo isso de teoria da ordem descendente da criação. Ninguém jamais verá uma lança fazendo um fabricador de lanças. Tão pouco verá uma ferradura criando um ferreiro. Nem um vaso de cerâmica gerando um ceramista. As coisas ocorrem sempre na ordem inversa, e isto é tão óbvio que simplesmente parece ser uma lei universal.
Spiegel - Você acredita que essa ideia já estava presente entre os macacos?
Dennett - Talvez entre o Homo habilis, o “faz-tudo”, que começou a fabricar instrumentos de pedra há cerca de dois milhões de anos atrás. Eles tinham a sensação de serem mais perfeitos do que os seus artefactos. Assim, a noção de um criador que é mais perfeito do que as coisas que cria é, acredito, uma ideia profundamente intuitiva. É exactamente a esta ideia que os defensores do desenho inteligente se referem quando perguntam: “Você já alguma vez viu uma construção sem construtores, ou uma pintura sem um pintor?”. Esse raciocínio é algo que capta esta ideia profundamente intuitiva de que jamais se obtém um desenho gratuitamente.
Spiegel - É um argumento teológico antigo…
Dennett - … Que Darwin refuta completamente com a sua teoria da selecção natural. E ele demonstra que não. Não só é possível que se obtenham desenhos a partir de coisas não desenhadas, como também pode haver a evolução de desenhadores a partir dessas categorias não desenhadas. No final temos escritores, poetas, artistas, engenheiros e outros projectistas de coisas, outros criadores - que são frutos bastante recentes da árvore da vida. E isso desafia a ideia popular de que a vida possui um sentido.
Spiegel - Até mesmo o espírito dos seres humanos - a sua alma - é produzida desta forma?
Dennett - Sim. Como uma forma de vida multicelular e móvel, nós precisamos de uma mente, já que temos que perceber para onde estamos a ir. Necessitamos de um sistema nervoso capaz de extrair rapidamente informações do mundo, de refinar essas informações e de fazer uso delas com presteza a fim de que elas guiem o nosso comportamento. O problema básico de todo o animal é identificar aquilo de que necessitam, evitar tudo o que possa feri-los, e agir dessa forma mais rapidamente do que os elementos antagónicos. Darwin compreendeu esta lei, e entendeu que este desenvolvimento vinha ocorrendo havia centenas de milhões de anos, produzindo ainda mais mentes andróides.
Spiegel - Mas, mesmo assim, algo fora do comum ocorreu quando os humanos surgiram.
Dennett - De facto. Os seres humanos descobriram a linguagem - uma aceleração explosiva dos poderes das mentes. Porque a partir disso foi possível aprender não apenas a partir da própria experiência do indivíduo, mas também de forma indirecta, com base na experiência de outros. Aprender com pessoas que o indivíduo jamais conheceu. Com ancestrais mortos há muito tempo. E a própria cultura humana transformou-se numa força evolucionária profunda. É isto o que nos confere um horizonte epistemológico que é muitíssimo mais vasto do que o de qualquer outra espécie. Somos a única espécie cujos indivíduos sabem quem são, que sabem que evoluíram. As nossas músicas, a nossa arte, os nossos livros e as nossas crenças religiosas são, todos eles, em última instância, um produto dos algoritmos evolucionários. Alguns acham esse fato fascinante. Outros o acham deprimente.
Spiegel - Em nenhum local a evolução se torna mais evidente do que no código do DNA. Não obstante, aqueles que crêem no desenho inteligente vêm menos problemas no código do DNA do que nas ideias de Darwin. Porquê?
Dennett - Eu não sei, já que a mim parece que a melhor evidência que temos da veracidade da teoria de Darwin é aquela que surge a cada dia da bioinformática, do entendimento do código do DNA. Os críticos do darwinismo simplesmente não querem encarar o facto de que moléculas, enzimas e proteínas conduziram ao pensamento. Sim, nós possuímos uma alma, mas ela é composta de vários robôs minúsculos.
Spiegel - Não acha que seja possível deixar a vida a cargo dos biólogos, mas permitir que a religião se encarregue da questão da alma?
Dennett - Era isso que o papa João Paulo II exigia quando lançou a sua muito citada encíclica, na qual afirma que a evolução é um facto, frisando, entretanto: excepto no que respeita à questão da alma humana. Isso pode ter deixado algumas pessoas satisfeitas, mas é algo simplesmente falso. Seria tão falso como afirmar: os nossos corpos são feitos de material biológico, excepto, é claro, o pâncreas. O cérebro não é um tecido mais maravilhoso do que os pulmões ou o fígado. É apenas um tecido.
Spiegel - As ideias de Darwin foram utilizadas de forma errónea por racistas e eugenistas. Seria este também um dos motivos pelo qual o darwinismo é tão vigorosamente atacado?
Dennett - Sim. Creio que a forma mais gentil de explicar isso é dizendo que a ideia darwiniana é muito simples - dá para explicá-la a alguém num minuto. Mas, por este mesmo motivo, ela é também extremamente vulnerável a caricaturas e a usos indevidos. Eu ensino aos meus alunos de forma muito paciente as bases da teoria evolucionária, e depois tenho que retornar ao tópico e esclarecer os mal entendidos, já que eles se entusiasmam demasiado com a teoria e acabam tendo ideias erradas. O darwinismo é um doce para a mente. Ele é delicioso. Mas o facto é que o excesso de doces pode distrair-nos, fazendo com que deixemos de nos concentrar na verdade. E isso pode ser utilizado por indivíduos racistas ou sexistas. Portanto, temos que praticar constantemente uma espécie de higiene intelectual.
Spiegel - Parece que tudo - incluindo o adultério, a violação e o assassinato – está a ser actualmente analisado à luz da teoria da evolução. Como é que se separa a pesquisa séria dos disparates?
Dennett - É preciso que sejamos colectores meticulosos dos factos relevantes. E temos que organizar esses factos de tal maneira que contemos com uma hipótese testável, que possa ser realmente confirmada ou rejeitada. Foi isso o que Darwin fez.
Spiegel - O seu colega Michael Ruse acusou-o de ter saído do campo da ciência e entrado no da ciência social e da religião com as suas teorias. Chegou até a afirmar que, ao proceder dessa forma, você estaria inadvertidamente a ajudar o movimento que defende o desenho inteligente.
Dennett - Michael está apenas tentando dar às implicações das descobertas de Darwin um enfoque suave, e assegurar às pessoas que não existe tanto conflito assim entre o ponto de vista da biologia evolucionária e as formas tradicionais de pensamento.
Spiegel - E quanto às acusações de que você estaria ajudando a teoria do desenho inteligente?
Dennett - Provavelmente existe um elemento de verdade nisto. Eu acabei de escrever um livro no qual olho para a religião por intermédio do prisma da biologia evolucionária. Creio que podemos, devemos, e até mesmo que temos que seguir essa rota. Outros dizem que não. Que devemos manter-nos afastados de certas áreas. Que não se pode permitir que a teoria da evolução chegue perto das ciências sociais. Creio que este é um conselho terrível. A ideia de que devemos proteger as ciências sociais e a humanidade do pensamento evolucionário é uma receita para o desastre.
Spiegel - Porquê?
Dennett - Eu daria a Darwin a medalha de ouro pela melhor ideia que alguém já teve. Ela unifica o mundo dos significados, dos objectivos, das metas e da liberdade com o mundo da ciência, com o mundo das ciências físicas. Quero dizer, nós falamos sobre a grande lacuna entre a ciência social e a ciência natural. O que preenche esta lacuna? Darwin, ao mostrar-nos como objectivo, desenho e sentido podem surgir da falta de sentido algum, a partir da simples matéria bruta.
Spiegel - O darwinismo está em acção todas as vezes que algo de novo é criado? Até mesmo durante a criação do universo, por exemplo?
Dennett - É pelo menos interessante constatar que ideias quase-darwinistas ou pseudo-darwinistas também são populares na física. Eles postulam uma enorme diversidade a partir da qual houve, em um certo sentido, uma selecção. O resultado é que nós estamos aqui, e isto é apenas uma pequena parte desta grande diversidade que presenciamos. Essa não é a ideia darwinista, mas é uma ideia aparentada. O filósofo Friedrich Nietzsche teve a ideia - eu arriscaria a dizer que ele talvez se tenha inspirado em Darwin - do eterno retorno: a ideia de que todas as possibilidades são concretizadas e que, se o tempo é infinito e a matéria também é infinita, então todas as permutações serão realizadas, não uma só vez, mas um trilião de vezes.
Spiegel - Uma outra ideia de Nietzsche é a de que Deus está morto. Essa é também uma conclusão lógica a que chega o darwinismo?
Dennett - É uma consequência muito nítida. O argumento em favor do desenho inteligente, creio eu, sempre foi o melhor argumento em favor da existência de Deus. E quando Darwin surge puxa o tapete sobre o qual esta ideia se sustenta.
Spiegel - Por outras palavras, a evolução não deixa espaço para Deus?
Dennett - É preciso que se entenda que o papel de Deus foi diminuindo no decorrer dos anos. Primeiramente tínhamos Deus, como você disse, fazendo Adão e todas as criaturas com as próprias mãos, arrancando a costela de Adão e fazendo Eva a partir dessa costela. A seguir trocámos esse Deus pelo Deus que coloca a evolução em movimento. E depois dizemos que nem sequer precisamos deste Deus - o decretador da lei -, já que se levarmos as ideias da cosmologia a sério concluímos que existem outros locais e outras leis, e que a vida surge onde pode surgir. Então, agora não temos mais o Deus criador descobridor de leis, nem o Deus decretador de leis, mas apenas o Deus mestre-de-cerimónias. E quando Deus é o mestre-de-cerimónias e, na verdade, não desempenha mais papel algum no universo, ele ficou diminuído, e não interfere mais de forma alguma.
Spiegel - Então, como é que tantos cientistas naturais são religiosos? Como é que eles harmonizam tal postura com o trabalho?
Dennett - Eles harmonizam essa postura com o trabalho porque não analisam atentamente como se dá esta harmonia. É um truque que todos nós podemos fazer. Temos as nossas maneiras de compartimentar as nossas vidas, de forma confrontarmos as contradições com a menor frequência possível.
Spiegel - Mas essa compartimentação também possui um lado positivo: a ciência natural fala sobre a vida, enquanto a religião lida com o sentido da vida.
Dennett - Tudo bem. Um limite. Mas o problema é que esse limite move-se. E, à medida que se move, a descrição do trabalho de Deus encolhe. Eu, também, me quedo maravilhado com o universo. Ele é maravilhoso. Eu estou tremendamente feliz por estar aqui. Creio que é um grande lugar, apesar de todas as suas falhas. Adoro estar vivo. O problema é: não há ninguém a quem ser grato por isso. Não existe ninguém a quem expressar a minha gratidão.
Spiegel - Mas a religião com certeza nos confere padrões morais e nos fornece directrizes sobre como nos comportarmos.
Dennett - Se a religião fizesse tal coisa eu não acharia que ela fosse uma ideia tão tola. Mas não é isso o que ela faz. Na melhor das hipóteses, as religiões funcionam como excelentes organizadores sociais. Elas fazem do trabalho moral em equipa uma força bem mais eficiente do que ele seria noutras circunstâncias. No entanto, isto é uma faca de dois gumes. Isso porque o trabalho moral em equipa depende, em grande parte, de que você abra mão do seu próprio juízo moral em favor da autoridade do grupo. E, como sabemos, isso pode ser algo extremamente perigoso.
Spiegel - Mas a religião ainda nos ajuda a estabelecer padrões morais.
Dennett - Mas, dessa forma, nós não seríamos moralmente bons apenas para que fôssemos recompensados no céu? Ou seja, Deus pune-nos pelos nossos pecados e recompensa-nos pelo nosso bom comportamento? Eu acho que essa ideia faz de Deus algo como um protector arrogante e ameaçador. Ela é ofensiva, já que sugere que esse é o único motivo pelo qual as pessoas agem de forma moralmente louvável. Por exemplo, será que nós só nos comportaríamos bem para conseguirmos 76 virgens no paraíso? Essa é uma ideia que seria ridicularizada por muita gente no Ocidente.
Spiegel - Então, por que é que praticamente todas as culturas possuem religiões?
Dennett - Creio que a resposta a esta pergunta é parcialmente histórica, no sentido de que as tradições que sobrevivem desenvolvem adaptações para sobreviverem. Assim, as próprias religiões são fenómenos culturais extremamente bem projectados que evoluíram para sobreviver.
Spiegel - Como uma espécie biológica.
Dennett - Exactamente. O projecto de uma religião é completamente inconsciente, exactamente da mesma forma como o projecto dos animais e plantas é completamente inconsciente.
Spiegel - As religiões bem-sucedidas possuem traços em comum?
Dennett - Todas elas precisam de possuir características que prolonguem a sua própria identidade - e muitas dessas características são na verdade interessantemente similares àquilo que encontramos também na biologia.
Spiegel - Poderia dar um exemplo?
Dennett - Muitas religiões tiveram início antes que houvesse escrita. Como é que se obtém preservação de alta-fidelidade de textos antes que existam textos? Os cantos e recitações grupais são mecanismos eficientes para a manutenção e a disseminação de informações. E temos também outras características, como a necessidade de garantir que alguns aspectos da religião sejam realmente incompreensíveis.
Spiegel - Porquê?
Dennett - Porque assim as pessoas têm que cair na memorização rotineira. A própria ideia da eucaristia é um exemplo adorável: a ideia de que o pão é o símbolo do corpo de Cristo, e de que o vinho é o símbolo do sangue de Cristo, não é suficientemente empolgante. É necessário que a ideia se torne estritamente incompreensível. O pão é Cristo, e o vinho é o seu sangue. Só então a ideia atrairá a atenção dos seguidores. Depois disso ela vencerá na competição com outras ideias mais entediantes, simplesmente porque o fiel não consegue deixar de pensar nela. É algo semelhante ao que ocorre quando temos uma dor de dente, e não conseguimos afastar a língua do dente dolorido. Todo o bom muçulmano deve orar pelo menos cinco vezes por dia, não importa o que aconteça.
Spiegel - Você também vê nisso uma estratégia evolucionária para manter a religião viva?
Dennett - É bem possível. O biólogo evolucionário israelita Amotz Zahavi argumenta que aqueles comportamentos “caros” - que são difíceis de serem imitados - são os melhores para serem passados às gerações seguintes, já que os sinais “baratos” podem ser, e serão, falsificados. Esse princípio dos comportamentos caros é bem conhecido na biologia, e está presente na religião. É importante fazer sacrifícios. O “custo” do comportamento é uma característica com a qual o indivíduo não deve tentar interferir, já que isso implica riscos. Se os imans se reunissem e decidissem remover essa característica eles estariam prejudicando uma das adaptações mais poderosas do islamismo.
Spiegel - Usando este tipo de argumentação, você é capaz de prever que religiões serão vitoriosas?
Dennett - Os meus colegas Rodney Stark e Roger Finke pesquisaram porque algumas religiões se disseminam tão rapidamente, e outras não. Eles estão a adaptar a economia do campo da oferta a esta questão e têm dito que existe uma espécie de mercado ilimitado para aquilo que as religiões podem fornecer, mas apenas se elas forem caras. Assim, têm uma explicação para o facto de as religiões protestantes muito brandas e liberais estarem a perder adeptos, enquanto aquelas mais extremadas e intensas atraem novos membros.
Spiegel - Você tem uma explicação para o facto de a crença no desenho inteligente ser mais disseminada nos Estados Unidos do que em qualquer outro lugar?
Dennett - Não, infelizmente não. Mas posso afirmar que a aliança entre religiões fundamentalistas ou evangélicas e a política de extrema-direita constitui-se num fenómeno muito problemático, e que essa é certamente uma das razões mais fortes para a disseminação dessa crença no país. O que realmente assusta é o facto de muitas dessas pessoas realmente acreditarem que a segunda vinda está para acontecer - a ideia de que o armagedão é inevitável, de forma que nada faz muita diferença. Para mim isso é uma irresponsabilidade social do mais alto grau. É assustador.
João
Não resisti a passar novamente os olhos pelo seu excelente blogue e dei comigo a pensar porque razão se coloca tanta ênfase na dialéctica sobre a temática da controvérsia do Divino “versus” Agnosticismo ou Ateísmo.
Não perfilho os pressupostos evolucionistas-etológicos,relatados por Dennett,na entrevista concedida ao “Der Spiegel”,relembrando-me,em contraposição,as considerações tecidas por Einstein,a propósito da compatibilidade entre ciência e religião,quando invocava que,no interior do átomo,não reinava a harmonia e a regularidade que os cientistas evolucionistas,mecanicistas e casualistas,costumam pressupor.E que,nele,se depreendiam apenas leis prováveis,formuladas na base de estatísticas reformáveis.Que essa indeterminação,no plano da matéria,abria lugar à intervenção de uma causa divina,que produzia o equilíbrio e a harmonia dessas reacções dissemelhantes e contraditórias da matéria.
Einstein identificava-se com a visão pantéista de Espinoza e,embora não acreditando num Deus que se interessasse pela sorte e pelas acções dos homens,estava convicto na presença de um poder racionalmente superior,que se revelava no incompreensivel universo,correspondendo à sua ideia de Deus.
Integrar a dimensão do Absoluto na aparente precariedade e impermanência da Vida parece-me ser,não só totalmente compatível com a génese evolucionista do Cosmos e das espécies,como se me afigura que é a matriz unificadora do próprio sentido evolucionista da Existência.
Claro que aqui reside sempre uma adesão de íntima convicção,mas creio que esta “fé” é válida para qualquer dos ângulos de visão em cotejo.
Seja como for,fico-me a perguntar porque é que os homens debatem tanto estas questões filosófico-religiosas em vez de procurarem unir esforços para a construção de uma Humanidade mais Humana…
Dennet que me ajude na resposta…
Olá amigo António! E pois fez muito bem em voltar, é sempre bem-vindo quem vier por bem, como dizia o outro!
É pertinente, a sua observação. Em relação à sua última inquietação, chamemos-lhe assim, também a mim por vezes me assalta, algures ai para trás no blog também tenho ideia de ter desabafado algo semelhante: mas afinal, para quê perder tempo a discutir estas questões, a afirmar posições, etc? Mas, no meu caso são inquietações que rapidamente passam. Por um lado porque não concebo as coisas em termos de “em vez de”. Se o fizesse seria mais em termos de porque é que tanta gente perde tanto tempo a debater e a dar importância a trivialidades (futebóis e afins) em vez de se concentrar nas coisas realmente importantes, como a união de esforços que refere, por exemplo. Pior ainda é perder tempo e energia a agredir e a matar em nome de conceitos tão alienantes, ilusórios e divisionistas como o nacionalismo ou a raça ou, sim, a religião, “em vez de”… Isso sim é preocupante.
A importância de debater estas questões, por outro lado e quanto a mim, reside precisamente no esforço de perceber o que nos divide, como e porque é que nos divide. E, em última análise, o que é que me “divide” do outro, porque é que eu sou assim e não assado, porque é que o outros são assim e não assados, porque é que uns acreditam e outros não, porque é que, enfim, não unimos esforços “em vez de”? talvez seja uma questão de encarar o mundo e a vida tal como eles são e não como deveriam ser (a tal união, etc…). É essa também a postura de Dennett e a resposta (ai vai um daqueles clichés de cinquenta toneladas) está obviamente dentro de cada um de nós.
Tenho para mim que, face ao que É, mais importante e realista que a harmonia utópica (e perigosa, como a história tem demonstrado) do colectivo e do devia ser, é a harmonia interior do indivíduo, um trabalho de auto-conhecimento, de dentro para fora e não o contrário, dai ser avesso a doutrinas e ideologias, dai ser adepto de privilegiar uma ética pessoal humana e esclarecida e as revoluções interiores do indivíduo. E para que essa harmonia íntima aconteça é, enfim, essencial debater tanto estas questões filosófico-religiosas, porque são as que tocam nas nossas aspirações e inquietudes existenciais mais profundas e são elas que nos conduzem à paz esclarecida, porque são debates extremamente enriquecedores, porque é do conhecimento e da partilha de saberes que nasce a luz, porque não o fazer é rendermo-nos às trevas do dogma e da ignorância, porque tudo isto é um mistério e os mistérios são irresistíveis para os homens curiosos e sedentos de respostas, porque é um imperativo ético e intelectual, porque, porque…
Já em relação aos “pressupostos evolucionistas-etológicos” de Dennett, penso que não está a ser justo. Nada nesta entrevista nem noutras intervenções suas deixa entender que ele pressupõe o universo e o átomo como realidades harmoniosas e regulares. Aliás, não conheço nenhum cientista ou autor (mesmo estes filósofos e homens de ciência do designado “novo ateísmo”) que reflicta sobre estas questões que pense tal coisa. Pelo contrário, por norma até consideram o universo como uma realidade causal e extremamente “desarmónica”. Já o mesmo não poderemos dizer relativamente aos crentes religiosos, para quem tudo está no seu devido sítio, como Deus quer e projectou. Naturalmente que Einstein tinha uma visão muito pessoal e nada ortodoxa de Deus, mas do que estamos aqui a falar, em suma, é da sua opinião pessoal acerca do tema. Ele considerava que o aparente equilíbrio perante o aparente caos cósmico era a prova de uma entidade transcendente? Muito bem, é a sua opinião, respeitável, naturalmente. Mas Einstein era físico, não era teólogo nem filósofo e opiniões são como as cerejas.
Além disso, também não era assim tão líquida a sua opinião acerca disso – este artigo, nesse sentido, é interessante: http://physicsworld.com/cws/article/print/23008 - outros tão ou mais versados nestas matérias poderão considerar que a desarmonia e irregularidade aparentes do universo são apenas a prova disso mesmo, que o universo é realmente e tão só um “sítio” violento, caótico e desprovido de sentido, harmonia ou desígnio, que são acima de tudo conceitos humanos. Como as convicções ou a fé, frutos da nossa mente fértil e ávida de um “sentido”.
Dennett e outros como ele, no meu entender, procuram apenas ver as coisas como elas são. É nesse sentido que a teoria da evolução da espécies, para um cientista como Dennett ou outros, não é uma doutrina, uma fé ou uma ideologia (dai ser um pouco bizarro falar em darwinismo ou evolucionismo, como se o contraponto fosse outro ismo qualquer…), é “apenas” uma tese científica sólida e comprovável que explica a dinâmica da vida na terra e que, en passant, deita por terra algumas teses religiosas. Encaixar neste contexto a dimensão do Absoluto ou outra qualquer dimensão transcendente é que é, de facto, uma questão de fé. Isto é, de opinião, que é como os deuses de um anterior post: cada um tem o seu.
João
Talvez não tenha sido justo para Dennett e me tenha empolgado com a visão de Einstein,mas o próprio Dennet,na referida entrevista,considera que a Teoria Evolucionista,a par com Nietzsche,considera que Deus está morto…
Creio que a questão da “fé”,na existência ou inexistência de Deus é,portanto,biunívoca,quer em relação a Einstein ,seja em relação a Dennet.
É evidente que incorporar a lógica de Deus na avaliação científica da realidade equivale a integrar o Absoluto Transcendente num domínio distinto.
As lógicas são aparentemente inconciliáveis,mas apenas do ponto de vista de quem acha logicamente impossivel e absurda essa conciliação.
A questão é para muitos de nós:Pode-se chegar logicamente à existência de Deus,tal como refere Einstein,ao revelar que tem “uma convicção profundamente emocional na presença de um poder racionalmente superior,que se revela no incomprensível universo” ?
Não vejo que a Teoria Evolucionista seja incompativel com uma visão teísta da Vida,mas deixo aqui expressa uma dúvida metodológica sobre a visão darwiniana:
Explicarão os pressupostos etológicos dessa Teoria os actos humanos de generosidade e de altruismo,mormente quando extravasam as fronteiras do circulo de protecção familiar mais restrito?
Como explicar,à luz dessa visão,os comportamentos de alguns seres que se dedicam desveladamente ao aconchego dos deserdados da sorte ou do acaso existencial ?
Se o Darwinismo for um doce para a mente,como apregoa Dennett,então como conciliar a lógica radical dessa Teoria com a despojada atitude da Bondade Humana ?…
Caríssimo,
Einstein, como comprova a frase citada, não chega à conclusão da existência de Deus pela lógica (se é que tenha realmente chegado lá… e mesmo que tenha, de que Deus estamos a falar?). Trata-se, pelo contrário, de uma «convicção profundamente emocional». Como são, efectivamente, as matérias de fé: emocionais. Não há aqui lugar à razão, simplesmente porque a razão não chega lá (ou ainda não chegou, vamos lá). Quanto muito são razões do coração, como diria o poeta.
É também admissível que a teoria da evolução não seja incompatível com uma visão teista da vida. Depende. Há teistas que sim, há teistas que não, há teistas que mais ou menos. Depende. Você acha que não, muito bem, é respeitável a sua opinião.
Quanto à questão da generosidade e da bondade, além do facto de não serem exclusivos da espécie humana (há outros animais que revelam atitudes de entreajuda e generosidade mesmo fora do seu círculo “familiar” restrito), e além do facto da evolução natural não ser uma teoria perfeita, acabada e definitiva (como todas as teorias científicas, não explica tudo), podem perfeitamente ser mecanismos relacionados com a preservação e a defesa da espécie. Admito que sim, mesmo sabendo que são essencialmente factores culturais e morais (comportamentais e não-biológicos) e que nem todas as culturas humanas partilham dessa moralidade. Como tudo, também depende e não prova coisa nenhuma. Muito menos a validade do factor religioso. Não é preciso acreditar em Deus, em qualquer Deus, para se ser “bom” ou generoso.
A propósito deste diálogo entre evolução e moralidade, este post de outro blog explica muito melhor, que sou um mero curioso destas questões, o que estava a tentar transmitir e corrige algumas imprecisões minhas:
http://cognosco.blogs.sapo.pt/arquivo/1069708.html
“O problema básico de todo o animal é identificar aquilo de que necessitam, evitar tudo o que possa feri-los, e agir dessa forma mais rapidamente do que os elementos antagónicos”
(Daniel Dennett)
E,de facto,tem toda a razão,João,”não é preciso acreditar em Deus,em qualquer Deus,para se ser “bom” ou generoso”.
Esse é o problema básico. Depois há muitos outros “problemas”…
O problema básico para Dennett…porque através de códigos de conduta ética ou de criminalizações de actos humanos,socialmente censuráveis,a lei natural,na perspectiva darwinista,foi cedendo progressivamente a uma nova visão da vida,que visa estabelecer novos padrões de comportamento.
Matar,Roubar e Violar,entre outros actos,que são naturalmente amorais no reino dos animais,passaram a ser objecto de reprovação social maioritária,nas sociedades humanas .
O Homem foi esse outro animal que decidiu,contra os postulados darwinianos, assumir nas suas próprias mãos o destino da sua Evolução,mas no sentido que a si próprio gizou…
Não concordo. Esse é, sempre foi e continuará a ser o problema básico para todas as espécies animais, humanos incluídos. No caso da nossa espécie coloca-se a questão da moralidade, efectivamente, mas aquelas três questões enumeradas por Dennett são incontornáveis e, efectivamente, básicas. No caso da espécie humana simplesmente a situação se torna um pouco mais complexa. Em cima dessas pulsões básicas, que subsistem (porque não deixamos, por muita sofisticação, de sermos animais), ainda temos de lidar com factores como a moralidade ou a cultura.
Matar, roubar ou violar, por outro lado, não são comportamentos típicos em nenhuma espécie animal. Há excepções, obviamente, mas por norma (tal como na espécie humana), não é isso que se verifica. No caso de matar, por exemplo, a norma, entre humanos e outros animais, é isso acontecer por motivos de força maior, como a sobrevivência (para alimentação ou defesa). Em quase nenhuma situação isso acontece “gratuitamente”. Aliás, o ser humano é dos únicos que o faz sem um forte imperativo natural. Achar que o homem é dono e senhor do seu destino é também, quanto a mim, uma ilusão ditada por uma visão antropocêntrica da existência. Apesar da cultura, da moral, da ciência ou da religião, continuamos a ser, no fundo, animais impulsionados por instintos básicos. Mais: uma espécie animal particularmente predadora e destrutiva. Somos é talvez socialmente mais complexos, mas basicamente continuamos a fazer parte desse processo evolutivo natural que nos tornou a espécie dominante no planeta. Gostamos é de pensar que somos uma espécie à parte: os eleitos! No caso dos crentes de religiões como a cristã ou a islâmica até somos tidos como espécie dilecta do criador e que tudo o resto foi aqui posto para nosso usufruto e domínio… Não admira, como tal, que a natuerza esteja no miserável estado em que está Ou melhor, em que nós a pusemos.
O leão mata a gazela e o macho dominante ,apodera-se do território da sua intervenção ,excluindo os machos concorrentes mais fracos,ou domina sexualmente a fêmea,sempre que em condições de impor o seu domínio.
É uma lei naturalmente amoral a “lei do mais forte” e da “selecção natural”.
O Homem é um animal, embora produto histórico do resultado da evolução hominídia.
Mas decidiu erigir padrões morais(no sentido ético),arredios da profissão de fé darwiniana.
Não há como escapar aos factos.Os códigos de conduta,éticos ou jurídicos,existem e normas sancionatórias para quem os desrespeita também.
Pode-se gostar ou não mas é assim.E,se é assim,Darwin está ultrapassado.As leis do” mais forte” e da “selecção natural” foram superadas pelas normas axiológicas que a esmagadora maioria das sociedades actuais entendeu assumir,como referências impositivas.
E aqui não foi Deus que destronou Darwin.Foi Darwin que não escapou ao rumo livre da Evolução Humana…
“profissão de fé darwinista”?! ó amigo antónio, essa agora está boa… então e em relação à gravidade, também é uma “profissão de fé newtoniana?”
Agora não tenho tempo, mas já cá venho explicar o resto e de como as tais normas axiológicas não superaram coisa nenhuma no que respeita à nossa condicção animal em constante evolução.
Ok…fico à espera…
P.S.Quanto à “profissão de fé dawinista” tome-a como mera figura de retórica…
[...] 11th, 2007 by joaopc A propósito de uma pequena conversa com o leitor António ali em baixo no post da entrevista de Daniel Dennettt, acerca da natureza humana e de outras minudências, lembrei-me de um livro que li recentemente, [...]