Cães de Palha
Entrevista de Carlos Vaz Marques (TSF, “Pessoal e Transmissível”, 29/03/07) ao filósofo britânico John Gray, por ocasião do lançamento em Portugal da sua última obra “Sobre humanos e outros animais” (Lua de Papel). No original o título é “Straw Dogs – Thoughts on Humans and Other Animals”.
Para um conhecimento mais aprofundado do pensamento de Gray, reproduz-se também aqui uma outra entrevista do pensador à revista brasileira Veja em 2005 e faz-se link para outra entrevista à Revista Época. Para terminar, reproduzimos um excerto do livro.
E eis então uma conversa radiofónica tão interessante que não resisti a investir umas horas a transcreve-la para aqui, como uma espécie de obrigação ética superior. Espero que os donos da rádio e o (excelentíssimo) entrevistador não se importem e acho que este tipo de reflexão e debate deve ser ampliado. Entre muitas outras vantagens, desmonta muitas das nossas belas verdades adquiridas e põe-nos a pensar. Aqui vai então grande parte da magnífica entrevista, como são, de resto, todas as deste grande conversador radiofónico. Simplesmente enriquecedor:
A esperança é um impulso natural do homem, quando alguém se encontra numa situação difícil deve aspirar a algo melhor, mas em termos genéricos, penso que a boa disposição (cheerfulness) é mais importante que a esperançaO propósito fundamental da filosofia não é dizer às pessoas como devem viver, nem é pregar, nem sequer tentar persuadir, passa simplesmente por fazer luz sobre os conflitos que acontecem no mundo, perceber os conflitos, conflitos morais, conflitos políticos, conflitos religiosos que acontecem de facto, perceber ou trazer luz sobre estes conflitos
E essa natureza da filosofia mudou, ou é essencialmente a mesma desde o tempo dos gregos antigos?
Bem, os gregos antigos tinham uma ideia muito mais ambiciosa da filosofia, a de que a filosofia deveria indicar a melhor forma de vida para os seres humanos. Eu não acredito que a filosofia possa fazer isso. Mas pode ajudar-nos a pensar com clareza, acerca das diversas formas em que as pessoas querem viver.
Deixe-me agora lançar-lhe uma provocação: o que é que há de errado com a filosofia?
Não há nada de errado com a filosofia
Pergunto-lhe isto porque no seu livro “Sobre Humanos e outros animais” escreve que, tal como é actualmente praticada, a filosofia é a tentativa de encontrar boas razões para crenças convencionais.
Muita filosofia parece-me uma forma de defesa de crenças convencionais, esse género de filosofia parece-me desinteressante e acaba por nos levar para uma espécie de ficção, muita filosofia não passa de má ficção, porque procura encontrar harmonia em vez de esclarecer os verdadeiros conflitos.
A filosofia deve procurar o conflito?
Não, mas deve iluminar os conflitos, ajudar-nos a perceber os conflitos, em vez de imaginar uma harmonia inexistente e que não pode ser alcançada. Portanto, a minha concepção de filosofia distingue-se da concepção tradicional por não procurar descrever um mundo harmonioso, ou racional, inexistente. Aspira a compreender o mundo natural, que inclui os seres humanos, que sempre foram altamente irracionais.
Diria que as crenças convencionais são um problema?
As crenças convencionais estão sempre muito afastadas da realidade. Os seres humanos desenvolvem crenças, em parte para conhecerem o mundo, mas mais frequentemente para se sentirem bem no mundo. As crenças representam a realidade até certo ponto, mas também correspondem a necessidades psicológicas de confiança e de segurança. Não há nada de mau nisso, mas se essas crenças estiverem seriamente equivocadas, se as nossas crenças acerca do mundo estão muito longe de corresponder aquilo que o mundo é de facto, isso pode mais tarde vir a causar grandes problemas. Se agirmos em função de crenças altamente equivocadas, acabamos muitas vezes por nos deparar com problemas graves.
E a filosofia, do seu ponto de vista, é o terreno adequado para lutar contra isso?
Não, os meus livros não são programas políticos, ou para virem a ser corporizados por projectos políticos. São escritos para o esclarecimento de cada leitor, considerado a título pessoal, cada leitor pode retirar do livro o máximo que pretenda ou o mínimo que queira, os meus livros querem simplesmente iluminar as suas reflexões acerca das suas vidas. Depois podem fazer o que quiserem com eles.
Isso leva-nos a uma das suas frases mais fortes: “não acredito em acreditar”. O que é que o levou a uma conclusão destas?
Bem, muitas religiões e filosofias ocidentais sempre deram uma grande importância aquilo em que acreditamos. As religiões ocidentais assumem frequentemente a forma de credos ou doutrinas…
Mas nesta frase não está a falar apenas de crenças religiosas, parece-me. Ao ler o seu livro pareceu-me até que nem era a essas que se referia em primeira instância.
Bem, eu não acredito em crenças religiosas, mas acredito ainda menos em crenças políticas. No século XX, para muitas pessoas, a política substituiu a religião. O século XX conheceu muitos movimentos políticos, em regra de grandes dimensão e bastante destrutivos, o comunismo, o fascismo, foram formas seculares de crenças religiosas. Acho que uma pessoa civilizada só deve acreditar quando isso for absolutamente necessário, as crenças devem reduzir-se ao mínimo. É importante ter crenças verdadeiras, no Direito, na Ciência, na Medicina, mas em religião, em ética e em política, a dúvida é mais proveitosa do que a crença.
Aceita o rótulo que por vezes lhe é colocado de “céptico radical”?
Sim, não me importo de ser considerado um “céptico radical”. Isso não significa que eu rejeito a ideia de verdade, não sou um pós-modernista ou um relativista radical, acho por exemplo que a ciência, ainda que nunca alcance a verdade derradeira é o melhor guia para chegar a crenças sobre a natureza…
Afinal ainda aceita algum tipo de crenças.
Na ciência, mas as crenças devem ser entendidas como teorias probabilísticas e provisórias e não como dogmas. Perguntaram uma vez ao escritor e humorista inglês P. J. Woodhouse: “tem alguma crença religiosa, senhor Woodhouse?” – é importante notar que não lhe perguntaram quais eram as suas crenças religiosas, mas antes se tinha crenças religiosas – e ele respondeu, “é muito difícil sabe-lo”. Penso que uma abordagem muito civilizada. Acho que adoptar crenças, em muitas áreas da vida, como na ciência, no direito, na medicina, por exemplo, é possível, têm de ser verosímeis, precisamos de crenças na vida quotidiana. Na religião, na vida do espírito, a dúvida é muito mais importante. Em ética e em política devemos sempre encarar as nossas crenças como provisórias. Por vezes, podemos ter-nos empenhado de forma bastante séria, se confronta-mos fundamentalistas ou terroristas, se temos pela frente os movimentos totalitários que enfrentámos no século XX, como o comunismo, o nazismo, temos de assumir uma atitude muito resoluta. O que é interessante no século XX é que o comunismo ou o nazismo não foram destruídos por fundamentalistas, por fanáticos, foram destruídos, derrotados, por seres humanos civilizados, que foram bastante estóicos, cépticos, mas que sabiam que teriam de lutar. Acho que a ênfase na importância das crenças, do valor da crença, é muito exagerada.
A culpa disso é do humanismo e das filosofias humanistas, que são um dos seus alvos preferidos?
Bem, as crenças que mais recentemente têm dominado a civilização ocidental e europeia têm sido de alguma forma crenças humanistas. O meu argumento é o de que, mesmo sem o admitirem, essas formas de humanismo assentam em grande parte no cristianismo…
O que nalguns casos não deixa de ser irónico.
Sim, sobretudo dado que muitos humanistas são hostis ao cristianismo, muito hostis. E o mesmo se pode dizer de muitos pensadores do iluminismo. Apesar disso, inspiraram-se e muito no cristianismo, mas infelizmente, apropriaram-se das coisas erradas. Há alguns aspectos do cristianismo que são muito válidos, por exemplo, a doutrina cristã, que por sinal é agora bastante impopular entre os cristãos, do pecado original, que assume que os seres humanos são inerentemente imperfeitos, é uma doutrina muito impopular, mas penso que é verdadeira. Não na forma original do mito cristão, mas a ideia de que os seres humanos têm imperfeições foi aceite praticamente por todas as religiões até ao início do iluminismo, no século XVIII…
Essa doutrina do pecado original, a história do fruto proibido, por outro lado, é a de que o conhecimento é perigoso, comporta riscos.
Muitos filósofos pensaram isso e é interessante que isso esteja no antigo testamento, o mito do génesis, de Adão e Eva e da árvore do conhecimento, admite-se no antigo testamento que o conhecimento pode revelar-se perigoso, tanto como pode ser bom. Penso que essa percepção, esse mito, é um mito muito válido. Em parte, estou a tentar recuperar a sabedoria, a percepção, a verdade, se quiser, desses mitos antigos. Os mitos não são verdadeiros ou falsos, no sentido em que as teorias científicas podem ser verdadeiras ou falsas, os mitos podem ser mais ou menos verdadeiros, na medida em que reflectem as realidades humanas, ou as escondem. Penso que muitos dos velhos mitos religiosos, desde que não sejam encarados de forma fundamentalista, podem ser vistos como afirmações simbólicas de realidades humanas profundas. Os mitos do pensamento secular são normalmente superficiais e confusos.
Qual é do seu ponto de vista o mito convencional mais presente na nossa vida, hoje?
Penso que o mito convencional que as pessoas mais cultivam, e em função do qual vivem, hoje em dia, é a crença no progresso. Como já lhe disse, não sou um relativista radical, ou um pós-modernista, considero que existe progresso no campo do conhecimento, há progresso quanto ao crescimento do conhecimento humano, há progresso na ciência, há progresso na tecnologia, tais progressos são um facto.
O que não aceita é a ideia do chamado progresso humano?
Não há progresso do mesmo género na ética e na política. Na ciência e na tecnologia, aquilo que se ganha, normalmente não se perde, se obtivermos um melhor entendimento na astronomia ou na biologia, não o vamos perder na próxima geração. Na ética e na política, tudo o que se ganha pode perder-se e em regra acaba por se perder. Foi isso, obviamente, que pensaram os gregos antigos, os antigos romanos, os chineses da antiguidade, os antigos japoneses e indianos, foi o que todos eles pensaram. Só nos últimos 200 anos é que os seres humanos, na Europa e noutras partes do mundo começaram a pensar no progresso, no progresso humano, no progresso em matéria de ética e de política. No meu entender, esta crença convencional, que a maior parte das pessoas aceita actualmente é um erro, uma ilusão e pode revelar-se perigosa.
Está mesmo convencido que a maior parte das pessoas hoje em dia pensa que a humanidade pode tornar-se melhor e que está a caminho da perfeição?
Bem, as pessoas podem acreditar nisso…
Sim, mas pensa que isso se trata de uma crença generalizada?
As pessoas gostam de acreditar nisso, gostam de acreditar que os seres humanos se tornam melhores, mas não há provas nenhumas disso.
Pergunto isto porque suspeito que haverá muita gente a discordar de si e dessa certeza de que a maior parte das pessoas está convencida de que os seres humanos estão a tornar-se cada vez mais perfeitos.
Bem, se não acreditarem nessa ideia são pessoas sensatas, toda a grande literatura, por exemplo, é isso que nos diz. O interessante é que a grande literatura e as grandes religiões aceitam que os seres humanos pouco mudam, em épocas e em culturas diferentes…
Continuamos a ler Homero, e a gostar de ler Homero porque ainda nos fala de coisas actuais.
Exactamente, mas na política, hoje em dia, se um político nos vier dizer que os seres humanos são cruéis e gananciosos e estúpidos como sempre foram, não será eleito, se um político disser que não há progresso nem ética na política, se disser “não vos posso prometer grande coisa”, não será eleito. O pessimismo, o realismo, eu diria, o cepticismo, não é uma boa fórmula democrática. Portanto, apesar da grande arte, da literatura, até de grandes filmes, de grandes pensadores religiosos, apesar de todos eles concordarem que os seres humanos continuam tão imperfeitos como sempre foram, a política assenta na promessa do progresso. Como já referi, em certa medida, há naturalmente progresso, quando é resultado directo da ciência e da tecnologia, vivemos mais anos, temos melhor saúde, há maior prosperidade, melhores medicamentos, melhores tratamentos e nesse sentido, claro, existe progresso, mas a ciência e a tecnologia não são usados apenas para melhorar a condição humana, também são aplicadas para fins destrutivos, portanto, a questão fundamental da ameaça das armas de destruição maciça, que representam um perigo real, têm a ver com o avanço do conhecimento. Daqui por 50 anos, dezenas de milhões de pessoas terão conhecimentos científicos para criar armas biológicas, porque o conhecimento dissemina-se por centenas de universidades, milhares de empresas comerciais, centenas de organizações diferentes, o conhecimento aumenta, torna-se difuso. O problema maior das armas de destruição maciça é derivarem do aumento do conhecimento, portanto, a crença no progresso é uma espécie de mito secular quer dissimula, esconde ou disfarça a ambiguidade, o carácter ambivalente do conhecimento.
E é por isso que fez daquilo a que chama o “humanismo moderno” o seu principal alvo? O erro fundamental do humanismo é então a crença no progresso humano?
Sim, o erro fundamental do humanismo moderno é a crença no progresso, mas abarca a ideia mais geral de que o aumento do conhecimento é, por si próprio, libertador, os velhos mitos do Génesis e de Prometeu, o velho mito grego, daquele que foi preso numa montanha por ter descoberto o fogo, são mitos de uma grande profundidade e sabedoria. Isto não significa que se possa deter o avanço do conhecimento, não significa que se possa ou deva inverter esse avanço. Como ensina o Génesis, depois de se comer a maçã, não se pode descome-la, temos de aprender a viver com isso, mas temos de o fazer de olhos bem abertos. As pessoas costumam dizer, nós podemos usar o conhecimento apenas com propósitos benéficos. Quem somos “nós”? A humanidade não existe como uma unidade colectiva única, há milhões, dezenas de milhões, milhares de milhões de diferentes seres humanos com propósitos diversos, diferentes crenças e diferentes valores, todos os seres humanos têm necessidades conflituais e contraditórias, é impossível, portanto, usar o conhecimento exclusivamente para fins benéficos, haverá sempre, também, uma utilização destrutiva. O melhor a que podemos aspirar é a obter um equilíbrio mais inteligente, no sentido de usarmos o conhecimento de uma forma um pouco mais sensata, ou um pouco mais benigna.
Que papel desempenha o darwinismo, a teoria da selecção natural, na sua argumentação?
Bem, por vezes sou descrito como uma espécie de darwinista radical e é claro que aceito a teoria darwiniana, é a melhor teoria existente o desenvolvimento dos seres humanos e da vida existente neste planeta, mas uso a teoria de Darwin no meu livro “Sobre humanos e outros animais” não por a considerar um dogma inabalável ou uma ortodoxia, é porque muitos humanistas modernos dizem-se darwinistas, mas de facto tratam Darwin como uma questão de fé, afirmam ao mesmo tempo que os seres humanos são diferentes de todos os outros animais, dizem que Darwin mostrou que os seres humanos, como outros animais, outras espécies, surgiram por via da selecção natural mas que, depois do nosso aparecimento, passámos a poder controlar o nosso destino, podemos decidir o que fazer das nossas vidas. O meu argumento contra isso é o de que se o darwinismo é verdadeiro, como acho que é, então as espécies não agem, os seres humanos não podem agir como uma única entidade, tal como não podem fazer os leões, nem os tigres, ou as baleias, não se pode dizer que a espécie dos tigres vai determinar o seu futuro e o mesmo vale para a espécie das baleias, há imensas baleias, muitas baleias individuais, imensos genes de baleias e movem-se num fluxo evolucionário, num processo, as espécies não conseguem controlar os seus destinos e os seres humanos, neste sentido, não são diferentes dos outros animais. Claro que os seres humanos são diferentes de outros animais, em alguns aspectos, os seres humanos escrevem livros de filosofia…
E conseguem reflectir sobre isso, pensar sobre isso.
E também se podem iludir, a auto-ilusão, não o engano que já foi observado nos pássaros e até nos insectos, outros animais podem enganar-se uns aos outros, agora, a auto-ilusão parece ser um atributo exclusivamente humano, práticas como a tortura parecem ser exclusivamente humanas, o genocídio parece ser exclusivamente humano, há alguns atributos exclusivos dos seres humanos, alguns deles destrutivos, ou outros, como a religião, que parecem ser também exclusivos, quanto à música, não sabemos, a filosofia, seguramente, os golfinhos, tanto quanto sabemos não escrevem livros de filosofia… Existem algumas características únicas nos seres humanos, mas todas juntas não implicam um corte radical entre os seres humanos e os outros animais. Repare, no cristianismo, os seres humanos têm alma e os animais não. Quando Deus criou o mundo, segundo o mito cristão,criou muitos animais, mas os seres humanos eram radicalmente diferentes, quando os seres humanos morrem sobrevive-lhes a alma, quando morrem os animais é apenas a morte, esta crença de base na diferença radical entre humanos e outros animais parece-me ter sido transferida para o humanismo moderno, para o humanismo secular, mas está em contradição com o darwinismo, portanto, quando uso o darwinismo neste livro, uso-o como uma espécie de arma contra o humanismo moderno, que se afirma darwinista mas não assimilou o essencial da mensagem de Darwin.
Essa mensagem darwinista, ou pelo menos a forma como o John Gray a entende pode resumir-se pelo menos numa forma simples, a de que não se pode mudar o mundo. Como é que chegou à conclusão que é impossível pensarmos em mudar as coisas?
Bem, a minha mensagem em “Sobre humanos e outros animais” é um pouco mais positiva do que isso. O que eu tentei, entre outras coisas, além da mensagem negativa, passa também por isto: não é necessário mudar o mundo para levar uma vida feliz, com sentido, uma vida plena. Na era moderna reina a ideia de que se como indivíduos não tivermos mudado o mundo ou melhorado o mundo, então falhámos. Ora, de facto, a maior parte de nós não pode mudar ou melhorar o mundo, daí essa ideia de que a maioria das vidas redunda em fracasso. Mas no mundo antigo e até bem recentemente, e ainda agora, a maior parte das culturas humanas aceitaram ou tiveram a ideia de que a contemplação, seja religiosa ou estética, contemplar, olhar o mundo, também podem ser actividades válidas, o simples contemplar a beleza do mundo, sem qualquer tentativa de o modificar…
E o que há de feio no mundo, também…
Até o que há de feio no mundo, embora isso seja uma actividade um pouco perversa, mas a contemplação, até entre os gregos antigos era considerada superior à acção, Aristóteles pensou assim. No budismo, a contemplação é considerada a mais elevada forma de actividade humana e até mesmo o cristianismo sempre integrou práticas contemplativas. Portanto, o que eu quero dizer é que ao longo do tempo milhões e milhões de seres humanos levaram vidas plenas e realizadas e muitos deles não mudaram o mundo.(…)
Se ao longo da história tivesse prevalecido essa atitude contemplativa, John Gray, talvez ainda estivéssemos a viver num mundo dominado pela religião, pelo poder absoluto, com escravatura, abusos de toda a ordem… Estaríamos melhor?
Mas também poderíamos não ter sofrido o comunismo ou o maoismo, essas grandes e terríveis tentativas de mudar o mundo. Um dos paradoxos da vida humana passa pelo facto das tentativas de alterar e melhorar radicalmente a vida redundarem regra geral em algo de muito pior. Se esses anseios tivessem sido concretizados, o mundo seria ainda muito pior. A maior parte das utopias é mais mortífera do que a realidade existente. Olhando para a história, tendo a pensar que os activismos para transformar e melhorar o mundo tiveram consequências mais negativas do que positivas. Se tivéssemos contado com mais gente com uma atitude contemplativa o mundo provavelmente seria menos violento e menos cruel. Não teria sido completamente pacífico, não seria absolutamente belo, porque isso não é possível, mas provavelmente teria podido ser menos selvático. (…) A contemplação não precisa de ser a meditação do yoga ou a vida num mosteiro, a contemplação pode ser um mero olhar para um belo por do sol. Olhar um por do sol não é querer modificá-lo ou torná-lo mais belo, fazer umas quantas nuvens feias, não é nada disso. Assiste-se a um belo por do sol e nada mais. A contemplação, nesse sentido, faz parte das vidas felizes da maioria dos seres humanos (…)
O peso das ilusões
Para o pensador inglês, a fé no progresso é uma ilusão, o homem não é dono de seu destino e os avanços científicos nada têm a ver com a ética
Thereza Venturoli
O inglês John Gray, professor de pensamento europeu na London School of Economics, de 57 anos, é homem de frases curtas e categóricas, como “o conhecimento não nos torna livres” ou “nenhum projeto político pode salvar a humanidade de sua condição natural”. Com afirmações como essas, ele declara, em seu mais recente livro, Cachorros de Palha (Editora Record), seu ceticismo com relação à tradição cultural do Ocidente. Gray acusa o humanismo secular moderno, que embebe a filosofia, a política e a ciência, de herdar do cristianismo a idéia – ilusória, segundo ele – de que o homem tem papel central no universo. Para o autor, ao contrário, o Homo sapiens não é mais do que uma espécie cuja passagem pelo planeta é efêmera e cujo destino é selado pelas mesmas leis naturais que regem as demais formas de vida. Pessimismo? Segundo Gray, a mensagem do livro não é de desespero, mas de libertação. Ele quer livrar o homem das ilusões que o fazem se sentir responsável por “carregar a Terra sobre os ombros”. Até porque não adiantaria nada.
Veja – Uma das teses centrais de seu livro Cachorros de Palha é a de que a crença no progresso é uma ilusão. Mas não seria essa crença uma necessidade, digamos, darwiniana dos seres humanos – um traço desenvolvido pela espécie por favorecer sua sobrevivência?
Gray – A crença no progresso não tem necessariamente uma razão evolutiva, não faz parte da biologia humana, em absoluto. É algo que data do século XVIII, ou seja, de cerca de dois séculos apenas. Afora aquelas que têm um sentimento religioso, as pessoas que acreditam em alguma coisa hoje acreditam no progresso – e só no progresso. Para elas, as futuras gerações sempre viverão melhor do que as anteriores, e a humanidade avança no conhecimento como avança na ética e na política. Mas isso é um mito, uma ilusão nociva, porque muitas vezes nos cega para grandes problemas e nos impede de perceber que, quando pensamos estar progredindo, na verdade estamos regredindo.
Veja – Também na ciência o progresso é uma ilusão nociva?
Gray – Na ciência e na tecnologia o progresso é real, mas só faz aumentar o conhecimento e o poder do homem, e esse poder pode ser usado tanto para os mais benignos objetivos quanto para os mais desastrosos. Quando o conceito de progresso é aplicado à ética e à política, ele é uma ilusão perigosa. Veja-se, por exemplo, o caso dos gregos e dos romanos antigos. É claro que eles acreditavam no desenvolvimento de novas ferramentas. Mas eles não transferiam essa noção de progresso técnico para a ética ou a política. É óbvio, também, que eles acreditavam no bem e no mal, que as sociedades podiam ser melhores ou piores, e que a prosperidade é preferível à fome e à pobreza. No entanto, para gregos e romanos, os jogos da ética e da política estavam sujeitos a avanços e retrocessos. Ou seja, a história humana era cíclica, com diferentes períodos se alternando, como ocorre na natureza.
Veja – O senhor discorda de qualquer pensamento que considere o homem como o centro do universo. Mas é possível existir uma moral que não seja antropocêntrica?
Gray – Sim, é possível. Na verdade, na maior parte da história, a moralidade não foi antropocêntrica – nem no budismo nem no taoísmo, por exemplo. O antropocentrismo é característica do cristianismo e do humanismo secular – que nada mais é do que uma versão do cristianismo sem Deus. Como qualquer outro animal, o homem também aspira ao bem-estar. E o bem-estar humano é em muitos pontos similar ao bem-estar dos outros seres vivos. Eu sustento que o homem é um animal como outro qualquer, produto do mundo natural e passível de ser eliminado por mudanças ambientais, como ocorreu com muitas outras espécies no passado.
Veja – Se o homem é um animal como outro qualquer, como nossa espécie chegou a dominar o mundo?
Gray – O homem é um sucesso evolutivo: desenvolveu uma linguagem sofisticada, uma incrível capacidade de construir ferramentas e de registrar e transmitir uma memória cultural. Alguns grandes primatas também detêm algumas dessas habilidades. A diferença é que nenhum deles atingiu o nível alcançado pelos humanos. Some-se a essa habilidade uma extrema ferocidade – que também não é característica única de nossa espécie – e temos aí as condições que permitiram ao homem tornar-se a espécie dominante do planeta. Mas é um engano pensar que o homem tenha conquistado a Terra. Somos a espécie dominante simplesmente porque eliminamos grande parte da biosfera. E, ao fazermos isso, geramos condições pouco promissoras para nossa própria sobrevivência. O poder que temos sobre o meio ambiente não nos dá o controle sobre ele. O homem tem muito poder, a ponto de destruir a Amazônia, mas não o poder de recompor a mata rapidamente. Ora, se você não tem o poder de redesenhar a biosfera, então não tem o controle sobre o planeta. Assim, acho praticamente impossível que se concretize a previsão de que a população humana chegue aos 8 ou 9 bilhões de pessoas daqui a cinqüenta ou sessenta anos, vivendo em certo nível de prosperidade, sem que se desestabilize a ecologia do planeta. Calculo que, daqui a um século, a população mundial terá encolhido bastante. E essa queda poderá se dar de duas maneiras: uma seria pelo declínio da taxa de fertilidade, como já acontece em países como Japão e Itália. Outra, por meio de guerras, doenças e pelos efeitos deletérios das mudanças climáticas. Se eu tivesse de apostar, apostaria na segunda opção. Seja como for, o sucesso do homem no planeta é real, mas extremamente precário e muito mais curto que o de outras espécies, como os dinossauros, que dominaram o planeta por milhões e milhões de anos. Pode acabar muito em breve.
Veja – As habilidades humanas sempre trazem conseqüências negativas, então?Gray – Nem sempre. As habilidades do homem produziram, por exemplo, a anestesia. Quem gostaria de tirar um dente como se tirava no início do século XIX, sem nenhuma anestesia? No entanto, essas mesmas habilidades causaram guerras mais devastadoras, criaram novos tipos de arma, e aumentaram nossa capacidade de cometer atrocidades numa escala jamais vista. E os assassinatos em massa são um efeito colateral do progresso tecnológico. O homem sempre usou as ferramentas que cria para abater seu semelhante, desde a pré-história. Mas o genocídio é uma prática dos tempos modernos. Entre 1492 e 1990, ocorreram cerca de 36 genocídios, que ceifaram de dezenas de milhares a dezenas de milhões de vidas. Só de 1950 até hoje, foram cerca de vinte grandes matanças, ao menos três delas – em Bangladesh, Camboja e Ruanda – com mais de 1 milhão de vítimas. Não há dúvida de que os seres humanos herdaram esse comportamento violento de alguns de seus parentes na linha evolutiva. Como o biólogo americano Edward O. Wilson observou uma vez, se alguns de nossos primos babuínos tivessem acesso a armas nucleares, o mundo já teria sido devastado há muito tempo.
Veja – O cientista americano Ray Kurzweil diz que o desenvolvimento tecnológico – particularmente a biotecnologia, a nanotecnologia e a teoria da informação – trará um futuro promissor para a espécie humana. Onde está a falha nessa idéia?
Gray – A falha está em pensar que esse progresso seja real. A ciência, no geral, chega mais perto da verdade do mundo que outros sistemas de crença, e nós temos testemunhado seu sucesso pragmático em aumentar o poder humano. Mas, do ponto de vista ético, o conhecimento é neutro, desprovido de valor – pode tanto nos levar a realizações maravilhosas quanto atender a propósitos terríveis. A ciência não é feitiçaria. Deixe-me dar um exemplo do que é a ilusão no poder científico: na Califórnia, as pessoas contratam organizações para ter seu corpo congelado assim que morrerem. Esperam voltar à vida quando a tecnologia assim o permitir, daqui a um século ou dois. A ilusão não está em pensar que a tecnologia tornará isso possível – provavelmente tornará, um dia. A ilusão está em não imaginar o que acontecerá nos próximos 100 ou 200 anos. Se a história se repete em seusaspectos éticos e políticos, como eu acredito, haverá várias quebras nas bolsas de valores, ataques terroristas, guerras civis, mudanças de regime e talvez até outras guerras mundiais. Nesse processo, muita coisa vai mudar: o direito à propriedade poderá ser abandonado, empresas quebrarão e governantes serão substituídos. É muito difícil que um contrato assinado hoje com uma empresa californiana possa sobreviver aos próximos séculos. Em outras palavras, mesmo que a tecnologia se desenvolva a ponto de levar o homem à imortalidade, as instituições e a sociedade na qual vivemos não são imortais, um dia acabarão.
Veja – Então o limite para o progresso não está na ciência, mas na sociedade?
Gray – A ilusão está em não perceber que, por mais que o conhecimento avance, as instituições impõem um limite. É completamente possível que a genética chegue à clonagem humana, talvez não tão já, mas daqui a cinqüenta anos. Eu faço uma predição: se isso se realizar, a tecnologia será usada por terroristas e organizações criminosas para criar seres humanos insensíveis à piedade e à simpatia, e soldados ou assassinos que jamais precisem dormir. Não duvido que a genética traga muitos benefícios para a humanidade, erradicando distúrbios, corrigindo deficiências e curando doenças. Mas é claro que a genética pode, também, ser usada no desenvolvimento de novas armas e na perpetração de mais genocídios.
Veja – Mas não foi sempre assim, a ciência e a tecnologia podendo ser usadas tanto para o bem quanto para o mal?
Gray – Absolutamente, sim. Mas ainda não aprendemos a lição. Lembro-me de quando as pessoas imaginavam que as fotocópias acabariam de vez com as falsificações. Mais tarde, o mesmo ocorreu com as câmeras de vídeo. Tudo não passou de ilusão. Hoje acontece o mesmo: as pessoas vêem a internet como um instrumento de liberação, mas ao mesmo tempo ela torna nossa privacidade muito difícil. Tudo o que você faz eletronicamente pode ser monitorado. Eu repito: o conhecimento não liberta o homem, apenas aumenta seu poder – um poder que pode ser usado para o bem ou para o mal. Nesse ponto, sou um pessimista: o futuro da humanidade será igual a seu passado, só que com mais conhecimento.
Veja – Se a felicidade e a salvação humanas não estão na ciência e na tecnologia, onde estão elas?
Gray – A ciência não é essencial para a felicidade. Basta lembrar que milhões e milhões de indivíduos têm vivido felizes ao longo de toda a história, mesmo sem acreditar no progresso. Na essência, nosso sentimento de felicidade não é diferente do sentimento do homem que viveu no Império Romano ou na Índia de Buda, cinco séculos antes de Cristo. Isso não mudou. A única coisa que mudou foram o conhecimento e o poder humanos, que cresceram muito.
Veja – Qual o papel da religião hoje?
Gray – Acho que a religião tem um papel central na cultura humana. Não acredito que existam religiões verdadeiras ou falsas – apenas as mais e as menos bonitas, ou as mais e as menos esperançosas. Quem gosta de religião se aproxima mais da poesia do que da ciência. A religião ocidental tem se intimidado por rivalizar com a ciência. Mas a ciência diz respeito ao poder, não dá um sentido à vida – isso é função da religião. E precisamos de mitos, de ilusões. Nem todo o avanço científico pode eliminar a religião, pois suas raízes não estão na ignorância, mas na necessidade humana de buscar um sentido para as coisas. Prova disso é que, para muitas pessoas, a ciência – com sua promessa de eterno progresso – torna-se ela mesma uma religião.
Veja – Os Estados Unidos, líderes mundiais em ciência e tecnologia, enfrentam hoje um renascimento do fundamentalismo cristão, particularmente nos embates entre evolucionistas e criacionistas. Como o senhor vê esse conflito?
Gray – O conflito entre ciência e religião é uma peculiaridade das culturas moldadas pelas tradições ocidentais, que dão uma importância exagerada à fé nos assuntos do espírito. A briga entre evolucionistas e criacionistas nos Estados Unidos é um modo com que o fundamentalismo cristão resiste às implicações antiantropocêntricas da teoria da seleção natural do inglês Charles Darwin. Esse conflito não acontece com a mesma intensidade nas culturas ligadas ao budismo e ao taoísmo, por exemplo, que são religiões nas quais as práticas e as experiências místicas importam mais do que a crença em si.
Veja – O senhor diria que existem religiões que conflitam menos com a ciência?
Gray – Religiões não-antropocêntricas, como o taoísmo, parecem mais próximas do mundo que nos é apresentado pelo que há de mais avançado na ciência contemporânea. E, porque pregam uma certa modéstia sobre o lugar dos seres humanos no esquema das coisas, essas religiões são mais capazes de promover a felicidade. No entanto, recomendo também algumas filosofias ocidentais, como o epicurismo. O grande poema A Natureza das Coisas, de Lucrécio, é um antigo guia para viver feliz num mundo em que o homem não é a figura central.
Veja – Para o leitor, seu livro pode deixar um certo sabor de desesperança. Qual a saída? Ou não há saída?
Gray – A mensagem central de Cachorros de Palha não é de desesperança, mas de libertação. O que eu pretendo é sugerir ao leitor: leve sua vida da maneira mais bela e inteligente possível, pois o destino da Terra não está sobre seus ombros. Na verdade, foi assim que viveu a maioria dos milhões e milhões de seres humanos que já passaram pelo planeta. A necessidade de acreditar que o futuro será melhor é uma ilusão. A felicidade não vem daí, mas de aceitar a nossa natureza animal, que, ao contrário das crenças, é imutável.
Contagem regressiva
(entrevista à revista Época)
CIÊNCIA versus HUMANISMO
(excerto de “Sobre humanos e outros animais” – edição brasileira)
«Actualmente, a maior parte das pessoas pensa que pertence a uma espécie que pode ser senhora de seu destino. Isso é fé, não ciência. Não falamos de um tempo em que as baleias ou os gorilas serão senhores de seus destinos. Por que então os humanos?
Não precisamos de Darwin para perceber que nos parecemos com os outros animais. Basta observar um pouco nossas vidas para sermos levados à mesma conclusão. No entanto, como a ciência tem hoje uma autoridade com a qual a experiência comum não pode rivalizar, observemos o ensinamento de Darwin de que as espécies são apenas aglomerados de genes interagindo aleatoriamente uns com os outros e com seus ambientes em permanente mudança. Espécies não podem controlar seus destinos. Espécies não existem. Isso se aplica igualmente aos humanos. No entanto é esquecido sempre que as pessoas falam sobre “o progresso da humanidade”. Elas depositaram sua fé numa abstracção que ninguém pensaria em levar a sério se não fosse formada por restos de esperanças cristãs descartadas.
Se a descoberta de Darwin tivesse sido feita numa cultura taoista ou xintoísta, hinduísta ou animista, muito provavelmente teria se tornado apenas um fio a mais no entrelaçado de suas mitologias. Nessas crenças, os humanos e os outros animais são afins. Ao contrário, tendo surgido entre cristãos que punham os humanos acima de todas as outras coisas vivas, o trabalho de Darwin desencadeou uma ácida controvérsia que grassa, furiosamente, até os dias de hoje. Nos tempos vitorianos, esse era um conflito entre cristãos e incréus. Hoje é entre humanistas e os poucos que compreendem que os humanos, não mais do que qualquer outro animal, não podem ser senhores de seu destino.
Humanismo pode significar muitas coisas, mas para nós significa crença no progresso. Acreditar no progresso é acreditar que, usando os novos poderes que nos são propiciados pelo crescente conhecimento científico, os humanos podem se libertar dos limites que constrangem a vida de outros animais. Essa é a esperança de praticamente todo mundo hoje em dia, mas não tem fundamento. Pois, embora o conhecimento humano muito provavelmente continue a crescer e com ele o poder humano, o animal humano permanecerá o mesmo: uma espécie altamente inventiva que também é uma das mais predadoras e destrutivas.
Darwin mostrou que os humanos são como os outros animais, e os humanistas afirmam que não. Os humanistas insistem em que, usando nosso conhecimento, podemos controlar nosso ambiente e florescer como nunca. Ao afirmar isso, renovam uma das mais dúbias promessas do cristianismo – que a salvação está ao alcance de todos. A crença humanista no progresso é apenas uma versão secular dessa fé cristã.
No mundo apresentado por Darwin não há nada que possa ser chamado progresso. Para qualquer um criado à base de esperanças humanistas, isso é intolerável. Como resultado, o ensinamento de Darwin foi virado de cabeça para baixo, e o pecado capital do cristianismo – que os humanos são diferentes de todos os outros animais – ganhou novo alento de vida.»


[...] Arquivado como: Religare — Orlando @ 6:38 am Tags: cepticismo, filosofia, Hume, John Gray Não há nada de novo em John Gray, senão o desenvolvimento e a actualização do cepticismo de Hume, e só encontra algo de novo [...]
Como respondi lá, respondo aqui. E obrigado pelo comentário:
De novo em Gray há, entre outras pequenas coisas (aquelas, por exemplo, que fazem com que um tema recontado pela milionésima vez faça de um romance algo de novo na altura em que é publicado), o desenvolvimento e a actualização do cepticismo de Hume. E isto já não é pouco. Mas a sua é mais uma opinião respeitável e interessante.
Quanto à frase citada, no entanto, se conhecermos um pouco do pensamento de Gray facilmente percebemos que ele diria o mesmo em relação à ciência. Concordo consigo nesta asserção e Gray também.
«Quando Gray critica os gregos, critica toda a ética que com eles nasceu muito antes do cristianismo – e é exactamente aí onde ele quer chegar, por motivos estritamente pessoais e subjectivos»: Sim, também tem razão, também é isso que ele critica e também é aí que ele quer chegar. Se são motivos pessoais e subjectivos, pois, naturalmente que serão, como são todos os motivos, e qual é o problema? Isso afecta a qualidade ou a pertinência dos seus argumentos, do seu pensamento?
Independentemente da originalidade ou da qualidade da obra, e ninguém duvida que haverá melhores na milenária história da filosofia, tenho para mim (e isto não faz dele nenhum pioneiro vanguardista…) que o homem simplesmente não tem vacas sagradas, nem ciência, nem filosofia, nem humanismo secular, nem religião, nem coisa nenhuma e, como tal, critica tudo, como deve fazer um livre pensador. Ou não? E Boas Festas!
E eu respondo cá e lá:
A Teoria Crítica de Adorno e Marcuse não faz outra coisa senão criticar tudo, e nem por isso os marxistas culturais podem ser considerados “livres pensadores”. Em todo e qualquer ser humano existe uma utopia, seja ela escancarada ou dissimulada; ao bom estilo britânico, Gray não revela a sua utopia, senão fazendo passar a ideia de uma “utopia da não-utopia”. Não tenho elementos para afirmar que Gray segue, de algum modo, a Utopia Negativa, mas tudo aponta para isso.
Da filosfia britânica não tenho boa impressão: de Hume ao Utilitarismo de Bentham, até à ética simplista de Russell, na minha humilde opinião, muito pouco de positivo trouxe à filosofia. Os ingleses não são filósofos por essência e inerência: são snobes.
Feliz Natal!
Agora, desculpe lá mas respondo só aqui, já que está aqui o cerne desta questão.
Ái “os ingleses são snobes”? Todos ou só os candidatos a filósofos? Deve ser esta então a essencial diferença entre “saber” e “não saber”. É que aí está mais uma coisa que eu não sei e você enfaticamente sabe.
Gray não revela a sua utopia? Ó amigo Orlando, mesmo não sendo essa a questão (a dimensão utópica do pensamento filosófico), aconselho-o a descer do alto da sua sabedoria e a ler John Gray. Estas entrevistas são só um aperitivo, o mais importante está nos livros e, como já se percebeu, ainda lhe falta a si passar a essa fase para passar a saber menos e a ficar mais sábio. Pelo menos a saber menos sobre Gray e o que ele pensa e propõe.
Seja como for, sendo certo que em cada ser humano existe uma utopia, não cabe à filosofia apresentar soluções ou visões de mundos ideais, cabe-lhe essencialmente problematizar, analisar, discutir, reflectir, pensar um sentido racional para a existência, etc. As utopias são mais da competência das ideologias e das teologias. Da política, enfim. Seja como for, Gray não apenas problematiza, por acaso e apesar do pessimismo também partilha um pouco da sua visão ideal do mundo dos homens. Mas primeiro leia, depois conversamos.
Fico também na dúvida se terá efectivamente lido Bertrand Russel… Ou também ficou pelas sínteses?
Seja como for, confesso que já me passou um pouco do entusiasmo inicial com o John Gray. Identifico-me com muito daquele pensamento, cativa-me o desassombro e a lucidez raivosa (um pouco como me cativa o nosso Pulido Valente), mas adiante que há mais quem pense e escreva!
E vivam os livres-pensadores!
Incluindo Marcuse, Adorno e Marx.
Olha, só agora reparei que sem querer confundi o Orlando com outro comentador de outro post, o on, na homepage, em relação à questão de “saber” e “não saber”… Desculpe lá ó Orlando.