Deus não é um facto. Nem sequer é uma teoria comprovável. Deus é uma ideia. E nem sequer é uma ideia coerente. Como todas as ideias, a ideia de Deus é subjectiva e relativa. Ou seja, cada um de nós tem uma ideia diferente de Deus. À excepção, claro, daqueles de nós que têm a ideia da inexistência ou da irrelevância de Deus. Mas mesmo os fiéis de uma determinada doutrina religiosa têm, todos e cada um, uma ideia muito própria e pessoal (individual) de Deus.
É certo que adoptam como seguras algumas ideias doutrinais, nomeadamente no capítulo moral, mas em relação à ideia de Deus essencial, essa é sempre muito diferente de pessoa para pessoa. Não há dogma que resista à subjectividade e o que acontece com frequência é vermos um dogma grande transformar-se numa miríade de pequenos dogmas descendentes, que dão origem a uma miríade de novas seitas, facções e doutrinas paralelas. Para uns Deus é mais misericordioso, para outros é mais castigador, para outros é só paz e amor, e para outros ainda é uma mera força criadora sem intervenção nos destinos do universo e da nossa vidinha neste terceiro calhau a contar do Sol, etc. Depende. Desde logo da natureza íntima de cada um, da sua personalidade, cultura, educação ou meio ambiente.
Vem isto a propósito de uma entrevista que hoje ouvi na Antena 2, no excelente programa 5ª Essência, a um grande intelectual cristão português, que expressou a sua vontade de Deus, perdão, a sua ideia de Deus. Gostei realmente da conversa e das ideias do convidado, mas achei extraordinário como a sua teoria de Deus (que o senhor debitava com a gravidade própria dos sábios) difere tanto de outras ideias de Deus que já li expressa por tantos outros teólogos e intelectuais cristãos. Cada um deles perfeitamente convicto da verdade e justeza da sua elaboração mental de Deus.
O crente em questão é Luis Archer, conhecido jesuíta e biólogo, ancião interessante dado há muito às questões da ética e da ciência. Um homem culto e educado, portanto. E com uma ideia (ele chama-lhe “intuição” ou “inspiração”), devo dizer, extremamente simpática e agradável de Deus, da tradição cristã e da Bíblia. Muito diferente, portanto, de tantas outras interpretações cristãs de Deus e da Bíblia que todos infelizmente conhecemos.
Luís Archer fala da sua ideia de Deus com a assertividade própria dos homens convictos (refere-se ao “Deus verdadeiro”, por exemplo). Assertividade que é efectivamente bizarra num homem de ciência: Para Archer, apesar da ciência, Deus É precisamente assim e assado e o universo funciona de determinadas e exactas maneiras (como Deus quis). Apesar de admitir que não é possível compreender, não há dúvidas na mente do sábio: Não só Deus É, como Deus É e Fez e Aconteceu de determinadas e, na sua mente, exactas maneiras. Apesar de incomprováveis.
O Archer religioso, ao contrário do Archer cientista, não precisa de provas, porque Deus é basicamente uma ideia (uma “intuição”) incompreensível. E o sentimento religioso será, então, uma entrega incondicional a uma abstracção mitológica. É nesse sentido que Archer, por exemplo, tem como verdadeira, apesar de improvável (ie, não provável), a seguinte asserção: «Deus exprimiu-se no universo, deixou o universo expandir-se e esse universo expandiu-se de acordo com as suas leis», ou esta «Deus criou a matéria e criou as condições de vida e, portanto, Deus não marcou… não esteve a orientar a evolução num sentido ou noutro. O Deus verdadeiro é o iniciador puro, é o senhor absoluto». Pronto, é assim porque alguém disse (ou o Papa ou alguma outra autoridade) que era assim. E isto para ele é verdade suficiente.
Esta circunstância dos cientistas religiosos sempre me pareceu um pouco esquizofrénica, salvo seja e com todo o respeito pelos referidos: Duas dimensões ontológicas completamente adversas a conviver (pacificamente?) no mesmo indivíduo.
Archer, como todos os pensadores da Igreja fez a sua síntese pessoal a partir das inúmeras ideias de Deus que gerações de anteriores teólogos, alguns deles entretanto promovidos a santos e beatos, elaboraram antes dele. O Deus de Archer, por exemplo, é vigilante mas é, digamos assim, que ele se calhar não utilizaria esta expressão, passivo: não interfere nas coisas dos homens. Mas do que se depreende das suas palavras, Deus é sobretudo uma expressão de um desejo de esperança: perante o caos e, a violência e a destruição que persistem em imperar na experiência humana e no cosmos, milhares de anos de militante esperança depois, continuam à espera da salvação divina, da esperança em Cristo, o Messias que, eventualmente, nos virá salvar (outra vez).
Tudo isto é realmente fascinante, mas também é interessante, ouvindo a entrevista (que pode ser ouvida neste link) ou lendo estes trechos que transcrevi para aqui, a maneira como o entrevistado, apesar de todo o currículo e gabarito, se atrapalha e embrulha completamente com questões mais difíceis, refugiando-se, como sempre fazem os crentes quando isso acontece, nos seguros terrenos do “mistério”, daquilo que não nos é dado conhecer, que só podemos “intuir” por intermédio do mecanismo mental de convicção chamado fé, por muito rebuscado ou inverosímil que seja:
«(…) Deus não está a corrigir, Deus fez as coisas e deixa que elas sigam… E, no caso do homem, segundo a vontade dele e segundo o seu desejo, e se o seu desejo é mau, deixa-o ir…»
Portanto, o homem é responsável, é autónomo? Para fazer o mal, inclusive?…
É responsável, é autónomo, para fazer o mal…
Mas o Diabo pode ganhar, nessa… Ao largar assim ao critério do homem, o Diabo pode esfregar as mãos de contentamento, porque tem muito terreno para explorar…
Sim, mas não vai (vencer) … Eu acho que não…
Nessa sua concepção do universo, cabe lá também o Diabo, ou é uma entidade… porque ele não aparece propriamente assumido nas religiões…
Bem, o Diabo é uma entidade complexa, não é uma pessoa… Não é pessoa…
Não é pessoa?
Não, não.
É garantido?
É garantido. O próprio Ratzinger assim o diz.
Muito bem, ele é o Papa, há-de saber… Então e essa entidade, lá o que seja o diabo, não pode desequilibrar as coisas a favor dele?
Não, não porque não tem… Não é um deus, não é um anti-deus, não é uma entidade com valor negativo… É o poder do mal, que é poderoso e que realmente tem grandes possibilidades mas que não tem a vitória final, a vitória final é de Cristo. O Cristo cósmico, o Cristo que evolui e se torna tão amplo quanto o próprio universo.
(…) Bem, tudo isto é muto difícil… A teologia pretende o quê? Compreender Deus? Mas Deus é incompreensível, é incompreensível, nós nunca poderemos ter uma imagem de Deus, uma representação de Deus que seja, digamos, perfeita, exacta. Podemos acreditar nele, podemos ter fé nele, mas não o podemos compreender.
Não o poderá provar também, então…
Pois não, não há provas.
É uma intuição?
Sim, é uma intuição, uma inspiração, é uma força do próprio Deus, é um desejo… incapaz, um desejo que se torna uma realidade em nós, mas não é uma prova, não há provas.
Não há provas, mas se pegar no seu instrumento de eleição, para o qual estudou e tirou notas soberbas, a biologia, se pegar na biologia como o Sherlock Holmes pegava na lupa, não iria tentar descobrir a mezinha com Deus criou o mundo? Refiro-me à parte da biologia que pode ajudar a desvendar o mistério…
Não, eu acho que não. Acho que todas as lupas, todos os níveis moleculares, todas as nanotecnologias agora existentes, nada disso pode explicar a existência real, e a criação do universo. Acho que é uma ordem de coisas diferente. O nosso conhecimento real, o nosso conhecimento científico é muito útil, estuda o mensurável, o verificável, aquilo que se pode provar e quando chega ao fim das suas possibilidades diz, pronto, terminei. E agora os problemas que se põem ao homem são muito superiores a estes, são todos os problemas humanos, todos os problemas do amor, todos os problemas da compreensão das pessoas, todos os problemas da sintonia, da amizade, da ajuda aos outros, tudo isto que é a humanização, não tem explicação científica, é outra ordem de conhecimentos.
(…) O Big Bang, formulado pelos cientistas, é o momento da criação?
Bem, Pio XII ainda quis fazer uma ligação entre o Big Bang e o Fiat Lux (faça-se luz) que vem no Génesis, dizendo que uma coisa correspondia a outra e que portanto a ciência podia pelo menos determinar, com rigor, o dia e a hora da criação, mas, mas quer dizer, foi um comentário de Pio XII que depois não teve seguimento, não é, na teologia cristã… (…) são níveis diferentes, a ciência trata do visível, do estimável, do calculável, da matéria. A filosofia e a teologia tratam do ser em si, que não é testado, nas suas características…
Mas Deus não criou também a matéria?
Criou tudo.
Incluindo, então, o famoso Big Bang…
Incluindo o Big Bang e o Big Bang ter-se-á dado, é muito possível que sim…
Digamos que é uma ordem divina, é uma decisão divina?
É uma decisão humana…
Humana?!
Quer dizer, o Big Bang é um fenómeno… mecânico, portanto que tem a ver com substâncias que são…
Ah, digamos que o quer dizer, se bem entendo, é que Deus está ainda antes disso?…
Ainda antes…
Num plano ainda não material e portanto ainda antes da criação da matéria, digamos assim…
Exactamente.
Então, mas a minha mente preciosista, neste momento, leva-me a pensar: então mas o criador pensou nesse gesto, há não sei quantos biliões de anos e tudo com o fito de, depois de muitos mil milhões de anos, criar um serzinho num canto recôndito desse universo, minúsculo, quase irrelevante, se o sol desaparecesse era apenas uma das cem mil milhões de estrelas que desaparecia da galáxia, que por sua vez é uma das cem mil milhões de galáxias que existem no universo, não é, portanto?
«Creio que a maneira de nós entendermos, ou podermos compreender como é que isso (a criação) se deu é… Deus está na base de tudo, não só na origem, na primeira origem, nos planos… Deus criou a matéria e criou as condições de vida e, portanto, Deus não marcou… não esteve a orientar a evolução num sentido ou noutro. O Deus verdadeiro é o iniciador puro, é o senhor absoluto. Os senhores que não são absolutos querem intervir na obra que fazem… encarregam pessoas de fazer coisas mas essas pessoas ficam, enfim, sempre…
Condicionadas?
Condicionadas. Enquanto que Deus, pelo contrário, é só… Deus põe, pôs, o universo, quer dizer, ele exprimiu-se no universo, deixou o universo expandir-se e esse universo expandiu-se de acordo com as suas leis.
Mas, depois vem a Bíblia e os seus mandamentos, isso também é Deus…
Sim.
Então Deus sempre condiciona um bocadinho… na medida em que há um mínimo de requisitos para se ser bom, digamos assim.
Aah, isso é um outro aspecto diferente. O ser bom, tem a ver com a capacidade de compreensão do bem e do mal, do que se deve fazer do que não se deve fazer…
Referia-me aos dez mandamentos…
Os dez mandamentos, exactamente…
Que emanando de Deus, quer dizer que Deus também diz “pronto, criei, muito bem, está lá a base, mas depois também há aqui um caminho, que é preciso seguir”…
Sim, mas esses dez mandamentos não são exteriores à realidade criada. A realidade criada é que se manifesta naqueles mandamentos…
Não é uma imposição, portanto?
Não é uma imposição, não se impõe… pois não, quer dizer, é uma realidade que depende do próprio… quer dizer, os próprios… nós poderíamos descobrir os dez mandamentos só pela lógica intrínseca das coisas…
Portanto, não era preciso vir alguém… não é uma cartilha, portanto?
Não, não é uma cartilha, é uma ajuda.
Se bem que esses mandamentos não são universais, e aqui começa o barco a estalar, porque há pessoa que não se importam nada de invejar e… quer dizer, não têm remorso desses pecados, chamemos-lhe assim?…
Heee, no sentido de?…
Se fosse totalmente intrínseco, seria de esperar que toda a gente os seguisse, não é?
Sim…
Mas todos sabemos que nem toda a gente segue esses mandamentos…
Se toda a gente seguisse… é claro que se houvesse uma tendência para o bem…
E não há?
Há uma tendência para o bem, mas há também uma tendência para o mal. E para o bem que há no mal…
(…)


Deus é, na verdade, uma ideia criada pelo homem, quando este não soube compreender tudo que o rodeia.
Se conseguíssemos dar uma explicação mais exacta a respeito do Universo, vida e morte, estaríamos longe de ” um super-poderoso, umniciente e infinto.
É possível que o famoso ” BIG BANG”, desse origem a tudo que é e que existe hoje, como também seja possível uma partícula simples desenvolvesse e desse origem a tudo
Imaginemos um grão de trigo, quem poderia imaginar que há nele inúmeras sementes, folhas, raízes e até mesmo caule?