Há uns tempos, noutro blog (um colectivo) onde também desabafo de vez em quando e que agora não é para aqui chamado, travei-me de razões com um parceiro do mesmo blog, a propósito destas coisas da religião. Nomeadamente a propósito da história da Igreja Católica e da sua relação com o poder temporal. Achei que podia ter aqui cabimento. Começa este debate o colega Borat, que está sempre em itálico e vale a pena ler com atenção, pois é rapaz de grande sabedoria e conhecimento:
Procurem o que tiverem que procurar, mas eu vos garanto que em nenhum lado acharão, senão em Mateus (22; 20) o que muitos se desgostam por encontrar, tanto lhes custa reconhecer que nenhuma outra religião, a não ser o Cristianismo e pela voz do seu fundador, concebe o poder secular separado do poder espiritual. Pretendiam os fariseus colocar Cristo num problema dilemático, desacreditando-O. Perguntaram se deveriam pagar imposto ao invasor romano, assim afectando a Sua popularidade aos olhos do povo que O veriam como um colaboracionista, ou se deveriam recusar o pagamento e assim Cristo seria tido como desobediente aos olhos da administração romana. Cristo respondeu: «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.»
Sobre esta resposta se fundou um pilar de uma civilização de sucesso. Este dito criou um novo modelo de relação entre o espiritual e o temporal que mais nenhuma religião desenvolveu. Foi no horizonte cultural do Cristianismo, (e não no Judaísmo, no Hinduísmo, no Budismo ou do Islamismo) que se desenvolveu o princípio da secularização e de separação entre o temporal e o espiritual. Lamento, mas é verdade. O Judaísmo sustenta-se ainda na ideia de povo eleito e vê o futuro messianicamente. Ainda que o moderno estado de Israel não tenha uma constituição escrita, sendo governado por leis básicas definidas pelo Parlamento (Knesset) que defendem a plena liberdade religiosa, os judeus consideram-se uns eleitos, têm uma concepção exclusivista da sua identidade.
Quanto ao Islamismo, e para falarmos só das religiões do Livro, Maomé não pretendeu apenas fundar uma religião, pois o Islão teve sempre uma dimensão social, política e até militar. No Islão, o poder não se concebe separado naquelas duas dimensões. Não existe sequer a palavra “laico”. Só no século XX, com Kemal Ataturk, se concebeu a ideia de separação, por ocidentalização contaminante da realidade islâmica. Daí que, em turco, lâyik seja um francesismo introduzido na linguagem corrente para designar um conceito inexistente até então. Ainda hoje, a Turquia é o único país de maioria islâmica em que se vislumbra um esboço ténue de separação, apesar de muitas oposições, contrariedades e atritos, como seja a obrigatoriedade do ensino religioso na escola pública. Por tudo isto, Moisés Espírito Santo considera o Islão uma religião tribal que só se expande pela guerra e pela reprodução demográfica.
Por outro lado, no mundo clássico greco-latino, o poder estava sacralizado, fosse na polis, fosse o do Império, a religião tinha uma dimensão cívica que não se separava da actividade política. A separação era inconcebível. Isto são factos. Fáceis de obter e comprovar. Não são novos e estão divulgados em todo o lado. Não é teoria, não é metafórico. São factos. Não há cá opiniões nem interpretações individuais. Não se pode dizer que se tem uma opinião diferente. São factos. Não é possível o absurdo de se dizer que uma coisa é historiar e outra opinar. Isto são factos históricos. Quanto ao Cristianismo, prometia uma salvação num outro Mundo, rejeitando a confusão greco-romana entre o político e o religioso, declarando a indiferença relativamente aos diversos governos instituídos, devendo obedecer às autoridades estabelecidas, segundo as palavras de Pedro e Paulo. No entanto, em Outubro de 312, ao anoitecer, quando os exércitos de Constantino se preparavam para uma batalha numa época muito agitada da história de Roma, o imperador tem uma visão: as letras XP em latim, as que mais se aproximam às iniciais χρ, abreviatura do nome grego de Cristo usando as letras gregas chi e rho. As letras surgem envolvidas numa cruz reluzente com o lema In Hoc Signo Vinces. Constantino mandou inscrever a cruz no escudo dos seus soldados e ganhou a batalha. O Cristianismo tornou-se política e militarmente útil.
Desde então, esta enorme potencialidade não será desprezada. Mais tarde, em 337, Constantino viria a baptizar-se. Basta ler numa história de Roma a vida de Constantino (recomendo o clássico e inultrapassável livro de Edward Gibbon) para se desconfiar, pelo menos, que a conversão do imperador foi mais táctica do que sincera. O Cristianismo dava-lhe uma ideologia unificadora para um Império ameaçado. Em Fevereiro de 313 d. C., após muitas perseguições e martírios, os imperadores Licínio e Constantino publicam o Édito de Milão, concedendo a todos os habitantes do Império a liberdade religiosa e restituindo aos cristãos o património confiscado. O Cristianismo sai da clandestinidade e uma nova página se abre na história do Ocidente. A cruz, e já não o peixe da clandestinidade, torna-se o símbolo da nova religião.
Nasce assim a ideia de Cristandade, o Cristianismo institucionaliza-se como doutrina de Estado, vai-se implantando e introduzindo os seus princípios e a sua terminologia na linguagem jurídica. Os tribunais episcopais são considerados válidos. Constantino torna obrigatório o repouso dominical e proíbe os oráculos. Em 325, chega mesmo a convocar e a presidir ao concílio de Niceia, onde se adoptou o Credo. Como se vê, o Imperador preocupa-se com os assuntos políticos, ainda que concertados com a doutrina e a escatologia cristãs. A este aproveitamento não é alheio o facto de o Cristianismo dar coesão ao Império.
Em 380, o imperador Teodósio, pelo Édito de Tessalónica, e a confirmar o papel unificador desta crença, proclama o Cristianismo religião oficial, convidando os habitantes do Império a reconhecer a Santíssima Trindade. Destrói-se o politeísmo. A cultura latina cristianiza-se enquanto o Cristianismo se institucionaliza. Esta aliança, contudo, encerra um desequilíbrio, pois que a Igreja sobreviverá ao Império, enquanto a cristianização do poder imperial não permitiu a sua sobrevivência.
odemos assim dizer que o legado mais influente de Roma foi o Cristianismo. As invasões bárbaras consumarão o colapso do império e da parceria estabelecida, até então profícua para ambos, entre o Trono e o Altar. Nesta aliança se fundamentará a teoria do Estado medieval, até Maquiavel. No ano de 800, simbolicamente no dia 25 de Dezembro, o papa Leão III coroou Carlos Magno como imperador do Sacro Império Romano-Germânico que assume a responsabilidade de proteger a Igreja. O imperador é um rex et sacerdos, desenhando-se um projecto da Res Publica Christiana, uma pátria cristã que deveria unir os povos da Europa, ideia que será posteriormente retomada por Novalis. No séc. X, Otão I é coroado imperador do Sacro-Império por acção dos bispos alemães, abrindo-se um conflito com a Igreja, é a designada Questão das Investiduras, que no fundo procurava definir uma hierarquia entre os dois poderes. O imperador considerava os bispos seus subordinados, quadros técnicos preparados para o exercício do poder político, burocratas indispensáveis a afirmação do Estado, o que causou desagrado e discordância na Igreja que luta pela independência face à intromissão do temporal, defendendo-se a autonomia entre o poder dos príncipes e o do papado.
Os reis governam os súbditos deste Mundo, o papa arrebanha fiéis para o outro Mundo. O poder espiritual deve, nesta concepção, prevalecer sobre o secular, dada a sua origem divina, podendo o Papa destituir os reis e príncipes. Este poder era enorme e pretendia, pela subordinação, disciplinar e moralizar o poder político. Esta concepção atinge o auge com Inocêncio III, no século XIII, que se celebrizou em Portugal ao mediar o conflito entre Sancho I, o Povoador, e os bispos, chegando a excomungar o rei. As nações nascentes da Europa organizam-se de acordo com os princípios da Fé, gizando-se já e desde logo aquela que será a polémica entre ultramontanos, que defendem a precedência e superioridade do poder espiritual e da autoridade papal, e os regalistas que, não aceitando a submissão dos príncipes a Roma, reclamam a inspiração directa de Deus sobre o espírito dos déspotas assim iluminados, pelo que a Igreja se deve submeter ao poder dos reis.
Inocêncio III, afirmando-se como um indisputável hierocrata, vê o poder dos reis e príncipes como poder subalterno e os que o desafiam são punidos com o pesado anátema da excomunhão. Ao Papa cabem os dois gládios do poder: o temporal e o espiritual, segundo a doutrina de S. Bernardo: «Tal como Deus colocou no firmamento dois grandes astros para o iluminar, o sol que preside ao dia e a lua que manda nas noites, também instituiu, no firmamento da Igreja, duas altas dignidades: o papado que reina sobre as almas e a realeza que governa os corpos. Mas a primeira é muito superior à segunda. Tal como a lua recebe a luz do sol, que lhe ganha por muito tanto pela qualidade como pela quantidade da sua radiação, também o poder real vai buscar todo o seu brilho e todo o seu prestígio ao poder pontifical». Como se vê, é Constantino ao contrário, isto é, o espiritual extravasa o seu âmbito e afirma-se no plano temporal. O que é muito interessante, é que na mesma época em que este fenómeno histórico se desenvolve, ao ponto de ter sido nesta altura que foi fundada a Inquisição, afirma-se uma das mais poderosas e influentes personalidades da história da Igreja e da cultura ocidental: S. Francisco de Assis.
Francisco combate toda a desigualdade e censura toda a forma de poder. As propostas de Francisco desenvolvem-se no limite do consentido pela ortodoxia. É o mais heterodoxo dos cristãos numa época de afirmação ortodoxa! «O franciscanismo é um grande movimento religioso que (…) sacudiu, marcou, impregnou toda a sociedade cristã no século XIII», diz Jacques Le Goff. De facto, o Santo de Assis ambicionava reformar a sociedade, regressando à pureza primitiva do Cristianismo. Contra todas as desigualdades e contra todos os poderes, excepto os definidos pela condição natural, Francisco hostiliza todas as formas de poder: o saber erudito, a riqueza, a origem social. Considerando a propriedade e a riqueza um factor de desigualdade, é proudhoniano avant la lettre e proto-socialista, ao mesmo tempo que, defendendo a obediência como virtude, apenas limitada pela moral, propõe uma intervenção pacífica, podendo dizer-se que Gandhi é um epígono de Francisco. Francisco propõe-se agir pela palavra, pregando. Sente-se aliás atraído para converter infiéis usando apenas a palavra. Convertê-los ou martirizar-se. Embarca em Ancona em 1219, assistindo à tomada de Damieta pelos cruzados em 5 de Novembro. Achou sanguinários os cruzados e foi recebido pelo sultão Malik al-Kamil, não logrando contudo a sua conversão, apesar dos longos sermões e arguências. É aí que tem notícia do martírio dos cinco frades em Marrocos. Vital, Berardo, Pedro, Acúrcio, Adjuto e Otão que, sem saberem uma palavra de árabe, foram enviados para Marrocos, para converter os infiéis.
Tal era a crença no poder da pregação. A palavra, o Verbo, tinha um poder que ia além da simples funcionalidade comunicativa. Os frades foram martirizados em 16 de Janeiro de 1220. Os corpos foram trasladados para Portugal, sendo conduzidos a Santa Cruz de Coimbra. Foram estes factos que ditariam a conversão do jovem Fernando de Bulhões que professará na ordem franciscana. Santo António seguirá depois o exemplo dos mártires, propondo-se ir para Marrocos. É conhecida a lenda que o desvia para Itália, onde se tornará um exímio pregador e doutor da Igreja. A arte da parenética torna-se a partir de então o instrumento preferencial da conversão. António definiu, sob a inspiração dos mártires e os princípios de Francisco, o modelo daquilo a que Roger Bacon, outro ilustre franciscano, designará como sermo potens, designação que tanto divertiu o «poder da verba». É afinal a convicção de que a argumentação racionalmente sustentada tem mais poder do que a espada e a cruzada. É uma das maiores revoluções culturais da história da humanidade.
Se António e Bacon foram os fundadores desta via que faz a palavra prevalecer sobre a força, o Padre Vieira foi o mais ilustre de todos os sermonistas. Usou a palavra na defesa dos índios, usou a palavra na defesa de D. João IV, usou a palavra para se defender nos cárceres da Inquisição. A palavra e o raciocínio silogístico. Não espanta pois que se tenha afirmado como diplomata, pois que a diplomacia é o Direito posto na vez da guerra, é o protocolo da palavra que, pela argumentação se torna politicamente actuante.A formação do Estado moderno, sob os auspícios de Maquiavel, implicará a emancipação do poder político dos reis relativamente a Roma e ao papado. O internacionalismo católico é ameaçador da soberania nacional reclamada pelos reis. As ordens religiosas, mormente as que dependem directamente de Roma como é o caso dos jesuítas, são vistas como ameaças ao poder régio que combate todos os antros onde vislumbre um esgar de concorrência no seu processo de afirmação plena. A monarquia absoluta reclama-se directamente iluminada por Deus e dispensa a tutela da Santa Madre Igreja. As igrejas nacionalizam-se, como já acontecera em Inglaterra e, onde antes notáramos um papa hierocrata, isto é, um papa que se reclama imperador, notamos agora o fenómeno cesaropapista, o que é dizer os reis exercendo cumulativamente a autoridade espiritual. A Inquisição torna-se um instrumento repressivo ao serviço do poder temporal e o catolicismo tridentino afirma-se como ideologia de Estado.
Não esqueçamos, por exemplo, que a Inquisição entra em Portugal a pedido de D. João III e que era um instrumento repressivo que nunca existira por aqui quando por aqui abundavam mouros e judeus. Já antes entrara em Espanha a pedido dos Reis Católicos que encontraram na repressão inquisitorial um meio de afirmação e consolidação do Estado em formação. Por outras palavras, a Inquisição serviu mais o Estado moderno do que a evangelização cristã, que aliás desvirtuou, numa época em que o papado era disputado pelas coroas europeias que escolhiam e dispunham da cadeira de S. Pedro no âmbito das suas estratégias políticas. Por tudo isto, a Revolução Francesa se afirmará contra a aliança entre o Trono e o Altar. A Monarquia e a Igreja são vistos como símbolos da repressão. O ódio e a fúria revolucionários arrasarão todos os símbolos dessa aliança. A cabeça de Luís XVI e a destruição do mosteiro de Cluny são bem os símbolos de como se ambicionava construir uma nova ordem sobre os escombros da sociedade do Antigo Regime. Uma ordem que Napoleão vislumbrará sob a inspiração directa dos antigos Césares de Roma, coroando-se a si próprio imperador, num gesto que remete para o exemplo de Carlos Magno, só que agora prescindindo da coroa posta pelas mãos do Papa. Ele próprio se coroa, numa cena eternizada por Jacques-Louis David. No entanto, Friedrich von Hardenberg, conhecido por Novalis, dez anos após a Revolução Francesa, achará ainda mobilizadora e até necessária, em face da nova situação pós-revolucionária, a recuperação da matriz civilizacional construída sobre a concepção cristã: «A Cristandade tem que voltar a ser viva e actuante, e voltar a edificar uma Igreja visível, sem consideração das fronteiras dos países, que acolha no seu seio todos os que têm sede do sobrenatural, e que seja de bom grado mediadora entre o antigo e o novo mundo.»
Por seu turno, Immanuel Kant, contemporâneo de Novalis, achando que o Cristianismo deve prescindir de uma autoridade centralizadora, assim se desvirtuando até, pois que o «seu fundador não fala na qualidade de um comandante que exige obediência à sua vontade, mas na qualidade de um amigo dos homens que põe no coração dos seus semelhantes a vontade deles bem entendida, segundo a qual eles por si mesmos agiriam livremente», concebe uma Europa sob o modelo de uma federação de Estados em que o exercício dos direitos individuais, resultantes de uma vontade inalienável do sujeito é intransferível para outrem. Ou seja, Kant recusa a constantinização do Cristianismo como modelo para a construção de um ideal universal e cosmopolita, ainda que reconheça que a matriz dessa ambição radica na mensagem cristã, apenas que Deus inspira os homens como entes livres, logo insubmissos a uma autoridade institucional, papal ou imperial. Por aqui podemos ver que, sob a inspiração idealista e iluminista de Kant, retomámos com o ideal europeu a velha ideia de unidade europeia que, herdada do Império, ganhou consistência histórica na sua aliança com a concepção cristãAo longo do século XIX, propagando-se os ideais revolucionários por toda a Europa, a Santa Sé resistirá às transformações e aos ventos da história, apoiando as forças absolutistas. Pois que a submissão da Igreja aos poderes nacionais vai contra o estatuto universalista do catolicismo e contra o ultramontanismo romano-católico.
Em 1833, Portugal e a Santa Sé, por exemplo, cortam as relações diplomáticas. Era papa Gregório XVI e o corte durou oito anos. Em face da modernidade secularizadora, o papado reage de forma ortodoxa: Pio IX estabelece o dogma da Imaculada Conceição (1854), publica a encíclica Syllabus (1864) onde condena o princípio da separação e condenava os rumos do progresso e a modernidade, depois de noutros documentos haver condenado o racionalismo, o liberalismo e o socialismo. Em 1870 proclama o dogma da infalibilidade papal. (Vaticano I: 1869 – 1870). Só em 1891, Leão XIII publicará a Rerum Novarum, encíclica que debate a actualidade social e política, defendendo o sindicalismo, negando a luta de classes e propondo o corporativismo.
Desde então, a Igreja católica viveu comprometida entre a tradição milenar, institucional e o estatuto privilegiado, por um lado, e aquele que é a realização do seu verdadeiro munus espiritual. Até que, João XXIII, no concílio de Vaticano II, promoveu a maior revolução silenciosa da história do ocidente. Basta que se entenda isto: a Igreja define-se como uma comunidade de crentes. Não uma hierarquia, nem uma instituição, não uma ortodoxia nem um Estado, não uma tradição nem um poder. Simplesmente uma comunidade de crentes. Há quem desconheça, inexplicavelmente, este facto, mesmo dentro da Igreja. Há quem não lhe reconheça o alcance. Há quem o ignore por inconveniente. Mas o facto é este: a Igreja Católica hoje é uma comunidade de crentes. Cabem lá todos, assim creiam e queiram. Não há coisa mais universal do que isto. Não vale a pena dizer nada sem antes ir ler as conclusões do Concílio. Não laboremos sobre o “eu acho”. Sejamos factuais. É verdade que entre o que ali se diz e o que se pratica vai uma distância abissal, por vezes. Como em todo o lado. Como entre a Constituição da República e a prática governativa, como entre a Carta das Nações e a política dos Estados. Mas a verdade é esta, bem expressa nas palavras do teólogo Hans Kung, citado por Anselmo Borges: o Concílio libertou a Igreja de «uma espécie de império romano sobrenatural, que se tinha mantido desde o século XI.» Querias ideias? Ei-las! Discute-as agora. Fundamentadamente, por favor.
Resposta:
Desconfio, à cabeça, de gente com convicções “profundas” ou “arreigadas”. Acho, nesse sentido, sábia a visão taoista da vida, centrada na dualidade dos contrários universais. As convicções não são excepção a essa regra e se a elas se devem inúmeras conquistas e realizações positivas, também contêm em si a semente do ódio e da destruição. Um terrorista islâmico ou nacionalista é um homem profundamente convicto da sua crença, por exemplo. Da mesma massa mas em sentido oposto é feita gente como Ghandi ou Madre Teresa de Calcutá. Um homem profundamente convicto, no entanto, e por norma, é um homem dogmático e prisioneiro das sua verdade. Dai a importância para mim de uma conduta pessoal ética, humanista e universal, igualitária e transversal, supra-confessional e supra-ideológica: tolerante.
Esta circunstância dualista do homem e das coisas, que tanto pano tem dado para as mangas de autores e filósofos há muitos anos, aplica-se também à história do cristianismo e à das religiões em geral. É assim que o cristianismo e o catolicismo romano em particular, consegue oferecer do melhor e do pior, a paz e a guerra, o amor e o ódio, a intolerância e a incondicional aceitação do “outro” diferente. Por essas e outras nuances, a história do cristianismo é uma realidade extremamente complexa e contraditória, um caminho de luz mas também de sombra e sofrimento. É também por isso que o pequeno ensaio do Borat pode ser lido como um manancial de contradições. É normal e é humano. Ao sustentar que a sua é uma igreja pioneira e revolucionária na separação de poder temporal e espiritual (o que nem é mentira na sua génese doutrinária, nas tais palavras revolucionárias de Cristo) Borat acaba por encher a sua prosa de exemplos precisamente do contrário, de casos em que foi e é flagrante a promiscuidade entre os dois poderes, de Constantino ao César-papismo, da coroação de Carlos Magno em Roma à Inquisição, da capacidade papal para destituir ou entronizar príncipes e reis às teorias de São Bernardo, do cisma Protestante ao banco Ambrosiano, o percurso da Igreja Católica está cheia de exemplos marcantes da interferência religiosa no governo dos homens e das coisas da terra – basta lembrar que se calcula que na Idade Média a Igreja do Vaticano controlava/possuía cerca de um terço das terras cultiváveis da Europa, como verdadeiros senhores feudais.
Aliás, desde 756 que o Papa era o administrador político do Património de São Pedro, o Estado da Igreja, constituído por um território italiano doado pelo rei franco, Pepino. Se isso não é poder temporal, o que será? Por todas estas e outras manifestações ou emanações do poder terreno do Vaticano, não admira portanto e por exemplo que a Revolução Francesa tenha vitimado sobretudo a nobreza e o clero. Não foi certamente porque o Clero andava a dar milho às pombas e aos pobres, mas era provavelmente porque as vozes de gente boa como o celebrado Francisco de Assis chegou mais profundamente aos peixes e a uns poucos cristãos do que à estrutura ortodoxa da Igreja. Assim como também não foi certamente por capricho que Lutero se revoltou contra a ortodoxia católica papista dominante e as suas indulgências e vida mundana, pregando em 1517 as suas 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg.
O facto é que nada disto é linear e muito menos simples e que vai uma grande distância entre o universo cristão, latu sensu e o sub-universo católico. Nesse contexto tendo a achar que razão tinha Antero de Quental na célebre conferência do casino dedicada às “Causas da decadência dos povos peninsulares”, onde traça uma clara demarcação entre cristianismo e catolicismo. Para o grande Antero, depois do Concílio de Trento, o Cristianismo, “que é sobretudo um sentimento”, afastou-se radicalmente do culto Católico, “que é principalmente uma instituição”. Segundo o autor, se o primeiro vive da fé, o outro medra do dogmatismo e da disciplina cega. A mesma que levou a iniquidades como a Inquisição ou a evangelização forçada de milhares e milhares de seres humanos, não à força do sacralizado “Verbo”, mas tão só à força da maior força, que em nome da Cruz arrasou culturas e credos milenares um pouco por todo o planeta.
Antero de Quental, recorde-se, foi também dos mais ferrenhos denunciadores do poder temporal da Igreja Católica no nosso país. Esse facto, de resto, levou a que as Conferências fossem proibidas por portaria real e por pressão da Igreja. Pressão essa que se manifesta ainda hoje em inúmeros capítulos da vida social e cultural e que de espiritual tem muito pouco. É neste sentido que acho que uma coisa são as boas intenções e as boas palavras, outra bem diferente são os factos e as suas consequências efectivas. Por isso é que eu acho (e o eu, já agora, sou os eus celebrados na capa da Time e que anuncia ao mundo a revolução “achista”) que uma coisa é a alegada mensagem de Jesus Cristo (é preciso não esquecer que os Evangelhos que compõem o Novo Testamento só começaram a ser escritos quase um século após a sua crucificação e muita coisa foi deturpada pelas conveniências do contexto ou da vontade do escriba) e outra bem diferente é a organização religiosa e doutrinal que a partir daí se foi desenvolvendo e enriquecendo, moldando-se às conveniências do momento histórico. E essa (lá está a qualidade dualista das coisas) acaba por ser também a vantagem do catolicismo sobre religiões como o islamismo, muito menos permeável à mudança e à força das circunstâncias. Não obstante e dada a sua natureza tendencialmente “imutável”, a Igreja Católica associa-se regra geral às tendências políticas mais conservadoras e reaccionárias (salvo raras excepções, como a citada pelo Borat “teologia da libertação” na América Latina, proscrita de resto pelas chefias eclesiásticas).
Se no Portugal da guerra civil dos anos trinta do século XIX a Igreja se posicionou, realmente, do lado das derrotadas forças absolutistas (apoio concreto e que traduz só por si uma manifestação de interferência no «poder temporal»), não admira também que tenha sido um dos esteios fundamentais da ditadura salazarista (“Deus, Pátria, Família”), ainda que para o final da sua vida e do seu consulado o presidente do Conselho tenha perdido totalmente a fé no ideário católico, como bem lembra Fernando Dacosta no seu excelente “As máscaras de Salazar”. Tudo isto são também factos, e tudo isto e a História mostram à exaustão como é falaciosa a tese da Igreja Católica enquanto expoente da “separação de poderes”. Teoricamente até será assim, e era bom que assim fosse e que a Igreja se reduzisse ao seu ministério espiritual, mas a prática vivida é uma realidade bem diferente e, por outro lado, há imensas formas, mais ou menos dissimuladas, mais ou menos directas, de condicionar ou interferir nos assuntos temporais e concretos da nossa vida social, económica, cultural ou política. Diz o Borat que a Igreja é “simplesmente” uma “comunidade de crentes”.
«Não uma hierarquia, nem uma instituição, não uma ortodoxia nem um Estado, não uma tradição nem um poder. Simplesmente uma comunidade de crentes». Não concordo. Por um lado, todas as igrejas, seitas, religiões ou cultos são obviamente comunidades de crentes. Por outro, a Igreja de Borat também é uma hierarquia, também é uma instituição, também é uma ortodoxia, também é um Estado, também é obviamente uma tradição e também é muito naturalmente um poder. E esse poder, basta olhar para o tema desapaixonadamente, tanto é espiritual como concreto. Quanto a caberem lá todos, como já afirmei, conheço poucos cultos religiosos onde não caibam todos os que assim queiram e creiam. Se isso é ser “universal”, repito, todas as religiões o são. E isto não sou só eu a achar, é o poder da evidência.
Para terminar, apenas lembro que além de não haverem verdades absolutas e definitivas, principalmente nas matérias do espírito e do sentido mais profundo da vida, a Igreja Católica, como todas as outras, é uma Igreja de homens para homens, e tanto é humana nas suas virtudes como nos seus defeitos e um destes, como sublinhava por exemplo Nietzsche, é a sede de poder, de supremacia, seja qual for a sua natureza, a que ninguém é imune, muito menos os homens que compõem a Igreja Católica Apostólica Romana, que é grande, mas é apenas uma entre muitas. Em si mesma nem boa nem má; em si mesma, por ser humana, má e boa em simultâneo. É tudo relativo, enfim, por muito que o senhor Ratzinger não goste.
Noto que não desmentes nenhum dos factos apresentados. Posto isto, e até porque são indesmentíveis, concluímos, no que mais interessa:
1- O Cristianismo é a única religião que concebe o poder espiritual separado do temporal.
2- A relação entre os dois poderes desenvolveu-se sob várias modalidades: em regime de aliança paritária, subalternidade de uma das partes, hegemonia teocrática ou ateísmo hegemónico, perseguições mútuas, separação formal com tratamento preferencial ou privilegiado, indiferença e neutralidade real ou aparente, etc. Em todos os casos, estes e outros, o regime subentendido é o da separação. Entende-se sempre a existência de dois poderes.
3- Este modelo de relação não existe em nenhuma sociedade que não se tenha erguido ou contaminado sob a influência cristã.
4- A história recente do Cristianismo mostra como a fé se remeteu para a esfera do privado, recolocando-se assim na sua dimensão doutrinária e estatutária original. É esse o sentido das conclusões do Vaticano II, que tu não leste, nota-se claramente. É esse o sentido de estudos sociológicos recentes, como por exemplo o de Jorge Vala, que afirma claramente que o regresso do religioso, fazendo-se sob diversas formas e modalidades, no que às religiões tradicionais diz respeito, se caracteriza por uma vivência interior, com diminuição das práticas e a passagem de uma identidade confessional a uma identidade religiosa. Tu não consideras esta realidade.
5- O Cristianismo é a única religião verdadeiramente universalista. Apesar das tuas ironias, não há nenhuma religião que aceite tanta diversidade. É verdade que tem uma ortodoxia, um clero, uma hierarquia, uma organização institucional, uma disciplina. Se o não tivesse não existia. A questão é como a Igreja se define: como comunidade de crentes. Igreja significa isso mesmo.Como notam todos os estudiosos, mais nenhuma, friso nenhuma, religião se define sob este critério. É este o carácter revolucionário do Vaticano II, que tu desprezas. É verdade que tem uma pluralidade interna, apesar da ortodoxia, que vai desde o franciscanismo ao Opus Dei, como mais nenhuma outra instituição. Toda a bibliografia, aliás, e friso toda, comprova estes factos. A capa da Time não é para quem acha. A expressão do pensamento através da palavra conheceu várias fases. Da oralidade (parenética) até à internet percorreu-se um longo caminho. Os emissores diversificaram-se até ao atomismo. É este facto, como característica da pós-modernidade, que a «Time» reconhece. Não é o direito ao disparate. É dedicada a quem pensa. Para pensar é preciso estudar. É esse um dos alcances da Conferência de Antero que condena a educação doutrinária e dogmática produzida pelos jesuítas e que gerou um rei que nos conduziu à decadência. Depois, termina a conferência apelando a que a Revolução seja o Cristianismo dos tempos modernos, tal como o Cristianismo fora a Revolução dos tempos antigos. Revolução é, para Antero e como diz Fernando Catroga noutro dos seus magníficos estudos, sinónimo de revelação, de onde se conclui que o socialismo visionário de Antero é não só reactivo ao positivismo dogmático e científico, como visa constituir-se como concretização histórica da teleologia cristã. Se quiseres empresto-te o livro. Não deves, porque não podes, atribuir-me uma fé. Nunca aqui procedi a nenhuma declaração de fé nem expus a minha intimidade religiosa ou ideológica. A Inquisição surgiu justamente para inquirir da fé das pessoas. Não podes atribuir-me uma crença. É incorrecto e contrário ao que declaras. Desvias a conversa para outras temáticas como a relação de Salazar com a Igreja. Podemos discutir isso, se quiseres, depois de esclarecermos os pontos em questão que são os identificados no 1º parágrafo. As afirmações que produzes relativamente à convicção dos homens são avulsas, desgarradas de qualquer contextualização teórica e fundamento filosófico, apenas insinuadoras. Para que alcancem um objectivo teórico, falta-lhes demonstração. Para que concretizem o alvo insinuado, falta-lhes frontalidade. A convicção ideológica é uma virtude. Em todos os sistemas éticos. Outra coisa é fanatismo. Chamar convicto a um terrorista islâmico é incorrecto. Da mesma maneira, justificar o altruísmo de Gandhi, por exemplo, com base na convicção, é o mesmo que explicar a excelência da Maria João Pires ao piano desta forma: tem duas mãos. Depois e finalmente, desfias uma série de banalidades e lugares-comuns sobre a história do cristianismo. Desde a Inquisição ao Salazar. Não há nada de novo, trata-se de um argumentário retirado dos manuais jacobinos que almejavam destruir o sentimento religioso no espaço de 2 gerações através da educação positiva. São factos que apresentas descontextualizados de uma forma simplista.
1 a – Os factos não se desmentem. Quanto muito poderia desvalorizá-los, o que não fiz, pelo contrário, alguns realcei-os, simplesmente porque os teus factos ajudam à minha argumentação. Precisamente porque têm aquela natureza dúplice e contraditória que atrás referi e revelam de que forma a Igreja católica tem interferido nas questões de poder terreno e temporal.
1 b – Dizer que o Cristianismo é a única religião que concebe o poder espiritual separado do temporal é no mínimo arriscado e uma prova de ignorância relativamente à riqueza e à pluralidade espiritual humana. Ou simplesmente de arrogância. Seja como for, e até porque esse é um tema bastante mais complexo a exigir uma atenção especial a cada uma das muitas manifestações religiosas humanas, não é isso o mais importante nesta discussão, nem, já referi, me repugna que o cristianismo conceba ambos os poderes separados, muito bem, ainda bem que o faz e esse princípio é admirável. Seja como for, em qualquer religião há sempre uma hierarquia de poderes, sendo que o superior é sempre o do espírito, o religioso: O poder de Deus está sempre acima do poder dos homens. O que eu sublinho é que ambos os poderes, na prática vivida, se intercruzam e se interinfluenciam. Não são estanques, feliz ou infelizmente. Basta pensar que um governante católico tenderá sempre a governar a sua comunidade mediante as orientações morais e éticas da sua religião, é esse de resto o princípio dos Mandamentos, dos ditames e das parábolas morais bíblicas ou de coisas como a “doutrina social da Igreja”. Além disso, volto a insistir: uma coisa são as intenções, outra são os actos e as dinâmicas sociais e políticas reais. É por isso que não nego, obviamente, qualquer dos factos elencados, precisamente porque também provam de que forma é difusa e gelatinosa a fronteira entre poder temporal e poder espiritual. Basicamente, se é pacífico que o cristianismo doutrinal advoga a separação entre o que é de César e de Deus, já não será tão pacífica a forma como as duas realidades se manifestam. Provavelmente é uma conversa interminável e irresolúvel.
2- Claro, há sempre dois poderes, naturalmente. E tal como ficou exposto e tu salientas têm andado relacionados, ainda que sob várias “modalidades” (falta ai a “simbiose”, que também por cá se gastou). A questão aqui é que o “poder espiritual” ou religioso não se limita a mandar no espírito de cada um, e mesmo que só o fizesse, tem sempre implicações concretas na vida dos homens e das coisas e inclusivamente nas questões da governação terrena. Basicamente, essa separação nunca é total senão no plano abstracto ou puramente moral.
3- Mais do mesmo.
4 – Não, não mostra nada disso. Continua na esfera do privado porque, obviamente não há tema mais privado do que este da espiritualidade e da fé, mas continua também a interagir com outras esferas. Se se recoloca na sua dimensão doutrinária e estatutária original é matéria do foro interno da Igreja Católica que só temos de louvar. Além disso comprova que a Igreja Católica aprende com os erros e muda. Muito bem. Não, admito que ainda não li as conclusões do Concílio. Um dia destes pego-lhe mas ainda não tive tempo nem oportunidade. Mas se é esse o sentido, parabéns. Acho ainda que esse senhor Jorge Vala é capaz de ter muita razão e é realmente de considerar, essa mudança de paradigma no que toca às novas formas de vivência religiosa. Mas também acho que essa alteração (ou, se quiseres, regresso a uma certa pureza cristã inicial, no caso cristão) pode ser uma ameaça à própria igreja enquanto comunidade de crentes. Ao passarmos de uma identidade confessional a uma identidade religiosa de natureza estritamente individual e livre, “interior”, ao prescindirmos de ritos e práticas exteriores, passamos também a poder prescindir padres e templos, eucaristias e sacramentos. E nesse caso a estrutura, a organização, torna-se irrelevante a não ser para efeitos evangelizadores, talvez.
5 – Não concordo. O Cristianismo não é a única religião “verdadeiramente” universalista. Não era ironia e todas as grandes religiões tradicionais apresentam diversidade de correntes, até o budismo, até o islamismo (sunitas, xiitas, sufis, wahabitas, etc.). E mais uma vez confundes, mal, cristianismo com catolicismo. Sob o “chapéu” cristão fervilham diversos credos e vivências espirituais e morais, desde os Mórmons aos Baptistas, dos Católicos Romanos (que é a tua linha) aos Anglicanos, é só escolher. E cada uma delas tem a sua ortodoxia, o seu clero, a sua hierarquia, a sua organização institucional e a sua disciplina. Precisamente, porque se o não tivessem não existiam. «A questão é como a Igreja se define: como comunidade de crentes. Igreja significa isso mesmo». Pois: exactamente. E isso serve para a tua, Igreja, como para as dos outros. E depois sou eu que sou “colonialista”… Quais “todos os estudiosos”?! E podes frisar à vontade que eu mantenho-me na minha que é, tal como a tua, a de mais um gajo a achar coisas: todas, repito, todas, se definem por esse critério. E mais uma vez enganaste, não desprezo nada o Vaticano II, pelo contrário até admiro a lufada de ar fresco que trouxe para arejar as ideias à Santa Madre Igreja Romana.
6 – Aconselho-te a ler outra vez a reportagem da Time. “Direito ao disparate”?! Por um lado sim, claro, bendito seja o direito ao disparate! Estás a ver como podemos aqui disparatar os dois à vontade? E não é bom? Pois claro! Até pensadores e estudiosos de águas profundas como tu têm esse direito mais consagrado e livre, hoje em dia, com isto dos blogues e dos podcasts, etc. Viva a pós-modernidade! «É esse um dos alcances da Conferência de Antero que condena a educação doutrinária e dogmática produzida pelos jesuítas e que gerou um rei que nos conduziu à decadência»: estás a ver como tu afinal percebeste o que eu disse em relação à separação entre poderes? Assim, dito por ti não é difícil de entender, pois não? O magnífico Catroga, mais uma vez, é capaz de ter razão. Só é pena que a Igreja Católica, mesmo após o Vaticano II, continue tão arredada dos magníficos e revolucionários princípios cristãos, socialistas, como recordas e muito bem.
7 – Não era nenhum desvio. Isto anda tudo ligado. A sério. Quais pontos em questão? Quais 1º parágrafo?
8 – O que é isso, avulso? Não são nada desgarradas de contextualização teórica e fundamento filosófico. Não são insinuadoras, são bastante directas e frontais e a demonstração da sua veracidade não está só no mundo da dialéctica abstracta, está nos factos e na constatação da vida. A convicção ideológica é uma virtude… se! Se a convicção for virtuosa, naturalmente. Se a convicção for destrutiva deixa de ter virtude. Ou não? Um terrorista islâmico é um homem profundamente convicto. Que parte desta frase é que te custa a entender? Tu é que estás a moralizar palavras e conceitos. Oram, as coisas são como são, tal e qual, potencialmente más e potencialmente boas. É por isso é que é tudo relativo. Para ti uma coisa pode ser “boa” enquanto para mim essa mesma coisa pode ser “má”. Tudo depende dos nossos padrões éticos e morais. E tu não és nem mais nem menos do que eu, és quem és, acreditas no que acreditas e ponto final, és uma ilha, mesmo que enquadres a ti próprio num arquipélago (podes chamar-lhe “comunidade de crentes” ou um assobio). De resto, todo o fanatismo repousa obviamente numa convicção, se quiseres é uma convicção levada ao extremo e vivida sem moderação e sem equilíbrio. A comparação entre o Ghandi e a Maria de João Pires é, acho eu, outro verdadeiro disparate. Citei o exemplo de Ghandi como o de alguém que canalizou de forma positiva as suas convicções, tão só. Banalidades e lugares-comuns? Antes fossem, meu amigo, antes fossem… já os jacobinos, bem, esses eram uns tipos tramados, uns exagerados de primeira, o que é que se há-de fazer? O facto de serem argumentos antigos não significa que estejam errados ou venham a despropósito. Felizmente há memória. Se são descontextualizados de forma simplista, pronto, o que é que se há-de fazer? Nessa medida também tu não trazes nada de novo nem de particularmente contextualizado ou profundo à discussão. Seja como for, tive o cuidado de ressalvar que esta é matéria de grande complexidade, que já deu origem a toneladas e toneladas de papel escrito e pensado. É natural que num pequeno debate desta natureza algumas coisas fiquem um pouco pela rama, à espera de “bom entendedor” e em nome da síntese.
Só uma adenda. De facto nem todas as religiões encaram o mundo e a vida em termos de “hierarquia” de poderes (um superior e outro inferior). O caso do budismo é curioso, nesse sentido. Nos termos formais e clássicos desta discussão, o budismo até é um exemplo de não-separação de poderes, temporais e espirituais: exerceram-no durante muito tempo no Tibete na sua dupla condição, em versão medieval. Mas assim como o cristianismo não é simples, também não o é o budismo e há muita literatura sobre isto tudo. Mas o budismo não enraiza na consciência de uma “entidade superior”, demiurga, criadora suprema e deificada.
A Wikipedia explica melhor: «Os ensinamentos básicos do budismo são: evitar o mal, fazer o bem e cultivar a própria mente. O objetivo é o fim do ciclo de sofrimento, samsara, despertando no praticante o entendimento da realidade última – o Nirvana.A moral budista é baseada nos princípios de preservação da vida e moderação. O treinamento mental foca na disciplina moral (sila), concentração meditativa (samadhi), e sabedoria (prajña).Apesar do budismo não negar a existência de seres sobrenaturais (de fato, há muitas referências nas escrituras Budistas), ele não confere nenhum poder especial de criação, salvação ou julgamento à esses seres, não compartilhando da noção de Deus comum à maioria das religiões. A base do budismo é a compreensão das Quatro Nobres Verdades, ligadas à constatação da existência de um sentimento de insatisfação (Dukkha) inerente à própria existência, que pode no entanto ser transcendido através da prática do Nobre Caminho Óctuplo. Outro conceito importante, que de certa forma sintetiza a cosmovisão budista, é o das três marcas da existência: a insatisfação (Dukkha), a impermanência (Anicca) e a ausência de um “eu” independente (Anatta).» Mais, aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Budismo.


Fazer o Bem.Generosidade de atitudes.Devoção à causa dos que mais sofrem.Lutar contra as injustiças.Pugnar por sociedades com economias de cooperação.Erradicar egocentrismos exacerbados.”De cada um segundo as suas possibilidades.A cada um segundo as suas necessidades”.Com crenças ou sem elas.Com Deus ou sem Ele.Um dia…
Com todo o respeito e estima que me merece, você é mas é um utópico, caro António. Ou um romântico
Ainda por cima com uma veia marxista! Um dia, quem sabe?… Esse dia é hoje e esse dia é seu António! Não pode mudar o mundo mas pode mudar o seu. E isso já não é nada pouco…
Eu não posso mudar o mundo João,mas uma borboleta pode,porque “quando uma borboleta bate as asas isso repercute-se em todo o Universo”…
Quanto a isso já não sei.
Ontem,num anfiteatro universitário,uma aluna,colocada à minha frente,entrou em histeria quando se apercebeu que por lá esvoaçava uma libelinha.E pedia aos “homens corajosos” que a matassem porque ela estava aterrorizada.O anfiteatro é bem amplo e a libelinha fez m amplo percurso por todo o local.Mas essa aluna permanecia particularmente agitada.
Depois de saltitar de bancada em bancada a libelinha foi colocar-se mesmo ao lado dessa colega.E esta,zás-trás-pás,não esteve com modas e esborrachou-a com um livro.
Já tinha firmado a convicção de que o estadolaneta depende do cruzamento de todas as interacções de todos os seres que aqui habitam.Neste caso,a libelinha deixou de bater as asas.A colega suspirou de alívio.E o mundo ficou mais pobre.Um acto aparentemente banal de esborrachar uma inofensiva libelinha repercutiu-se em todo o Universo,porque,a partir desse momento,este nunca mais será o mesmo.Uma vida a mais poderia ter resultado do gesto contido da colega.Mas ela não quis assim.Os nossos destinos são o somatório de todas as interacções.
“estado do planeta” ,e não “estadolaneta” ,quis eu dizer…;)
Aos três monoteísmos um nome deve ser dado com ur-gência: Terrosismo.
Pois, eles sempre foram e são um terrorismo; e embasa-dos pela sua mitológica escatologia, há tempo escrita, afo-garão o mundo humano, em sangue.
Aos três monoteísmos um nome deve ser dado com urgência: Terrosismo.
Pois, eles sempre foram e são um terrorismo; e embasados pela sua mitológica escatologia, há tempo escrita, afo-garão o mundo humano, em sangue.
isso tudo pra min e uma grande besteira
vcs ai so falam merda
ei vcs pra min sao um bando de bichona
ESTA É A IGREJA MAS ESQUISITA Q EU JA VIIIIIIIII!!!!
MAS ATE Q É IMPORTANTE PRA TABALHO NE?
TO FAZENDO UM TRABELHO AQUI!!!!