A propósito do anterior post e da entretanto notícia da morte de Benazir Bhutto num ataque suicida que degenerou em mais um massacre.
E de como, de facto, a religião pode mudar tanta coisa no rumo que as sociedades levam…
A principal promessa eleitoral de Bhutto era “eliminar a ameaça islamista” do país.
É claro que também pode ter sido obra do Musharaf. Ou da CIA. Ou das tríades chinesas. Mas acredito mais na outra hipótese. E a outra hipótese é de cariz religioso. Para os poderosos (clérigos ou mullahs) pode ser uma mera questão “política”, de poder, para outros uma deturpação do “verdadeiro sentimento religioso”, mas para o suicida assassino a perspectiva é certamente outra e é de cariz mais divino. E a certeza da sua verdade (religiosa) é a mesma dos que clamam “deturpação!”. Ele age em nome de Deus. O resto é dourar a pílula. É urgente as grandes religiões, sobretudo obviamente o islamismo, reflectirem publicamente sobre isto e darem passos firmes e clarificadores.
É por isso que acho que os amigos das religões não podem sacudir tão facilmente a água do capote. Se o crime tivesse motivações marxistas – como tiveram por exemplo os crimes do psicopata Estaline, em nome da deturpação desumana de uma teoria ideológica – imaginemos, certamente que esses amigos se apressariam igualmente a denunciar e a condenar a “semente do mal”. Este é o mesmo caso. As ideologias e as religiões são o terreno onde medra o fanatismo. E não se pode combater o fruto ignorando a raiz. Combate-se um e outros mais nascerão noutros locais. Não se combate o essencial do problema.
É sobretudo um problema religioso e as religiões é que têm de conter esta propensão do pensamento transcendente para o extremismo. E se no caso cristão, sobretudo no caso católico, há uma hierarquia e uma liderança definida em termos globais, que têm e muito bem insistido no discurso da paz, da moderação e da tolerância, amansando os rebanhos, já no mundo islâmico nada disso se passa e, além de não haverem estados seculares que amansem as religiões e os seus rebanhos, não há hierarquias a pôr água na fervura. Os moderados são poucos, estão sobretudo junto das comunidades muçulmanas do ocidente, e os do mundo islâmico quando não são proscritos são silenciados.
O problema é bicudo e, por estas e por outras, mas muito por estas, a situação vai piorar bastante no mundo islâmico em 2008, principalmente no Médio Oriente. A morte de Bhutto é um péssimo prenúncio nesse sentido. Tem implicações graves e profundas no chamado esquema geo-político e económico, mas esta é uma questão de religião, sim senhor. E é a cereja no topo do bolo das presentes e futuras guerras pelos recursos. Incluindo a água.

