O ensaista George Steiner partilha, com o meu John Gray de estimação e outros pensadores contemporâneos, do cepticismo no mitificado “progresso”, não só em termos das suas limitações, mas também em termos dos seus benefícios.
Steiner veio a Lisboa falar dos limites da ciência, numa conferência que ele próprio concebeu para a Fundação Calouste Gulbenkian, tendo como mote a questão: «se os progressos científicos têm motivado os avanços da história desde os tempos pré-socráticos, a Ciência estará agora a entrar num beco sem saída devido às limitações técnicas e à incapacidade de comprovar novas teorias?».
Na sua intervenção de abertura da Conferência, Steiner colocou o dedo em muitas feridas, mas sobretudo (pelo menos a ajuizar pela cobertura noticiosa da Agência Lusa) nas feridas europeias. Eis um excerto para reflectir:
“A Europa está muito, muito cansada. Quando a crise do Kosovo começou a Europa teve de ir a correr para a América a pedir ajuda e a América teve de vir outra vez resolver esta pequena crise, porque nem teve vontade política de varrer a sua própria sujidade”, disse Steiner à margem da conferência “A Ciência terá limites?”, que ontem começou na Fundação Calouste Gulbenkian.
“Não faz mal, tivemos dois mil anos interessantes e ninguém prometeu que isto durava para sempre”, referiu Steiner, considerando que a Europa está em tão mau estado que ninguém pode estar optimista. Mas “outras civilizações irão ocupar o seu lugar e para os mais novos irá ser muito excitante”, ressalvou. O ensaísta realçou que as igrejas vazias “são um símbolo do fim do cristianismo clássico” numa Europa que enfrenta hoje uma grande crise de esperança.
“Desde a revolução francesa que a esperança tem estado sempre à esquerda. Mas hoje não há mais esquerda na Europa. O que os jovens vão querer? Vão querer dinheiro! A Europa actualmente é o cheiro do dinheiro, que é tão sufocante e pode vir a ser um grande Macau ou uma explosão enorme”, afirma. A crise na cultura, por outro lado, levará a uma crise na ciência.
“A seguir à religião algo virá, porque as pessoas têm dificuldade em viver na solidão, mas o que me assusta é que deste vazio saia o que é ´kitch`, ou o futebol”, que considerou a actual grande religião. “Maradona substituiu Pascal”, referiu. Com esta crise, disse Steiner, “não haverá mais Platões, nem mais Mozarts ou Bachs na Europa”.
“Eles vão aparecer na Índia ou noutros locais do planeta, mas não na Europa. É a vez deles”, considerou. “Vou dizer uma coisa que vai deixar zangada muita gente: uma civilização que mata os seus judeus não recupera”, disse ainda Steiner. Para o ensaísta, a chave para combater este quadro em que “a irracionalidade, a astrologia, o lixo ‘new age’ estão a flutuar nas nossas vidas”, é o Ensino. “Até a nossa sociedade mudar e apoiar os professores, nada de bom acontecerá”, salientou.
Mas ainda mais interessante que esta prosa noticiosa é este texto deste bloger, que captou Steiner com outra profundidade. (a este propósito ver comentários a este post). A sinopse da palestra de Steiner também é esclarecedora:
Desde os filósofos pré-socráticos até ao presente, a civilização ocidental tem sido virtualmente motivada pela confiança axiomática depositada no progresso científico. Podem ter existido erros (a cosmografia de Ptolomeu), momentos de regressão e de frustração, mas o movimento impulsionador da descoberta e do conhecimento científicos parece ter definido o da própria razão.
A relação do pensamento humano com os avanços científicos foi fundamental para a antropologia, para os modelos da história humana implícitos em Galileu e Descartes. Foi fundamental para o estabelecimento da modernidade, do positivismo e do conceito de verdade nos trabalhos de Newton, de Darwin e dos seus sucessores. Por sua vez, as teorias científicas subscreveram a evolução constante da tecnologia na qual as sociedades ocidentais alicerçaram o seu poder. Tal como Bacon e Leibniz pregaram, as portas do progresso científico teórico e aplicado estiveram sempre abertas, definindo o horizonte do amanhã.
Será que continua a ser assim? Estarão agora à vista certos limites, certas barreiras às nossas expectativas? A possibilidade de a Teoria das Cordas não poder ser verificada nem falseada implica uma crise ontológica no seio do próprio conceito de ciência. Há motivos intrínsecos que nos levam a acreditar que a cosmologia e a correspondente exploração do microcosmos são as suas fronteiras. Não há nenhum instrumento de observação por mais sofisticado que seja que nos permita prosseguir para lá das «paredes douradas» externas ou internas do nosso possível universo local. O conhecimento da consciência tem-se mostrado radicalmente evasivo. Pode muito bem acontecer que as analogias computacionais constituam um beco sem saída. A incompletude e a indeterminação, exemplificadas pelas obras de Gödel e de Heisenberg, são «muros» contra as quais a razão embate em vão. A acentuada diminuição do número de estudantes inscritos em cursos de ciências «duras» no Ocidente é sintomática. Tal como o são as novas ondas de racionalismo, irracionalidade, fundamentalismo e superstição que actualmente se abatem sobre nós.
As conjecturas estarão certamente sempre erradas. A biologia sintética e a biogenética, a biocomputação, o aproveitamento de bactérias em processos industriais prometem avanços espectaculares. A matemática progride, por assim dizer, autonomamente. No entanto, talvez as grandes ciências clássicas e a sua auto-confiança se estejam a desvanecer, o que constituiria uma grande revolução em todos os domínios da consciência e da sociedade. Esta Conferência pretende explorar algumas das possíveis consequências. O Concorde foi uma maravilha aerodinâmica, tecnológica. Não há qualquer intenção de o voltar a fazer voar.


Caro joaopc,
Num daqueles acasos que a internet proporciona cheguei ao seu blog e deparei-me, neste post, com a seguinte frase: «Mas ainda mais interessante que esta prosa noticiosa é este texto deste bloger, que captou Steiner com outra profundidade.» Depois remetia-se para o meu blog.
O texto que lá se encontra não é meu, mas como a própria rubrica «Ler os outros» indica é de outra pessoa, que está referida no fim do texto, Luís Miguel Queirós, Público de 26/10/2007.
Como partilho do cepticismo steineriano e, ao que li, do seu, como o texto era bastante bom, limitei-me a cortar aqui e ali, a seleccionar o que achei mais pertinente. Tirando o trabalho de «destruição» textual, nada mais me pertence. Achei que deveria partilhar esta notícia pública com os eventuais leitores do meu blog.
Portanto a profundidade é de outro e por uma questão de probidade intelectual que se dê o seu a seu dono. Seja como for, fico grato pela referência.
Abraço,
Jorge Carreira Maia
http://averomundo-jcm.blogspot.com
Ok, obrigado pela correcção. O erro também foi meu pois não me apercebi do link para o verdadeiro autor. Fica então reposta a verdade autoral. E mais uma vez parabéns pelo seu blog muito interessante.
Pelo que entendi esse artigo inteiro se resume na pergunta “tem limite?”. Para mim o limite da ciência é limite do Universo, ou seja, é uma grande bobagem achar que o limite está próximo.
Não me parece assim tão “grande bobagem”… E essa pergunta tem muito que se lhe diga, como se depreende da leitura atenta de Steiner e de outros pensadores que se preocupam com estas questões. E creio que o que está em questão não é tanto a “dimensão do Universo”, é a nossa capacidade para apreender essa dimensão, seja numa óptica macro ou micro.