A importância da alegria
Janeiro 8, 2008 por joaopc
«(…) Se não fosse este nível tão alto de consciência humana, nunca haveria angústia notável, agora ou no amanhecer da humanidade. Aquilo que não sabemos não nos pode ferir. Se tivéssemos o dom da consciência mas não nos tivesse sido dada a memória, também não teríamos qualquer angústia. Aquilo que sabemos, no presente, mas somos incapazes de colocar no contexto da nossa história pessoal, apenas nos pode ferir no presente. É a combinação destas duas benesses, a consciência e a memória, bem como a sua abundância, que causam o drama humano e que conferem a esse drama o seu estatuto trágico. Felizmente para nós, esses mesmos dons são também a fonte da alegria sem limites e da glória humana que lhe corresponde. Felizmente que viver uma vida bem examinada é também um privilégio e não apenas uma maldição.
Nesta perspectiva, qualquer projecto de salvação humana – qualquer projecto capaz de tornar uma vida examinada numa vida feliz – deve incluir meios para resistir à angústia causada pelo sofrimento e pela morte, meios para suprimir a tristeza e para a fazer substituir pela alegria. A neurobiologia da emoção e do sentimento diz-nos, em termos bem sugestivos, que a alegria e as suas variantes são preferíveis à tristeza e às suas variantes, que a alegria leva mais facilmente à saúde e ao florescer criador. Não parece haver aqui qualquer equívoco: devemos procurar a alegria, por decreto assente na razão, mesmo que a procura pareça tola e pouco realista. Para aqueles que não têm fome e que não vivem, sob um regime opressivo, é necessário compreender que estar vivo é um privilégio (…)»
António Damásio in “Ao Encontro de Espinosa”