As culturas, as tradições, as instituições, as nações e até as famílias vivem muito em torno de mitos. Mitos que se tornam de certa forma legitimadores da sua identidade ou influência.
Um mito pode ser entendido mais ou menos como uma pequena mentira baseada por vezes num episódio real que se transforma e agiganta com o tempo, um pouco como acontece com a dinâmica do boato ou do meme. Depois de contada e recontada por muita gente, uma ideia ou uma história evoluem e mudam tomando proporções e contornos pouco ou nada fiéis ao acontecimento ou à ideia original. A isso acresce o velho aforismo que diz que uma mentira contada muitas vezes se torna verdadeira. O que é verdade.
Será verdade se, como é mais frequente, não tivermos perante ela o devido espírito crítico e, mais do que isso, conhecimento e memória.
Um exemplo prático relacionado com o anterior post: No Zimbabwe, Robert Mugabe ainda tem apoiantes além das clientelas que enriquecem na sua órbita porque conseguiu convencê-los que a culpa da miséria em que colocou o seu país é dos antigos e novos “colonizadores”, dos brancos, dos estrangeiros, dos ocidentais em geral e dos ingleses em particular. Ele tenta endireitar a nação, mas essas forças de bloqueio asfixiam o progresso: eis uma explicação mitológica que se transforma em doutrina. Um pouco por toda a África, aliás, subsiste esse mito, da exclusiva responsabilidade dos outros ou do passado pelos desmandos próprios, mito este que ajuda a perpetuar dirigentes sem capacidades nem qualidades. É extraordinário que haja ainda quem embarque nestas histórias, mas o facto é que há muitos que o fazem. Não necessariamente por estupidez, mas por manifesta falta de informação ou excesso de credulidade.
A Igreja Católica, confiante na ignorância do povo, também nutre os seus mitos (e as suas lendas). Um deles é o do princípio da separação de poderes, temporal e espiritual. É frequente ler e ouvir pessoas que juram a pés juntos sobre o provérbio “a César o que é de César e a Deus o que é de deus” aplicada ao catolicismo romano, há resmas e resmas de reflexões canónicas, académicas e teológicas escritas acerca desta matéria, laborando no princípio desta ser uma verdade inabalável e um princípio basilar efectivamente vivido pela Igreja Católica. Como se a verdade e a realidade se confinassem aquela frase e esta fosse indiscutível.
Não é, desde logo porque o termo “poder” tem muito que se lhe diga. Dando de barato que a Igreja tem ascendente sobre as almas (poder espiritual), que não dou, é fundamental perceber que também exerce um poder enorme e efectivo sobre as nossas vidas concretas e presentes e sobre a nossa governação colectiva. E isso é poder temporal. Não é por ser exercido de forma mais ou menos subtil que esse poder não é real. Existe e é exercido, só que se esconde por detrás de um provérbio.
É importante definir que se entende aqui o poder como a capacidade efectiva de influenciar ou alterar acontecimentos que afectem terceiros, mesmo à sua revelia. Podemos usar também a definição da wikipedia: «Poder (do latim potere) é, literalmente, o direito de deliberar, agir e mandar e também, dependendo do contexto, a faculdade de exercer a autoridade, a soberania, ou o império de dada circunstância ou a posse do domínio, da influência ou da força. A sociologia define poder, geralmente, como a habilidade de impor a sua vontade sobre os outros, mesmo se estes resistirem de alguma maneira.».
A questão do poder é complexa, obviamente, e manifesta-se aos mais diversos níveis da vida humana (e dos restantes animais do planeta), nomeadamente social ou inter-pessoal. É ao nível social que me refiro e a esse nível o poder da Igreja (de qualquer Igreja ou instituição religiosa) é imenso, mesmo que não se exerça de forma directa. Seja ao influenciar a acção dos detentores do poder político, seja ao determinar de per si condutas e regras sociais, com base numa moralidade e numa agenda próprias e afectando a vida de todos os cidadãos, incluindo os que não professam essa moralidade nem seguem essa agenda. À cabeça – e porque entretanto a religião foi domesticada no Ocidente e já não tem o mesmo poder coercivo e impositivo sobre os usos e costumes da população, como nos tempos das evangelizações forçadas dos indígenas das colónias ou do pensamento único obrigatório nas metrópoles – numa assumida Doutrina Social, a forma como a Igreja se posiciona face à sociedade e onde estão plasmados os princípios e as propostas da Igreja para a regulação social, para o comportamento do homem perante o outro e a comunidade *. Este será, enfim, o poder moral da instituição, que é enorme e é concreto (ou não fossem muitos legisladores e executores homens de fé), é obedecido e é evidentemente temporal, no sentido de ser do nosso tempo terreno e não do tempo eterno espiritual.
É claro que o poder concreto das religiões é um fenómeno mais evidente nas sociedades em que a distinção formal entre poder político ou militar e poder espiritual pura e simplesmente não existe, onde quem governa o faz explicitamente em nome de uma religião. Onde quem governa (curiosamente sempre com punho de ferro…) os destinos terrenos da comunidade são as próprias autoridades e leis religiosas, como no caso islâmico actual e como no caso cristão em inúmeras ocasiões da História europeia.
Efectivamente, a verdadeira separação formal entre Estado e Igreja só se concretizou no chamado mundo ocidental após o iluminismo e a influência de pensadores como John Locke ou David Hume, na Inglaterra, ou Tocqueville em França. Até aí e às revoluções liberais que se foram multiplicando até ao séc. XX, dos EUA a Portugal, o domínio da Igreja Católica sobre os governos (feudais ou centralizados) da terra era não só sistemático e visível como determinante no planeamento e na execução de políticas e medidas concretas do poder executivo.
O César-papismo, com o papa Alexandre VI, por exemplo, foi um expoente desse fenómeno, mas mesmo assim foi uma situação excepcional na história da Igreja Católica, que por norma exerce o poder temporal de formas efectivamente menos notórias, sempre ao lado do poder político da ocasião, tenha ele a natureza que tiver. Do Cardeal Richelieu ao Cardeal Cerejeira e à benção da Igreja à ditadura salazarista e às monarquias absolutistas portuguesas durante cerca de oitocentos anos, os exemplos abundam. Sob o pretexto dos pobres, caminha invariavelmente (necessariamente?) ao lado dos poderosos estabelecidos, a fim de zelar para que, na melhor das hipóteses, as massas vivam mansamente de acordo com os preceitos morais assentes desde logo nos mandamentos divinos judaico-cristãos, escritos na pedra e no Livro.
É por outro lado evidente que hoje em dia, sobretudo na Europa – já não diria o mesmo dos EUA, por exemplo, onde a religião está a voltar a ter um grande peso na governação, pelo menos na esfera republicana -, a influência social e política da Igreja já não é o que era, nestes tempos seculares e democráticos. Além de que a própria Igreja tem dado passos importantes e positivos nessa matéria, mormente com o Vaticano II, num esforço notável de adaptação ao espírito dos tempos, que é afinal o segredo da longevidade e do sucesso da instituição.
O poder cultural e moral, esse, tem-no vindo a perder há muito. A legalização do aborto em referendo popular num país que muitos dizem ser esmagadoramente católico, é um sinal evidente disso mesmo. Mas ainda é significativo, o ascendente da religião nas nossas vidas colectivas e individuais e organizações de elite como a Opus Dei existem precisamente para que esse poder concreto se mantenha na esfera das lideranças civis e militares, no sentido de ordenar o rebanho no sacramental “espírito de obediência” que deve ser apanágio do crente.
Seja como for, persiste o mito que a Igreja Católica é uma instituição desapegada ou alheia ao poder terreno. Nem é nem pode ser, naturalmente.
2 – Também há o mito do amor à Democracia, é claro, mas lembrei-me desta reflexão a propósito até de um outro mito católico que nos últimos tempos tem tido algum impulso em livros e intervenções das hierarquias e dos pensadores da Igreja. Refiro-me à relação da Igreja com a mulher e à tentativa de se reescrever a Igreja Católica como uma tradição muito dada ao feminino e ao respeito pela dignidade das mulheres. Não é, nunca foi, sempre foi uma ideologia de repressão e subalternização das mulheres (logo desde o princípio de tudo e do imaginário primordial cristão, na lenda de Eva, a pecadora original maldita. Como dizia o popular Santo António, “a mulher é a arma do diabo”…), mas hoje em dia tenta aparecer como se sempre tivesse sido um bastião da condição feminina! E essa tentativa de dar a volta por cima é sem dúvida espantosa, sobretudo numa Igreja desde sempre tão masculinizada e tão centrada na supremacia do homem e na submissão da mulher.
As recentes declarações do reitor do Santuário de Fátima, segundo o qual não vem mal ao mundo se a mulher levar uns tabefes do marido de vez em quando, expressam bem o espírito da velha Igreja que ainda subsiste em muitas cabeças.
Mas aos poucos, também sinal de abertura, lá se vão reabilitando as Marias Madalenas, lá se descobrem e saúdam os defeitos de Maria, lá se vão humanizando as santas, lá se vai permitindo à mulher um “papel mais activo” na vida da Igreja, e um dia destes, como já fazem os protestantes há muito, um papel mais activo na própria hierarquia da Igreja. Os tempos mudam, mudam as vontades e quem sabe, daqui a duzentos anos não teremos já uma papisa a governar o Estado Pontifício do Vaticano?
* «Doutrina Social da Igreja é o conjunto dos ensinamentos contidos no magistério da Igreja Católica constante de numerosas encíclicas e pronunciamentos dos papas inseridos na tradição multissecular e que tem suas origens nos primórdios do Cristianismo. Tem por finalidade fixar princípios, critérios e diretrizes gerais a respeito da organização social e política dos povos e das nações. É um convite a ação. A finalidade da doutrina social da Igreja é “levar os homens a corresponderem, com o auxílio também da reflexão racional e das ciências humanas, à sua vocação de construtores responsáveis da sociedade terrena” (João Paulo II, Sollicitudo rei socialis).» (in wikipedia)
Sugestões de Leitura:
«(…) Com que encarniçamento e de quantos modos está ardendo a guerra contra a Igreja, não é quase necessário lembrá-lo, diz na sua última encíclica Sapientiae Christianae o sapientíssimo papa Leão XIII. De ter sido dado à razão, armada com as investigações da ciência, arrancar à natureza grande número de seus segredos mais ocultos, e fazê-los servir aos diversos usos da vida, a tal ponto se ensoberbeceram os homens, que julgam poder expulsar da vida social a autoridade e o império da suprema divindade.
Transviados pelo erro, transferem à natureza humana aquele principado de que pretendem despojar a Deus. Ensinam que à natureza cumpre pedir o princípio e a norma de toda a verdade; que da ordem natural dimanam e a ela devem referir-se todos os deveres da religião. Por conseguinte, negação de toda verdade revelada, negação da moral cristã e da Igreja. Esta, segundo eles, não está investida do poder de legislar, nem de direito algum; antes nenhum lugar se lhe deve dar nas instituições civis. Para mais facilmente amoldarem por tais doutrinas as leis e os costumes dos povos, fazem todos os esforços para se apoderarem da direção dos negócios e pôr a mão no leme dos Estados. Assim em muitos países é o catolicismo ou abertamente combatido, ou secretamente atacado. Os mais perniciosos erros estão certos da impunidade e numerosos óbices são postos à profissão pública da verdade cristã.”
Os consectários forçados dessa luta incessante, audaz, infernal, travada em todo o mundo contra a ordem religiosa e social, são os que estamos vendo: esmorecimento da fé, abandono das práticas religiosas, depravação crescente dos costumes, o egoísmo substituindo a caridade, o cálculo a dedicação; perda do espírito de família, insubordinação no lar doméstico, na escola, no exército; desacatos à autoridade, abusos do poder público, falta de respeito geral, desenfreamento do luxo com todas as suas conseqüências, sacrifício de tudo às mais vis especulações, ânsia doentia de gozar e enriquecer a todo transe; adoração, enfim, geral, fanática, fervorosíssima do único Deus que impera neste século e nesta terra, de quem ninguém blasfema, perante cujo conspecto todos se curvam venerabundos: o Bezerro de ouro!
A desorganização social produzida pelo ateísmo, que tem hoje em dia foro de cidade, é tão vasta, tão profunda, tão radical, que os mais eminentes pensadores contemporâneos, prevendo à luz da história, cujas leis não falham, males ainda mais temerosos, que em futuro não muito remoto ela desencadeará sobre a sociedade, perguntam espavoridos: Deus meu! em tal correr aonde iremos parar?
É que este tremendo dilúvio de erros, cada qual mais pernicioso que alarga a sociedade moderna, máxime na Europa e nas duas Américas, ameaça arrastar e subverter tudo em águas lodosas e pestilentas, tudo: família, instituições, leis, religião, sociedade!
Conseguirá, porém, a impiedade levar ao cabo o seu nefando intento?
Não. Pôs Deus outrora as tranqüilas areias da praia como dique poderoso ao furor do Oceano, dizendo-lhe: Até aqui virás, não passarás além, quebrantarás aqui as tuas vagas embravecidas. [1]
Cristãos! Tenhamos fé. Esse mesmo Deus, acudindo pressuroso aos urgentes chamados de sua esposa perseguida, refreará a tempo a sanha dos maus, e, segundo os decretos insondáveis de sua Providência, marcar-lhe-á com o seu dedo onipotente os limites dentro dos quais eles poderão exercer a sua ação funesta e devastadora. Não irão além.
Nomeamos há pouco o ateísmo.
Deste monstruoso erro, fonte envenenada de mil desordens, nasce o esforço que vai fazendo a seita em vários países para exilar o Criador do mundo e o Salvador dos homens das relações públicas da vida humana. A enérgica expressão de Leão XIII: Ipse hum ani generis Auctor et Redemptor ab omni publica humanae vitae consuetudine exulare cogitur. [2]
Mas fazeis aqui um reparo. Este Deus que se pretende expulsar da vida social, como bem a propósito observa um pio escritor contemporâneo, “não é o Deus vago e frio das filosofias, que elas se comprazem em deixar lá bem longe nas regiões hiperbóreas de uma eternidade deserta; é o Deus vivo e pessoal, o Deus bom, o Deus que se revelou ao mundo e que habita no meio de nós no Sacramento do altar, na adorável pessoa do Nosso Senhor Jesus Cristo, o Deus que fez a Igreja, e que pelo ministério dela nos esclarece e nos rege, o Deus cuja política se resume toda nestas duas palavras: amar-nos e exigir o nosso amor.”
Para tornar mais eficiente o seu desígnio de ingrata e sacrílega exclusão, envolveu-o e dissimulou-o a astúcia sectária na fórmula de um princípio que seduz as inteligências incautas, de uma frase que apenas se impõe pela sonoridade.
Igreja livre no Estado livre, disse-o há tempos o caviloso Cavour, eco de mais antigos inovadores. Igreja separada do Estado, Estado separado da Igreja. Ecclesia a Statu, statusque ab Ecclesia sejungendus est, dizem hoje, à boca cheia, todos os corifeus do radicalismo moderno.
Assim, não há de andar mais a Igreja conjunta com o Estado. Um e outro poder exercerão ação separada e isolada, sem sequer se conhecerem mutuamente. Nada mais de união entre eles. Separação, separação! eis o que se proclama voz em grita, como uma das grandes conquistas intelectuais da época! O mundo social nada tem que ver com a religião.
Tal é a formula teórica que se pretende hoje em dia reduzir à prática, e com o que se dá como resolvido o momentoso problema das relações entre a Igreja e o Estado.
Esta doutrina não a podemos os católicos admitir, porque está condenada pela Santa Sé Apostólica na 55a. proposição do Syllabus ou rol de erros contemporâneos, que acompanha a memorável Encíclica Quanta Cura, dirigida por Pio IX, de gloriosa memória, a todo o orbe católico.
Já em 1832 entendera Gregório XVI que imperioso lhe corria o dever de denunciá-la à reprovação da consciência cristã.
Ouvi as suas próprias palavras:
“Não temos que pressagiar, diz o venerando Pontífice, nada mais feliz para a religião e para os governos, dos desejos daqueles que querem a Igreja separada do Estado, e que se rompa a mútua concórdia do império e do sacerdócio; porque é certo que esta concórdia, tão favorável sempre e tão saudável aos interesses da religião e da autoridade civil, é objeto de terror para os partidários de uma desenfreada liberdade”. (Encíclica Mirari vos).(…)»
«(…) Já que nenhuma abstração existe por si ou para si mesma, já que não tem pernas para andar, nem braços para criar, nem estômago para digerir as milhares de vítimas que lhe são dadas para que devore, torna-se óbvio que essa abstração religiosa e celestial, o próprio deus, representa na verdade os interesses muito positivos e reais de uma casta privilegiada, o clero. Da mesma forma que seu complemento terreno, a abstração política, que é o Estado, representa os interesses não menos reais e positivos da classe que é hoje o principal – se não o único – agente da exploração e que, além disso, ainda demonstra uma certa tendência para absorver todas as outras classes: a burguesia. E assim como o clero sempre estava dividido e hoje tende a dividir-se ainda mais entre uma minoria rica e poderosa e uma maioria empobrecida que lhe é subordinada; assim também a burguesia e suas várias organizações – tanto sociais quanto políticas, na indústria, agricultura, bancos e comércio, bem como em todas as funções administrativas, financeiras, judiciárias, acadêmicas, policiais e militares do Estado – tendem a tornar-se uma verdadeira oligarquia. Transformar-se-ão em enorme massa de indivíduos pretensiosos e decadentes, vivendo numa ilusão perpétua, empurrados inevitavelmente e cada vez mais para o proletariado pela força irresistível da situação econômica atual e reduzidos a servir como instrumentos cegos dessa toda-poderosa oligarquia.
A abolição da Igreja e do Estado deve ser a primeira e indispensável condição para a verdadeira libertação da sociedade; só depois que isso acontecer é que a sociedade poderá ser organizada de uma maneira diferente. Não de cima para baixo e segundo algum plano ideal sonhado por alguns sábios e eruditos, e menos ainda por decretos emanados de algum poder ditatorial, ou ainda por uma assembléia nacional eleita por sufrágio universal. Como já demonstrei, um tal sistema levaria inevitavelmente à criação de um novo estado e, conseqüentemente, à formação de uma aristocracia oficial, isto é, uma classe de indivíduos que não teriam nada em comum com o povo e que começariam imediatamente a explorar e subjugar esse povo em nome do bem estar geral ou para salvar o Estado.
A futura organização da sociedade deveria ser realizada de baixo para cima, pela livre associação e união dos operários; primeiro em associações, depois em comunas, em regiões, em países e, finalmente, numa grande federação internacional e universal. Só assim poderá ser estabelecida a liberdade e a facilidade geral da nova ordem, uma ordem que, longe de querer negar, garante e tenta harmonizar os interesses dos indivíduos e da sociedade.
Algumas pessoas acreditam ser impossível obter essa harmonia entre os interesses dos indivíduos e os interesses da sociedade como um todo, pois tais interesses são contraditórios, jamais alcançando um equilíbrio ou até mesmo chegando a um mínimo entendimento mútuo. A tais objeções respondo que, se até agora esses interesses jamais foram comuns, a culpa cabe ao Estado, que sempre sacrificou os interesses da maioria em benefício de uma minoria privilegiada. Aquela famosa incompatibilidade, aquele conflito entre os interesses pessoais e os da sociedade não são mais do que um artifício e uma mentira política nascidos de uma mentira teológica, que inventou a doutrina do pecado original para degredar o homem e destruir sua consciência íntima de seu próprio valor. Esta falsa idéia do antagonismo de interesses também foi disseminada pelas ilusões da metafísica que, como se sabe, é parente próxima da teologia.
Por não compreender a sociabilidade da natureza humana, os metafísicos consideravam a sociedade um agregado mecânico e artificial de indivíduos. Este agregado seria formado abruptamente sob a bênção de algum tratado formal ou secreto, feito livremente ou influenciado por algum poder superior. Antes de entrar para a sociedade, estes indivíduos, dotados de uma alma imortal, gozariam de liberdade total.
Os metafísicos, sobretudo os que crêem na imortalidade da alma, afirmam que, fora da sociedade, os homens podem unir-se em sociedade apenas ao custo de sua liberdade, sua independência natural e do sacrifício de sues interesses. Tal renúncia, tal sacrifício deve, portanto, ser mais imperativo quanto a sociedade for populosa e sua organização mais complexa. Em tal caso, o Estado é a expressão de todos os sacrifícios individuais. Por existir de forma tão abstrata e ao mesmo tempo violenta, o Estado continua cada vez mais a impedir a liberdade individual em nome da mentira chamada “bem comum”, que obviamente representa os exclusivos interesses da classe dominante. Desta forma, o Estado se mostra como uma negação inevitável, uma aniquilação de toda a liberdade, de todos os interesses individuais e gerais.
Todos os sistemas metafísicos teológicos estão unidos de tal forma que são mutuamente explanatórios. Esta é a razão porque os defensores destes sistemas podem e devem continuar a explorar as massas em nome da Igreja e do Estado. Enchendo seus bolsos e satisfazendo sua luxúria imunda, eles, ao mesmo tempo, podem consolar-se com a idéia de que estão trabalhando para a glória de deus, pela vitória da civilização e pela causa do proletariado.(…)»

