Cada macaco no seu galho
Outubro 10, 2007 por joaopc
Ainda no âmbito do ciclo “Evolução e Criacionismo - Uma relação impossível” e em torno de uma recente resolução do Conselho da Europa acerca dos perigos de infiltração do criacionismo no sistema educativo europeu, não resisto a transcrever para aqui dois comentários de uma leitora (pessoa de fé) do De Rerum Natura acerca do tema. Um exemplo de bom senso:
«(…) o disparate é precisamente o confundir a crença com Ciência. A Ciência não pode atacar (nem defender!) a crença, porque Deus não é comprovável cientificamente.
Do mesmo modo, a religião não é uma Ciência exacta! Ou seja, esta resolução foi no sentido de manter (por assim dizer) cada macaco no seu galho!
Por respeito à religião, tira-se a Ciência do caminho que lhe pertence. Por respeito à Ciência, tira-se a religião também do seu caminho. Isto porque o caminho que cada uma delas trilha é mutuamente exclusivo.
O “matriz cristã” da Europa (o que quer que isso seja) e a crença individual ou colectiva não são afastadas nem beliscadas sequer: trata-se de deixar a Ciência trilhar o seu caminho e falar com a voz própria, independente e isenta. E com as falhas próprias que a caracterizam. O que é perfeitamente incompatível com um caminho dogmático e assente em fé da religião.
Aliás, DAS religiões, dado que há mais que uma e nem todas assentam no cristianismo! E os ateus também merecem respeito!»
(…)
«(…) Os pormenores do texto que foi votado não me parecem muito importantes face ao risco de ver a religião a meter-se onde não é chamada.
Repito que me considero religiosa, mas tenho olhinhos! A religião nem sempre teve uma relação inteiramente “kosher” (por assim dizer) com o conhecimento. Mas isso são pecados velhos! A bem da honestidade intelectual, não podemos misturar crença com Ciência! Também (num plano inteiramente distinto) não podemos misturar informação com entretenimento, e temos visto como os dois juntos dão asneira e têm que ser separados.
Se as coisas chegaram a confronto, considero que estarei do lado tanto da religião como da Ciência se me opuser a que a religião entre nos laboratórios e mentes científicas. Porque estaria a poluir ambos!
A própria religião não resistiria a uma abordagem científica porque… Deus não se encontra num tudo de ensaio nem numa observação micro ou macroscópica. Deus não é aí o actor principal!
Independentemente de Quem eu acredite que mande nos destinos do Universo, a Ciência tem como objectivo aprender como ele funciona. E é posta em causa sempre. Deus eu não ponho em causa, mas isso sou eu! Aceito que O ponham em causa (a isso chama-se tecnicamente um ateu). Mas do mesmo modo que não aceito que me chamem nomes nem que me persigam por ter convicções religiosas, não aceito que os que pensam como eu tenham a veleidade de pensar que podem perseguir os outros e obrigá-los a pensar como nós. Isso é de outros tempos! E a História e a nossa própria consciência (e o cerne do cristianismo) mostraram que isso estava errado!
Pelo exposto, guarde as suas crenças para quando for rezar. Eu farei o mesmo. E quando formos a uma aula de Biologia… deixamos Deus à porta para nos maravilharmos com as descobertas, disparates e/ou limitações que os homens são capazes de fazer!»
MAGA.PATA.LÓGIKA