O último número da edição europeia da Time põe em destaque de capa alguns casos de muçulmanos de sucesso profissional na Europa. A revista apresenta-os como expoentes de uma tendência social europeia, de integração positiva de outras culturas e credos, mesmo culturas e credos aparentemente tão ”ameaçadores” como o islamismo, no seio do que (já foi) um ambiente dominado pela tradição judaico-cristã. Jovens muçulmanos bonitos e de aspecto moderno e desempoeirado, surgem como exemplares de uma nova geração de muçulmanos no Velho Continente, capazes de conjugar sem grandes conflitos a sua religião com o ambiente secular e pluri-religioso das democracias liberais europeias. Não têm de passar a ser seculares, como qualquer outra criatura religiosa, simplesmente passam a aceitar as regras do jogo e a reivindicar os seus interesses da mesma forma pacífica que todos os outros grupos de interesse, dos católicos aos trotskistas.
A mensagem é clara: é possível a convivência harmoniosa com o Islão. É possível e, como está a acontecer apesar de algumas dificuldades e problemas específicos, não é preciso ninguém abdicar violentamente dos seus princípios.
A ser correcta a extrapolação da revista, é uma excelente notícia e confirma uma tese maior: as democracias liberais diluem a religião como o leite dilui o açúcar… isto é, o estado de direito e as liberdades cívicas e individuais amolecem a rigidez do credo espiritual e fragmenta-o. O Cânone da religião dissolve-se, não só em expressões mínimas como seitas ou cultos derivados, mas na sua mais ínfima (e, afinal, primordial) expressão: a da vivência individual. Nada disto é novo e o cristianismo passou e está a passar pelo mesmo processo, à medida da laicização da sociedade. É óbvio, por exemplo, que um muçulmano de sucesso profissional na Europa tem de abdicar de alguns dos princípios basilares do seu credo. Uma interpretação e uma vivência literal, ou minimamente rigorosa, do Corão nunca tal permitiria. E a reportagem da Time torna essa circunstância mais óbvia ainda. No fundo, como em tudo nos regimes democráticos, trata-se de um jogo de cedências de parte a parte até se encontrar terreno comum de convivência. Afinal, a secular Europa também convive com centenas, senão milhares, de outras organizações religiosas e tem conseguido manter a coesão social.
Também nós, Europeus autóctones ou adeptos de outras confissões, nos iremos gradualmente adaptar e habituar a conviver com uma comunidade muçulmana mais visível e interventiva. Os riscos de radicalismo são, no fundo os mesmos que existem para qualquer mente jovem ou perturbada, tenha ela a bandeira islâmica, benfiquista, jeová ou neo-nazi.
O atraso estrutural dos povos da Uma (a grande comunidade global islâmica) não se verifica, aliás, por acaso. Recentemente, num debate noutro blog português próximo daqui, um anti-semita primário barafustava contra a expressão “atraso atávico das sociedades muçulmanas” dando exemplos de modernidade e progresso como o Bahrein, os outros sultanatos e monarquias do Golfo, os hóteis de carradas de estrelas e luxos estratosféricos, as grandes obras públicas em Marrocos, etc. É uma forma como outra qualquer de tapar o sol com a peneira e não tarda muito até que as fragilidades estruturais desses países seja muito mais chocante e notório, basta acabar o petróleo. Outra forma de simplificar é encarar a modernidade nas suas múltiplas cambiantes, não só económica mas também cultural ou científica. A coisa assim sintetizada, na capacidade de produção e inovação cultural e científica (que é pouco menos que zero nos países governados sob a influência estatal do Corão), creio que demonstra cabalmente e sem mais grandes explicações o tal atraso.
Na mesma medida em que África ainda não se conseguiu libertar do tribalismo, também o mundo islâmico ainda não se conseguiu libertar da religião. Ou pelo menos ainda não conseguiu libertar o espaço público do monolitismo religioso que abafa a diversidade. Naturalmente que em circunstâncias normais o povo muçulmano é perfeitamente capaz de conviver com outras sensibilidades, a questão aqui como sempre, é das minorias zelosas que detêm o poder e fazem as regras.
Isto para referir que há duas formas de um muçulmano ter “sucesso” de acordo com os padrões da “modernidade” ocidental (que são, no fundo, os padrões assumidos pela Time): Ou tem poder num país petrolífero ou vai para o estrangeiro e torna-se um “muçulmano mole”*, integrado, respeitador das leis alheias e tolerante. Adapta à sua circunstância o que lhe interessa dos preceitos da sua religião e faz de conta que os outros não existem ou que “não são bem assim” (as mulheres, à medida em que crescerem em direitos e autonomia, serão um motor importante de modernidade). Precisamente como fazem 99% dos católicos, por exemplo, a grande maioria deles confessos “não praticantes”, que é o mesmo que dizer, praticam à sua maneira e numas coisas concordam com a sua igreja, noutras não, numas coisas seguem a Bíblia, noutras não. Depende. Tal como também começará a depender para as comunidades muçulmanas no mundo “ocidental”.
No início ainda se vai tentando ser minimamente fiel à ortodoxia, mas aos poucos, com as novas gerações de muçulmanos europeus, a rigidez torna-se maleável e permite a integração. Os preceitos religiosos vão-se moldando ao sentimento dominante de “bom-senso”. Há muito que na Europa, por exemplo, deixou de ser sinal de “bom-senso” acatar literalmente os mandamentos bíblicos. Tal coisa é, muto naturalmente, generalizadamente rejeitada como mania de fanáticos doentios. E como cada um é livre, sem penas, de fazer a sua particular exegese, a ortodoxia lá se dissolve num bilião de pequeninas heterodoxias. Estou em crer, e esta reportagem da Time mais cimentou essa opinião, que dinâmica semelhante se passará com o Islão na Europa, que alguma coisa terá aprendido com mil anos de fanatismo cristão reinante. Se hoje o cristianismo compreende e aceita perfeitamente os benefícios de uma sociedade plural, amanhã também o Islão da diáspora o fará, enfim percebendo que o melhor caminho para a expansão é o da conversão pacífica e não o da conquista ou o da imposição.
É claro que esta é uma perspectiva optimista. Depois há outras.

