Os maus exemplos de Deus e as interpretações
Fevereiro 24, 2008 por joaopc
Fico sempre fascinado com os malabarismos mentais a que são obrigados os teólogos e os cérebros da igreja (no caso, a católica) para justificar, actualizar e relativizar (chamam-lhe “interpretar” ou, numa expressão mais hermética e que inspira respeito só pela ortografia, “exegese”) as contradições e as barbaridades constantes dos textos fundadores do seu culto.
O Velho Testamento, sobretudo, testemunho fantástico (de fantasia e de extraordinário) de um povo semi-primitivo nas suas deambulações pelo Médio Oriente, apresenta inúmeras passagens dignas de um argumento para um filme de terror escrito por um demente tarado ou psicopata. É evidente que, como todas as verdades, a verdade religiosa é uma batata e vai mudando à medida dos tempos que correm. Devagar, para evitar rupturas, mas muda. A Igreja de hoje, o que defende, o que prega, a sua “interpretação” actual dos textos bíblicos, é muito diferente do que era há apenas umas dezenas de anos. E daqui a cem anos será certamente muito diferente do que é hoje em dia. Mas daqui a cem anos, os inteligentes da igreja lá continuarão entretidos a descodificarem-se e a citarem-se uns aos outros, presentes e passados, e a tentar desembrulhar o intrincado novelo das “verdadeiras” e “justas” interpretações dos textos sagrados.
Os textos sagrados são a “palavra de Deus” mas como é tudo muito, mas muito complicado (muitíssimo e só ao alcance dos “doutores da Igreja”, que são homens particularmente educados e inteligentes que dedicam uma vida inteira a pensar no mesmo assunto), essa palavra às vezes é literal, outra é simbólica, outra é tão só narrativa, etc. Depende. Depende por exemplo do que der mais jeito na altura e da sensibilidade cultural e moral de cada exegeta. E o que era verdade ontem já será mentira amanhã.
No fundo, cada uma à sua velocidade, as religiões imitam a dinâmica da vida, que é de mudança. É claro que nem todas as religiões têm a mesma propensão para a mudança e para a “exegése” que tem o cristianismo. O facto de estar sobretudo implantada nos países que se libertaram do domínio religioso sobre a vida civil e política (Europa, Américas) foi determinante nesse sentido: Ou mudava ou definhava. E a igreja preferiu mudar e preferiu começar a ancorar a sua doutrina nas interpretações mais moderadas e dadas às leituras simbólicas (que dão para tudo…) da matriz bíblica. Não é um caminho nem mais nem menos verdadeiro, é tão só um caminho mais consentâneo com a evolução social “lá fora”.
É também evidente que mesmo no seio das diversas confissões cristãs a coisa não é pacífica e, como também isto é relativo, continuam a haver teólogos mais conservadores e literalistas, outros mais liberais e simbolistas, etc.. Cada um, enfim, tem a sua ideia de Deus e da sua alegada palavra. O Deus do intelectual dominicano Frei Bento Domingues, por exemplo, é um Deus tolerante, pacífico e amoroso. Porque Frei Bento é, certamente, um homem tolerante, pacifista e bondoso. E como se revê mais nas sensibilidades mais moderadas da sua Igreja, acredita que é essa a chave para uma “verdadeira” interpretação da Bíblia. Ainda bem, só é pena que não pensem todos como ele e que os Deuses na cabeça dos outros sejam amiúde criaturas muito pouco recomendáveis para gente tolerante, pacífica e efectivamente bondosa.
Isto para dizer que “interpretações” há muitas (pelo menos uma por cada cabeça) e que no que toca a verdades emocionais (como são as religiosas) é tudo muito subjectivo. E vem esta prosa a propósito da habitual crónica dominical de Frei Bento Domingues no Púbico, que o jornal anuncia assim: «Frei Bento Domingues critica a fé sem interpretação». E no texto, o religioso afirma que «crer sem interpretar é um atentado contra a razão e o simples bom senso».
O Frei referia-se a um livro recente de um académico espanhol, que dedica um volume a expor “os péssimos exemplos de Deus”, plasmados nos textos bíblicos. «Não vale a pena dizer (…) que a Bíblia não é um livro, mas a biblioteca de um povo, composta de vários géneros literários, de muitas épocas, com muitas influências e investigada como nenhuma outra”. Tirando a inverdade da última asserção - a Bíblia ao longo dos séculos não tem sido investigada, tem sim sido pensada, interpretada, re-interpretada e re-re-interpretada por todas as gerações de coca-bichinhos dos conventos, mosteiros e faculdades de teologia, o que é muito diferente de ser “investigada”, isso, realmente só muito recentemente começou a ser feito pela ciência, pela história, pela arqueologia, pela sociologia, mas até aí, o que existiam era meros exercícios teológicos especulativos e não investigação – Bento Domingues tem toda a razão. De facto, sobretudo o Velho Testamento, é um mosaico de textos das mais variadas origens. O outro facto é que esse argumento não faz grande sentido: Ou é, ou não é, “a palavra de Deus” (por interposta pessoa do autor, segundo mesmo fenómeno de inspiração espírita da psicografia: o espírito dita e o homem escreve). Se não for, tudo aquilo não passa de uma mera colecção de contos e lendas com o mesmo valor moral das fábulas de Esopo, por exemplo. E, efectivamente, ao sabor das interpretações que cada um lhes quiser dar.
Bento Domingues exorta os leitores da Bíblia a não atentarem apenas nos seus “crimes”. O Livro também tem, argumenta, as suas partes “sublimes” que compensam as barbaridades. Ficamos sem saber se Frei Bento acha que Deus fez ou mandou fazer todas aquelas iniquidades e massacres, como asseguram os autores bíblicos que fez e mandou fazer, ou se acha que há partes da Bíblia que estão lá a mais. O mistério adensa-se com esta exortação: «Crentes e não crentes não devem atribuir a Deus o que certos interesses políticos e religiosos de Israel colocaram na sua boca». Esta leitura é extraordinária e significa que, para Bento Domingues, grandes partes da Bíblia (presume-se que as imensas partes cruéis e dementes) são, se não mentiras, pelo menos deturpações dos respectivos autores em relação à verdadeira natureza de Deus (bondosa, tolerante e pacífica, à imagem do homem subjectivo Bento Domingues). «A realidade suprema não pode ser a suprema iniquidade». Bento Domingues acha que não pode. Eu se fosse religioso também gostaria de achar o mesmo (apesar da realidade terrena todos os dias demonstrar o contrário). “Não pode ser”, Frei Bento não quer que seja, mas será que não é de facto?
Será que Deus efectivamente sabe e concorda com tudo isto? E porque carga de água é que temos de aceitar em honesto raciocínio que só as partes “sublimes” é que são importantes e literais? E que o resto é mero fruto da deturpação de antigos líderes dos israelitas, o tal “povo eleito”? E em que é que Bento Domingues se baseia para achar que é mentira que Deus tenha mandado massacrar povos vizinhos e para achar que é verdade quando o mesmo Deus diz para nos amar-mos uns aos outros? Essa conclusão brilhante é fruto de algum estudo inequívoco acerca da verdadeira natureza de Deus ou é fruto da boa-vontade do bom Frei? Em que se baseiam alguns teólogos para afirmar que o “sublime” é a verdadeira face de Deus e o “iníquo” é sinal da falsa? Porque é que alguns autores bíblicos são credíveis e outros são arrumados para canto como meros instrumentos políticos dos chefes tribais israelitas? Qual é o critério?
Mais questões: “Crer sem interpretar é um atentado contra a razão e o simples bom senso”. Mas interpretar como? Segundo os padrões mais abertos de Bento, ou segundo os padrões mais fechados de correntes mais conservadoras da sua fé organizada? Qual é a verdadeira interpretação? E porque é que se têm de aceitar como correctas e virtuosas as interpretações aceites pelo Vaticano e não as aceits por outras sensibilidades de natureza cristã, como os mórmons, por exemplo? São os séculos de tradição e reflexão acumulada? Se é assim, daqui a trezentos anos o mormonismo também terá uma credibilidade tradicional similar e igualmente um corpo de pensamento e doutrina muito mais complexo e profundo. Não convence.
E, afinal, o deus judaico-cristão deu ou não deu (e dá) “maus” e “bons” exemplos? E se os “maus” exemplos de Deus relatados na Bíblia são mentira, porque na opinião de Bento e outros pensadores generosos da Igreja Deus não pode ser uma suprema”iniquidade”, porque é que continuam a servir como textos canónicos inspirados pelo divino? Porque é que a imagem do deus castigador e vingativo continua a alimentar, missa atrás de missa, o temor dos crentes? É mesmo preciso viver nesse medo, se tudo aquilo afinal não passa de deturpações de “certos interesses políticos e religiosos de Israel” na Idade do Bronze?
Por outro lado, o facto da Bíblia conter passagens “sublimes” e inspiradoras é tão relevante para a discussão como achar que os Lusíadas ou o romance “A Montanha Mágica” também têm passagens sublimes. Pois têm, os livros budistas ou hindus também. E depois? Numa obra tão volumosa como a Bíblia, seria efectivamente de esperar que alguma coisa se aproveitasse…
Este texto é bastante interessante e merecia análise mais detalhada, mas deixo apenas breves comentários.
de um povo, onde é que está o “extraordinário” de pedir que se tenha cautela em ler esse livro, para não justificar como “divinos” apelos violentos e tendenciosos? O que aconselha às pessoas que seguem as “religiões do livro” é que façam dele uma leitura literal, intemporal, sem contexto? Porque é que para ler A Ilíada precisamos de contextualizar e para ler os livros das religiões não precisaremos de contextualizar? Nesse caso terá certamente muitos apoiantes entre os mais cruéis fundamentalistas de vários credos, aqueles que acham que dispensam contextualizações e interpretações.
Primeiro ponto: escreve-se que “a verdade religiosa é uma batata e vai mudando à medida dos tempos que correm”. Se a religião é parte da cultura humana, porque não haveria de ser assim? A verdade científica não tem mudado também?
Segundo ponto. Primeiro escreve-se que “o Velho Testamento, sobretudo, [é] testemunho fantástico (de fantasia e de extraordinário) de um povo semi-primitivo nas suas deambulações pelo Médio Oriente”: Mas mais abaixo escreve-se: «O mistério adensa-se com esta exortação: «Crentes e não crentes não devem atribuir a Deus o que certos interesses políticos e religiosos de Israel colocaram na sua boca». Esta leitura é extraordinária (…).» Se se admite que se trata de escritos (e não um escrito único, porque não é um tratado mas uma “recolha”
Não tenho nenhuma religião, nem institucional nem pessoal. Mas fico por vezes espantado com a ligeireza com que se fala de assuntos religiosos, ligeireza assente muitas vezes na incompreensão de que a religião faz parte do caldo de cultura da maior parte dos povos deste mundo.
Curiosamente, essa ligeireza justifica que se ataquem aqueles que (inclusivamente de dentro das relgiões) procuram que as religiões não sejam usadas para oprimir os homens.
«escreve-se que “a verdade religiosa é uma batata e vai mudando à medida dos tempos que correm”. Se a religião é parte da cultura humana, porque não haveria de ser assim? A verdade científica não tem mudado também?»
Tem toda a razão, naturalmente, é esse o meu ponto.
«Se se admite que se trata de escritos (e não um escrito único, porque não é um tratado mas uma “recolha”) de um povo, onde é que está o “extraordinário” de pedir que se tenha cautela em ler esse livro, para não justificar como “divinos” apelos violentos e tendenciosos? O que aconselha às pessoas que seguem as “religiões do livro” é que façam dele uma leitura literal, intemporal, sem contexto? Porque é que para ler A Ilíada precisamos de contextualizar e para ler os livros das religiões não precisaremos de contextualizar? Nesse caso terá certamente muitos apoiantes entre os mais cruéis fundamentalistas de vários credos, aqueles que acham que dispensam contextualizações e interpretações.»
Pois, tratam-se, afinal, de recolhas de narrativas, algumas mais mitológicas, algumas mais eventualmente factuais de um povo (nesse aspecto, por exemplo, a arqueologia tem feito um intenso trabalho ultimamente no Médio Oriente no sentido de repor a verdade de muitas incorrecções da gesta israelita, por exemplo, só para falar no Velho Testamento, o texto primordial judaico). Não se trata, afinal, da “palavra de Deus”.
O que eu aconselho aos fiéis das religiões do Livro é, naturalmente, que leiam outros livros e façam efectivamente uma leitura crítica dos textos que os líderes do seu culto apresentam como verdades inequívocas emanadas directamente do espírito santo ou de outra fonte sagrada qualquer. O que eu aconselho, precisamente, é a contextualizar. O que eu aconselho, naturalmente e em última análise, é aos leitores da Bíblia para assumirem perante ela a mesma atitude que têm perante a Ilíada, essa maravilha da arte e do engenho humano.
Perdoe-me a deselegância, mas é óbvio que este seu argumento, perante o que está escrito no post, é falacioso. Obviamente que eu, que nem sou religioso nem acredito no carácter divino da Bíblia, iria sequer sugerir uma leitura literal! Se eu até acho que o que faz falta no islamismo é uma maior dinâmica de interpretação e re-interpretação! Uma leitura literal da Bíblia, sim, seria uma demência.
O que eu acho é que há muitas formas de viver a religião. E que algumas são construtivas e outras nem por isso. Bento Domingues, por exemplo, representa uma tendência que eu chamaria construtiva dentro da sua igreja. Mas o facto inapelável, e é isso que eu lamento, é que a Igreja (a católica, naturalmente) tem poucos Bentos Domingues…
O post, já agora, não pretende encontrar contradições no discurso pessoal do teólogo. Frei Bento é coerente consigo próprio e até nutro alguma simpatia intelectual por ele. Mas a sua lucidez coloca em causa algumas verdades propagadas e traz a lume algumas insanáveis contradições da narrativa religiosa. E foi isso que motivou o post.
«fico por vezes espantado com a ligeireza com que se fala de assuntos religiosos»
Pois também eu.
«ligeireza assente muitas vezes na incompreensão de que a religião faz parte do caldo de cultura da maior parte dos povos deste mundo.»
Mais uma vez, concordo em absoluto.
E já agora, se se deu ao trabalho de ler isto, talvez lhe interesse ler esta prosa que escrevi há uns tempos para este site http://www.portalateu.com/2008/02/09/ateus-crentes-e-algo-no-virtuoso-meio/ onde poderá perceber melhor a ligeireza com que penso e escrevo a religião.
Gosto de o ler, também sobre religião. Contudo, achei que este post não era “escorreito”, porque entendi que usava aquilo que achei serem duas linhas de argumentação difíceis de compatibilizar: por um lado, assumir que a Bíblia é um livro (vários, aliás) escrito por um dado conjunto de povos; por outro lado, “alinhar” com os que pretendem que a Bíblia seja (literalmente) a palavra de Deus. E, salvo melhor opinião, não salvaguardou - neste post, repito - a distinção entre a sua própria opinião como sujeito (que julgo ser a primeira) e a opinião de outros (a segunda). A isso chamei ligeireza. Neste post. Não fiz nenhuma caracterização geral de si. Muito menos em termos de ligeireza. Para facilitarmos o debate podemos aceitar uma crítica a uma “fala” nossa, sem entendermos logo que essa crítica localizada seja para nos “marcar” globalmente. Não concorda?
Concordo, claro. Mas também penso ser legítimo considerar que fez uma interpretação inexacta das minhas palavras, por muito que eu admita, como faço, que falta escorreiteza (clareza) ao post.
A escrita dos blogs realmente nem sempre propicia a melhor ponderação…
Mas torna-se claro para mim que o post não “alinha” com literalismos nem defende tal prática. Explora quanto muito uma contradição comum às religiões do Livro, o pântano das meias-tintas, quando dá jeito é literal, quando dá jeito é simbólico, por aí.
Imagine só, por exemplo, a quantidade de gente que acredita piamente no relato do Génesis e na criação do mundo e da vida em seis ou sete dias… Esta leitura literal da Bíblia é aliás extremamente popular (curiosamente cada vez mais…)!
A Bíblia católica é o testemunho do imaginário de um povo (não vários) e de uma seita religiosa. O Velho Testamento regista as memórias e mitologias do povo israelita (antes de se dispersar em diáspora pelo mundo) e o Novo Testamento, estruturado em quatro evangelhos, recolhe escritos de vários autores, acerca da vida e suposta mensagem de um messias que viveu décadas antes deles começarem a ser escritos e a dar densidade teológica e clareza moral à referida seita.
São textos escritos por muitos homens ao longo de muitos milhares de anos, em muitos aspectos contraditórios entre si, mas que são entendidos por muita gente como a verdade divína. Quando, no fundo e na verdade, como admite o referido Frei, também são textos manipulados por interesses políticos ou militares ou afins. Ora, se se abre essa janela para a ficção, então afinal o que é verdade e o que é mentira? É o que recomenda o nosso “bom-senso”? mas como se o meu bom-senso é tão diferente de outros “bom-sensos” por esse mundo fora? Para que serve então a Bíblia senão como mais uma colecção de ensinamentos morais e fábulas mitológicas?
São questões como estas, se calhar de forma um pouco atabalhoada e à pressa que tento colocar aqui.
As questões são indiscutivelmente boas. E, aliás, até são interessantes fora do tema da religião. Por exemplo, a questão da interpretação (ou exegese). Não é uma questão de “bom senso”. A interpretação, lá por não ser única nem directa, não é “ao gosto do freguês”. Pode ser argumentada, racional. É, pelo menos em parte, isso que está em discussão quando alguns leitores entendem que Wittgenstein descai para o relativismo (nas Investigações Filosóficas) quando fala em “formas de vida” e considera que certos significados só se captam, afinal, na sua conexão a uma dada “forma de vida”. Mas não: não ser “universal” e “objectivo” não equivale a ser subjectivo, não equivale a ficar ao “bom senso” de cada um. No caso de uma interpretação, religiosa ou não, estamos na mesma: discute-se, argumenta-se, algumas interpretações aguentam-se, outras não. Por exemplo, informação histórica disponível pode ajudar certas interpretações e desajudar outras. Um dos pontos que achei menos convincente (ou menos “escorreito”
no seu texto foi parecer que encarava o exercício interpretativo de Bento Domingues com um certo desdém, do tipo “tá bem, tá, agora vens tentar dourar a pílula”. Quando, na verdade, considero muito importante que se valorizem esses exercícios interpretativos, porque tendem a dificultar o “deus chave na mão”, que é o deus daqueles que lêem qualquer coisa no “livro” e depois começam a perseguir os que parecem não o aceitar literalmente. Acho que os crentes que defendem exercícios interpretativos sérios do “livro” são aliados objectivos (e talvez também subjectivos) dos que pretendem impedir que a religião dê cabo de qualquer razoabilidade nos assuntos humanos.
E claro, haveria pano para muitas outras mangas. Por exemplo, outro tema interessante é o da violência na Bíblia. Não há violência (e muita) na Ilíada, um exemplo que já aqui se usou? E achamos o poema bárbaro por causa disso? Acho que não. Os tempos mudam (pelo menos para alguns). E a religião é um fenómeno histórico, da história dos homens. Penso saber que esta posição tem consequências inaceitáveis para alguns crentes. Mas não para todos. Em certas “teologias”, a religião, mesmo sendo divina, não deixa nunca de “estar na terra” com os homens concretos que por cá andam. E de estar cheia de pó dessa convivência.
Também concordo com o essencial do que diz. Pode ter ficado mal entendido, mas de facto admiro esse trabalho de reinterpretação exegética a que se entregam as religiões. Esse trabalho especulativo teológico, que sei bem não ser “à vontade do freguês”, também admiro os grandes pensadores religiosos, é essencial para que as religiões não cristalizem em dogma. E o exemplo cristão, muito mais do que o muçulmano, é exemplar nesse sentido, no sentido de se pensar e aperfeiçoar a si próprio. E Bento Domingues é efectivamente uma das grandes referências dessa Igreja aberta ao mundo, aos outros e à mudança. Que o seu pensamento frutifique, é o que eu desejo, já que “não se pode acabar com eles”, como diria o humorista…
A violência na arte ou na literatura não me impressiona nada, pelo contrário, algumas das grandes obras do génio humano são violentas (lembro-me de repente da Guernica, por exemplo), o que me incomoda é aquilo ser aceite por tanta gente como demonstrações genuínas da vontade de Deus e que tantos adorem esse deus. E essa narrativa é alimentada pela própria igreja (expressões recorrentes como “a ira divina”), enquanto instrumento do medo, do “temor ao Senhor” que também é capaz das coisas mais terríveis, se estiver para aí virado. E assim se vai mantendo manso o rebanho, temente ao castigo.
Uma religião viva é uma que ultrapassa estes arcaísmos, naturalmente, e se adapte à evolução das sociedades.
O problema é justificar as contradicções que se vão avolumando. Sobretudo à medida em que a ciência (e a filosofia e a arte) evolui…
O texto de Bento Domingues no Público abriu apenas uma porta para questionamentos, tão só.
Certo. Concordo com tudo que seja para perturbar a tentativa de “manter manso o rebanho”, pelo menos no que toca a desamansar as ideias. E nesse ponto as igrejas têm quase unanimemente tendências liberticidas. Lembra-se do que se fez à “teologia da libertação”, por exemplo?
Tenha o mal-entendido estado do meu lado ou do seu, quanto à boa “exegese” do seu post, ele (mal-entendido) teve o mérito de proporcionar este esclarecimento, que pelo menos eu apreciei.
Não concordo com este titulo “Os maus exemplos de Deus”, porque pessoas como vocês, tentam descaracterizar a Biblía ao longo da historia porém quando nos atemos a estudar a palavra do Senhor tanto no velho testamento como no novo testamento, em especial o velho a onde encontramos a figura de reinos e imperios por exemplos (babilonico,persa,assirio,sírio) e tantos outros, vamos entender o motivos de tantas mortes além de tudo a biblía e também um livro de cunho historico, retrata o periodo da lei em que pessoas eram julgadas e condenadas pela lei e não por DEUS em especial.
se notarmos o novo vamos ver um outro periodo que e esse caracterizado pela Graça, graça essa que representa o Amor de Jesus, para humanidade, ora estamos falando do livro mais desejado e lido em todo mundo talvez por isso se tornou desejo de estudo, porém quando eu olho os acontecimentos profeticos que ela descreve e vocês estudiosos pro bem ou pro mau deveriam saber que estão se cumprindo a risca
um abraço.
Obrigado, IF, pelo contributo. Mas olhe que na Bíblia “Deus em especial” surge muitas vezes a julgar e a condenar. Ou foi a lei dos homens que arrasou com Sodoma e Gomorra e matou milhares? Um abraço também para si.
Este txto é o exemplo da actual hipocrisia e cobardia que envolve os ateus(agnósticos, não crentes,etc…
!ºSó criticam a ICAR porque sabem q não lhes acontece nada( pelo menos na Terra…); e o Islão? Foi escrito por quem?O problema chama-se Theo van Gogh: medo, cobardia-é fácil dizer os disparates mais absurdos sobre a ICAR, mas qto ao Islão…faziam da sua cabeça uma bola par jogar futebol!
2ºQuem sabe o mínimo sobre Cristianismo percebe com facilidade que Cristo veio instituir uma nova Aliança resultante da morte e Ressureição; ou seja, o Cristianismo funda-se nos Evangelhos.Claro que há sempre a mania de dizer que o Velho Testamento é só sangue; mas para isso é que há o Novo Testamento, e por isso é que Cristianismo é diferente de Judaísmo. O Cristianismo venera figuras bíblicas importantes(Abraão;Moisés;etc.) Aliás, os Mandamentos de Moisés são a trave mestra de qualquer sociedade civilizada.
3^ºA Ciência comete muitos erros; não tem autoridade para acusar a ICAR.Por exemplo, Plutão foi-nos vendido como planeta:agora já não é!
Mesmo o evolucionismo é cada vez mais contestado em termos científicos(há 1 blog espectacular brasileiro que é ao mesmo tempo ciência e humor:”desfiando a NomenKlatura Científica” que recomendo.
4ºOs princípios básicos da ICAR( ensinados por Cristo) mantêm-se há 2 mil anos.
5ºPor falar em sangue: os maiores assassinos e facínoras da História da Humanidade foram(são) ateus:
Hitler;Stalin;Mao;Pol Pot;Lenin;
Ou não cristãos como Átila e Gengis Khan, e outros bárbaros(daí o nome) e vândalos(daí o nome).
E não me fale na Inquisição, que foram situações esporádicas de que a ICAR já pediu desculpa,;O ateísmo fez o terror de Robespierre e Danton e a guilhotina da REvolução Francesa que matou mais seres humanos do que a Inquisição.
E ficamos por aqui; muito mais haaveria a dizer.
Cumprimentos.
Errata: o blog “Desafiando a NomenKlatura Científica”
Registo a emotividade dos crentes em defesa da sua dama. Não gostam de ser escrutinados e é compreensível. Mas as emoções são sempre péssimas conselheiras. E é esse um dos principais problemas das religiões…
Amigo Sátiro, eu não sou dessa guerra!
E falo muito do islão, sim senhor, tanto que até tem uma categoria à parte ali nos links ao lado e a ICAR não tem. E se tem mais referências aqui do que a Cientologia é porque é incontornável, sobretudo neste país.
Religiões e dogmas, meu caro, aqui levam todas pela mesma tabela se achar que têm de “levar”, com muitas aspas não vão os literalistas interpretar mal as minhas palavras. Religiões, credos e convicções, não discrimino nenhum. E Pol Poots e Robespierres e Estalines e essa tralha toda. Vai tudo à frente do buldozer crítico e céptico que trabalha cá dentro desta minha cachimónia desalinhada.
E acredite que até compreendo e aceito que o meu amigo fantasie com algum prazer a minha cachimónia decapitada a ser pontapeada por talibans. Por um lado o pensamento arrepia-me, por outro alivia-me porque a sua impotência é prova de que para muitos de nós já não funciona o “temor do senhor”. É outra tragédia das religiões. Cada vez mais gente perde o medo e depois é uma chatice, não há respeitinho.
«Quem sabe o mínimo sobre Cristianismo percebe com facilidade que Cristo veio instituir uma nova Aliança resultante da morte e Ressureição; ou seja, o Cristianismo funda-se nos Evangelhos»
Também.
«Claro que há sempre a mania de dizer que o Velho Testamento é só sangue; mas para isso é que há o Novo Testamento, e por isso é que Cristianismo é diferente de Judaísmo. O Cristianismo venera figuras bíblicas importantes (Abraão;Moisés;etc.) Aliás, os Mandamentos de Moisés são a trave mestra de qualquer sociedade civilizada»
Percebo melhor agora que o Novo Testamento é tipo o detergente que lava mais branco. Existe para compensar, para equilibrar a narrativa… Pois é, perfeitamente, é por isso é que o Cristianismo é diferente do Judaísmo. Mas não me agrada nada é a conclusão de que os mandamentos de Moisés são a trave mestra de qualquer sociedade civilizada. Tem a certeza?
«A Ciência comete muitos erros; não tem autoridade para acusar a ICAR.Por exemplo, Plutão foi-nos vendido como planeta:agora já não é!
Mesmo o evolucionismo é cada vez mais contestado em termos científicos(há 1 blog espectacular brasileiro que é ao mesmo tempo ciência e humor:”desfiando a NomenKlatura Científica” que recomendo.»
A Ciência está sempre a cometer erros! E o que é mais extraordinário é que não só os assume como efectivamente aprende com eles e efectivamente se aperfeiçoa! Não é fantástico?! E sugestões de sites criacionistas são sempre bem-vindos, a malta gosta é da galhofa.
«Os princípios básicos da ICAR( ensinados por Cristo) mantêm-se há 2 mil anos»
Essa coisa dos “princípios básicos”, tal como os simbolismos bíblicos, também pode ser muito relativa. Provavelmente, por exemplo, uma abordagem mais atenta aos textos e aos costumes dos cristãos primitivos ou mesmo medievais mostrará que alguns desses “princípios básicos” deixaram com o tempo de serem tão “básicos”. Subsistem é recorrentemente os universais amor, piedade, humildade, compaixão, etc., valores simpáticos em qualquer cultura ou religião que se preze. Seja com for, a ser assim, é um hino à coerência e à persistência. Mas há “princípios básicos” mais antigos e eventualmente mais coerentes.
Alguns “religiosos”, quando abrem a boca, parecem ter nascido apenas para dar razão às mais radicais teses anti-religiosas e anti-clericais. Os “religiosos” de serviço, armados em defensores de quem não lhes encomendou o sermão (Deus? alguma igreja?) acham que, lá por invocarem uma fé, estão dispensados de estudar os assuntos e de dizer “qualquer coisa”? O castigo divino para os pecados dos teólogos deve ser ler, eternamente ler, os comentários que estes “religiosos” em blogues cépticos, ateus, agnósticos e aparentados… Dá-me vontade de rir só de imaginar o Bento Domingues a ser obrigado a ler tais pérolas!!
Devemos ter a Bíblia não como um livro uniersal. Pois é ela em seu Primeiro Testamento um livro exclusivo do povo Hebreu e relata um Deus exclusivo dessa nação.
Depois em seu Segundo Testamento relata a história de um homem Hebreu que quis libertar politicamente, seu povo do jugo e servidão romana. Infelizmente foi crucificado pelos romanos.
Porém Saulo de Tarso desiludido com o judaísmo soube com grande missão conduzir o cristianismo para além das fronteiras hebraicas.
Depois veio Constantino e consagrou o cristianismo romano que domina o Ocidente até nossos dias.
Mas não devemos jamais perder de vista que a Bíblia é um livro exclusivo do deus e do povo Hebreu.
Algumas dúvidas:
O que é um “livro universal”?
Tem a certeza que a missão de Jesus Cristo era política e que a sua luta era contra a ocupação romana?
Quando diz que a Bíblia é um livro exclusivo do deus e do povo Hebreu, tem mesmo a certeza disso? E mesmo que o fosse, qual é o sentido da afirmação? Qual seria a diferença se fosse um “livro universal”?
Consegue dar-me um exemplo de um livro religioso que seja “universal”?
O resto é mais ou menos correcto e reflecte alguns conhecimentos básicos sobre a história do cristianismo que, obviamente, nenhum básico ignora. Mas gostava de perceber o sentido geral do comentário: Porquê?