A Igreja Católica é um verdadeiro maná do disparate. Já nem falo da militância de base, o sal da terra, o povo supersticioso e temente, mas os cidadãos que lideram o rebanho, padres, bispos e até Papas – muito menos propensos, porém, a disparatar, até porque têm uma legião de assessores a polir a mensagem. As chefias intermédias, retomando, encarregam-se brilhantemente da missão.
O último grande disparate apostólico romano em Portugal veio do Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga. A Igreja perde peso na sociedade ocidental, cujo estilo de vida é cada vez menos compatível com a moralidade católica e, em vez de reflectir sobre as razões profundas do fenómeno, não, faz como o Arcebispo: Estrebucha, grita, acusa, arranja um bode-expiatório e sacode a água do capote. São “eles”, os sacanas dos incréus!
Convém, desde logo, perceber que os incréus são uma consequência, não são uma causa…
O Arcebispo, para variar – num tempo em que nunca houve tanta liberdade religiosa e em que a Igreja Católica mantém imensos privilégios e mordomias, em que é proprietária de um poderoso aparelho de comunicação social, que vai desde os pasquins da paróquia à Rádio Renascença e em que nunca teve tanta voz (a internet, meu Deus!) – coloca a sua organização no papel de vítima (digo eu, dos suspeitos do costume, jacobinos, pedreiros livres, gays e lésbicas, comunistas e outros pervertidos afins), advertindo que o Estado não pode ser “militantemente ateu” e que deve dar (mais?!) condições para os crentes viverem a sua religião…
Se o ridículo pagasse impostos….
Numa coisa concordo, sem dúvida, o Estado não deve ser nem militantemente ateu nem militantemente religioso, ponto final. O que o Arcebispo não entende, por outro lado, é que não é o Estado que está a ficar mais “ateu” (i.e., menos católico), mas sim o tecido social, ou seja, somos todos nós. E o Estado, como deve ser, também somos nós. Os políticos são o nosso espelho. É tão simples como isso. Tão simples quanto o “sal da terra” ser cada vez menos ignorante e condicionável. É mais livre, tão só, e a Igreja convive mal com essa realidade.
Agora, quem esteve bem, mas mesmo muito bem foi o inevitável Vasco Pulido Valente, homem de vistas largas e lucidez inquietante. Foi no Público de sexta (ontem) e reduz o Arcebispo à sua crescente irrelevância. Merece transcrição e multiplicação:
Um governo militantemente ateu?
Com o risco de repetir Constança Cunha e Sá, insisto no tema. D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, disse esta semana que “o Estado não pode ser militantemente ateu” e “deixar de reconhecer” e “respeitar” a religião de cada um. O que estaria muito bem se D. Jorge não acrescentasse que o Estado deve também “proporcionar” a cada um “as condições necessárias” para “viver” essa “religião”.
Evidentemente, quando D. Jorge pede ao Estado um papel activo, não pensa, por exemplo, nos vários ramos do protestantismo, no judaísmo ou no islamismo. Pensa na Igreja Católica Apostólica Romana e o que lhe custa é a progressiva perda de influência da Igreja na sociedade portuguesa, por iniciativa ou perante a indiferença de um Estado que, historicamente, a tinha promovido e sustentado.
O arcebispo protesta com veemência contra “a incrível exclusão da presença católica” do “ambiente público” e do “ambiente político”. Mas nenhuma liberdade de nenhuma espécie foi tirada à Igreja. Nem a liberdade de se exprimir, nem a de se reunir, nem a de se manifestar. Se a sua “presença” no “ambiente” público e político não é maior, só se pode queixar de si própria e de uma cultura, a cultura do Ocidente “liberal”, que não a favorece. O Papa Ratzinger avisou que a Igreja se iria inevitavelmente tornar numa pequena minoria ignorada e fraca; e que o tempo triunfante da aliança com o Estado acabara para sempre. Só que a realidade não dói menos por ser prevista e até esperada. O episcopado e os católicos não se resignam ao lugar que é neste momento o seu e tomam por um “ataque” o que não passa, no fundo, do curso “natural” das coisas.
O resultado do referendo sobre o aborto, o “facilitismo” do divórcio, a união de facto e o casamento de homossexuais (que não tardará) não são um “ataque” do Estado à Igreja Católica. São a consequência – em Portugal, como em Espanha ou em Inglaterra – dos valores que a maioria adoptou e pratica. É compreensível e legítimo que a Igreja se insurja contra tudo isto. Já não é compreensível e legítimo que declare o pobre governo do PS “militantemente ateu” e, ainda por cima, por obra e graça de “forças” que Sócrates não “vigia”. Se a Igreja quer recuperar o que perdeu, esqueça finalmente o Estado e os ridículos privilégios de que ainda goza, e venha para a rua. Não há outra maneira de ganhar uma existência pública e política.
Vasco Pulido Valente in Público 4 de Abril de 2008

