Como já aqui referi várias vezes, a religião não é para mim um inimigo. É uma fonte de fascínio, interesse e repulsa, por vezes, mas não tenho tendências repressoras da fé alheia, ao contrário de alguns descrentes mais combativos. Esses, como o muito (bem) celebrado e ouvido Richard Dawkins, encaram a crença religiosa de forma bem menos simpática do que eu. Aliás, para tipos como o Dawkins, eu, agnóstico, sou um reles “fence sitter”, que é mais ou menos não ser peixe nem carne, nem assim nem assado, ficar ali em cima da cerca, no meio das “facções” em combate, sem cair nem para um lado nem para o outro, sorrindo a um, sorrindo a outro…
A questão é que isso para ele é mau e para mim é bom. Em termos filosóficos sempre gostei, de resto, do meio-termo. Ou do caminho do meio, como lhe chamam os budistas. É o único que tem dado resultados positivos na história da humanidade, aliás. Também sempre apreciei o princípio da experiência, da dúvida e do cepticismo, o que deve ser defeito profissional porque fui jornalista. Além disso sou cada vez mais criterioso nas minhas frentes de batalha. Mas no meu caso o agnosticismo nem é convicção nem é indecisão, é condição: É uma espécie de imperativo superior ético. Basicamente, oriento-me com a razão e a experiência, mas estou aberto às possibilidades. Deus existe? Não sei. O Deus do Livro definitivamente está fora de questão, não me faz sentido absolutamente nenhum, mas outras ideias de Deus, quem sabe…
Mas no essencial sou não crente e vejo as religiões, passadas, presentes e futuras, sobretudo como fantasias e narrativas de natureza moralizadora, expressões mitológicas de desejos, necessidades e vontades vitais para o ser humano, espécie que desenvolveu uma espécie de maldição maravilhosa chamada inteligência.
Religião é basicamente, acredito – entre outras coisas, como o facto de “simplesmente” me parecer mais lógico e racional, porque nunca tive experiência nem autoridade em contrário -, actividade mental e emocional. É uma entrega individual a uma crença, a uma convicção formulada por outros indivíduos na tentativa de codificar o incodificável, de explicar o inexplicável (ainda…).
Depois, a reboque das narrativas e das credulidades vêm as instituições, as doutrinas, os mandamentos e toda a restante parafernália evangelizadora e litúrgica. Além disso, as religiões são como os chapéus do Vasco Santana (1), há muitas e cada um escolhe a que quer (ou a que pode…). É um facto que as religiões podem ser extremamente perniciosas, como já o foi bastante o cristianismo, hoje domesticado no chamado mundo ocidental, ou como é hoje o islamismo. Esta última, já agora por ser curioso, fomenta mais ou menos o mesmo tipo de dinâmica política e social que a sua congénere cristã do Livro fomentou durante centenas de anos na Europa. Até, pelo menos, ao iluminismo e correntes filosóficas e ideológicas congéneres que nos libertaram a mente das garras do dogma religioso a partir do Séc. XVII, e ao nascimento dos verdadeiros Estados-Nação, sobretudo mais tarde com o nascimento do conceito de Estado de Direito (sistema político baseado no primado da Lei Civil) e com a EFECTIVA separação de poderes temporal e espiritual, também por essa altura.
Hoje, que emergimos há muito do negrume medieval na Europa, as religiões ainda tentam fazer valer as suas opiniões, mas são no mínimo apenas mais um parceiro social. Como os sindicatos ou as ONG’s. Isto é, organizações que dão pareceres mas estão definitivamente fora do “jogo” da governação, sem grande influência prática e real sobre a sociedade. Não obstante muita gente se declarar adepta de uma ou outra crença, o que mostra a minha experiência, a minha leitura ou a experiência de outros com quem troco ideias, é que muito poucos transpõem as respectivas doutrinas para as suas vidas concretas… Até nesse sentido é cada vez menos importante.
As religiões tradicionais continuam extremamente poderosas, influentes e ricas, continuam decerto a existir crentes mais rigorosos e até mesmo muitos fanáticos, mas a disseminação das liberdades individuais, da educação escolar e do acesso à informação e a outras formas de pensar e viver, leva progressivamente ao seu declínio. As multidões que se continuam a deslocar atrás do Papa não são sintomáticas do todo social e da tendência de laicização da sociedade ocidental. Cem mil pessoas na rua é um espectáculo de encher o olho e fazer manchete, mas é uma gota de água no contexto geral da população.
Não só há cada vez mais gente não-religiosa (tendência que se acentuará nas próximas gerações, mais instruídas e informadas), como a própria oferta religiosa está cada vez mais fragmentada: Também cada vez mais gente prefere ingressar numa qualquer proposta espiritual mais “simpática” ou adequada à individualidade de cada um. E também, seguindo a natural lei da oferta e da procura, há cada vez mais propostas. Além do cristianismo no mundo ocidental, por exemplo, ter de combater agora com a livre concorrência de outros credos igualmente antigos (como o referido maometismo, o budismo ou o taoismo), ainda tem de enfrentar a “ameaça” dos novos cultos. Basicamente, os tempos não estão fáceis para quem estava a habituado a ter o monopólio do mercado das almas.
Mas apesar da proliferação de expressões religiosas, quem afirma que a religiosidade está a prevalecer, das três uma, ou não conhece História, ou não conhece o mundo onde vive ou não está de boa fé. Está a aumentar na medida do crescimento populacional, a maioria da população mundial ainda é religiosa, mas nunca tanto como hoje se disseminou na sociedade um pouco por todo o lado, sobretudo no super-lotado lado urbano, a “mancha” da não-religiosidade, do ateísmo e do agnosticismo nas suas inúmeras expressões. A realidade é que a percentagem de crentes, num mundo globalizado e cada vez mais ocidentalizado, está a diminuir, na inversa proporção do aumento de não-crentes, que também crescem na medida da população geral. Nem é preciso trazer para aqui estatísticas, basta atentar nas palavras do Papa. Somos cerca de 15% e 850 milhões, segundo os dados desta insuspeita (sem pôr a mãos no fogo…) organização cristã norte-americana, que também empresta o gráfico adiante (onde, bizarramente, insere os ateus no rol das religiões…). E isto quer dizer que somos infinitamente mais do que éramos há cem anos atrás. E como descobrimos que afinal somos muitos e podemos falar, também vamos espalhando a nossa mensagem. E multiplicamo-nos.
Isto tudo para dizer que o meu inimigo de estimação não é a religião, é acima e tudo a ignorância. Felizmente proliferam cada vez mais conceitos como livre-pensamento ou espírito crítico. O que se reflecte inclusivamente no seio das próprias organizações religiosas, que se vêm obrigadas, a contragosto porque são tendencialmente conservadoras (como de resto a generalidade das instituições, religiosas ou não), a acompanhar a passada cultural dos seus fiéis, que cada vez mais interpelam criticamente a sua igreja. Movimentos mais críticos ou mais “desalinhados” com a ortodoxia, como por exemplo os católicos progressistas portugueses ao tempo da ditadura salazarista, sobretudo nos anos cinquenta e sessenta do século passado, já não actuam e intervêm semi-clandestinamente e ostracizados pela própria igreja a que pertenciam. A ditadura acabou e hoje os críticos têm liberdade e espaço público, são incontornáveis até para a própria ortodoxia, que era um dos pilares da mesma ditadura.
Hoje há muito, já agora, quem tente branquear o papel da Igreja Católica no nosso país nessas e noutras alturas de opressão política (que são cerca de 90% da nossa experiência histórica nacional de mil anos…), elevando ao altar meia-dúzia de heróis, como o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes (de quem aconselho vivamente, por exemplo, a leitura desta carta corajosa a Salazar, que lhe valeu dez anos de exílio). Esquecem-se é de contar a história toda. Depois a História fica mal contada, fica incompleta. Ignorância… O que falta contar é que O Bispo do Porto era a excepção da regra. E que a regra era o apoio activo e protocolar à ditadura. Por exemplo. Falta explicar, por exemplo, como é que a restante hierarquia da Igreja em Portugal ou o Vaticano olhavam para D. Ferreira Gomes. Por exemplo. Mas isso já não é tão simpático. Seja como for, encontrei na net um resumo biográfico muito objectivo e fiel da questão, que não queria deixar de reproduzir aqui. A propósito da ignorância e com os agradecimentos à autora Sofia De Melo Araújo:
“D. António Ferreira Gomes nasceu a 10 de Maio de 1906, na Casa de Quintela (casa de caseiro da Quinta da Quebrada), em S. Martinho de Milhundos, Penafiel. Entrou para o Seminário aos 10 anos de idade e, mais tarde, prosseguiu os denominados estudos filosóficos na Universidade Gregoriana, em Roma. Em 22 de Setembro de 1928 foi ordenado presbítero na Torre da Marca. Pouco depois, foi nomeado prefeito e director da disciplina do Seminário de Vilar, do qual viria a ser vice-reitor a partir de Junho de 1936. É de 1931 o seu primeiro livro, Herói e Santo. A 15 de Janeiro de 1948 foi nomeado Bispo Coadjutor da Diocese de Portalegre e Castelo Branco, onde ficou até 1952, quando foi nomeado Bispo do Porto. Foi nesta qualidade, e obedecendo a um espírito de rectidão e justiça social, que D. António escreveu, a 13 de Junho de 1958, uma polémica carta aberta ao ditador António de Oliveira Salazar, tornando-se de imediato persona non grata para o regime. Seis meses depois escreveu nova carta em tom moderado, mas a 23 de Maio de 1959 viu-se obrigado a dirigir missiva à Conferência Episcopal (enviada a todos os Bispos nacionais), queixando-se da mudez e impassividade da Igreja perante a situação nacional e denunciando os ataques que lhe eram dirigidos pelo governo. A 24 de Julho de 1959 D. António Ferreira Gomes saiu do país “em gozo de férias” e foi impedido de atravessar a fronteira em Valença, dando início a dez anos de exílio pela ditadura. Nove anos mais tarde dirigiu carta de crítica violenta ao conivente Cardeal Cerejeira. Durante a operação cosmética marcelista, foi-lhe permitido o regresso a Portugal e, em 4 de Julho de 1969, reassumiu o cargo de Bispo do Porto. A sua intervenção cívica desenrolou-se antes, durante e após o processo revolucionário de democratização. Em 1982, aos 75 anos, resignou ao cargo de bispo do Porto. Faleceu a 13 de Abril de 1989, em Ermesinde.”
In Nota Explicativa a “Economismo Ou Humanismo”, de D. António Ferreira Gomes
Bem, mas essa é a experiência portuguesa. No campo do grande quadro da história, a Igreja Católica viu-se efectivamente confrontada, face ao incremento das liberdades individuais e das conquistas sociais e políticas das democracias seculares, com uma necessidade premente de atender aos críticos e abrir caminhos de mudança, renovação e modernidade. Não é obviamente um processo fácil nem simples, a instituição é, como já sublinhei, tendencialmente conservadora (inclusive por uma questão de constância doutrinal), mas esse movimento foi irresistível, até culminar no histórico Concílio Vaticano II, nos iconicamente libertários anos sessenta.
A realidade é que as liberdades individuais que tanto combateu, acabaram por a beneficiar, insuflando-lhe oxigénio e novas ideias. A elas bem pode agradecer a Igreja Católica por não ser hoje uma religião cristalizada e anacrónica como a Muçulmana. Há focos de fanatismo e intolerância radical no seio cristão, é certo (nos EUA esse extremismo é mais visível e numeroso), mas felizmente, a norma é um espírito muito maior de abertura e aceitação da diferença. Também é um facto que não têm alternativa, mas enfim, nota-se que se esforçam para não ficar muito para trás…
No mundo muçulmano das madrassas e do pensamento único, por outro lado, o que falta em liberdades sobra em ignorância e reaccionarismo. Resta-nos ter esperança nas novas gerações de jovens muçulmanos ligados ao resto do mundo pela internet e pelos satélites de comunicação. Talvez eles comecem também a perceber que há mais vida para além da religião.
A propósito de ignorância e de falta de sentido histórico de muita gente, lembrei-me de uma excelente palestra intitulada “Uma breve história da violência”, que acho que já aqui aconselhei há uns tempos, nas excelentes TED Talks. Se ainda não viram, serve a palestra para perceber, com meridiana clareza para quem perceber inglês, como a percepção da realidade e a realidade são realidades completamente distintas. O conhecimento histórico objectivo, científico, honesto e avalizado pela Academia, tem então essa virtude sem par: Ajuda-nos a ter uma percepção mais real da realidade, passe mais uma vez a redundância.
O palestrante, Steven Pincker, mostra aqui por A+B, incontestavelmente, que os tempos modernos são os mais pacíficos e menos violentos de sempre da história da humanidade. Como ele próprio diz com ironia, dizer uma coisa destas numa altura de guerra do Iraque e de Somálias, pode parecer no mínimo uma ideia lunática. Mas não é. É completa e integralmente verdade. E ele mostra como e porquê. Chegamos ao fim com a sensação que, afinal, é realmente uma questão de bom-senso. Algum conhecimento histórico e alguma reflexão séria sobre o assunto leva-nos efectivamente a concordar. Mas no entanto, para a generalidade das pessoas, estes são os tempos mais terríveis de sempre… Não são! Em termos gerais são os melhores de sempre. A diferença é o grau de ignorância ou de memória.
(1) «According to David Barrett et al, editors of the “World Christian Encyclopedia: A comparative survey of churches and religions – AD 30 to 2200,” there are 19 major world religions which are subdivided into a total of 270 large religious groups, and many smaller ones. 34,000 separate Christian groups have been identified in the world. “Over half of them are independent churches that are not interested in linking with the big denominations.“» in Religious Tolerance



Atenção que não-religioso ao quer dizer não-crente. O sentido da alteração de mentalidades e do panorama das religiões vai no sentido da fim dos dogmas, de uma fé mais individual, particular, sem estar sujeita a aos ditâmes de uma autoridade ortodoxa.
No caso português, isso é notório na diferença que há entre quem se diga católico e entre os que praticam de facto o catolicismo oficial – ritual e moralmente – ou ainda no grupo de pessoas que se dizem crentes sem religião, que entre nós andam na casa dos 2%.
A espiritualidade e religiosidade modernas são abertas, individuais, flexíveis e livres de dogmas, o que, a prazo, condena a um estatuto minoritário instituições ortodoxas como a Igreja Católica ou a autoridade doutrinária de Escrituras.
Sim, tudo isso é certo. Mas porque é que não-religioso é diferente de não-crente? Consigo perceber isso quando penso nos crentes em ideologias ateistas, por exemplo os comunistas. É nesse sentido? Porque o facto da religiosidade dos desalinhados ser eventualmente heterodoxa não significa que não haja crença. Há crença na mesma, simplesmente numa explicação religiosa alternativa. Ultimamente, já agora, tenho conhecido alguns crentes numa entidade demiurga chamada Kryon, por exemplo… Não é isto religião e crença?
Dissociar religião de crença é difícil, sim, mas o panorama religioso moderno obriga a uma enorme engenharia classificativa por força da não-conformidade a categorias tradicionais.
Eu, por exemplo, distingo as duas na medida em que o que pratico é uma religião, mas a crença que cada um lhe associa é da responsabilidade de cada um. Prefiro o termo «praticar» em vez de «professar», porque o que me define enquanto membro de uma comunidade religiosa é a prática ritual e não a fé. Parto de uma ortopraxia e não de uma ortodoxia, logo encaro a palavra “religião” no mesmo sentido que Cícero: observância ritual escrupulosa, piedade no sentido original do termo. A única crença que vem associada é a no destinatários dos ritos – e nesse ponto sim crença e religião são indissociavéis – mas qual a sua natureza, como se relacionam e todo o universo de fé que daí segue é da consciência de cada um.
Já os portugueses que se dizem crentes serão pessoas que têm uma consciência ou aptidão espiritual – chamemos-lhe assim – mas que não seguem nenhuma instituição, estrutura ritual ou fé em particular. Por outras palavras, estão para a religião em geral como os católicos não-praticantes para o catolicismo: acreditam em algo semelhante, mas desligam-se da instituição, autoridade ou texto normativo; têm crenças flexíveis, mutáveis e muito próprias ou, numa palavra, individuais. E, quando recorrem ao espiritual, recorrem ao católico, seja porque motivo for, enquanto os crentes não-religiosos recorrerão a um espiritual mais diverso e menos criterioso.
Por outro lado, também podem ser cristãos evangélicos: na sua recusa de instituições ou normativas, alguns recusam definir-se como religiosos e preferem ser chamados apenas de crentes. Não é particularmente preciso ou sequer útil para termos estatísticos, mas a diversidade e individualidade do “mercado” religioso moderno tem destas coisas.
Estes assuntos são mais complexos e menos propensos a generalizações do que às vezes se dá a entender, não são? :p
São, sem dúvida. Também não tenho a pretensão da resposta. Registo reflexões descomprometidas e mais ou menos espontâneas e estou sempre disposto a corrigir a mão se me engano. Apesar disso, não evito pensar que muitas vezes somos nós que complicamos o que se calhar é mais simples.
Essa distinção entre crente e religioso, a não ser na hipótese comunista referida, parece-me um tanto ou quanto bizantina… Quase tanto quanto uma prática religiosa restrita ao ritualismo e vazia de conteúdo doutrinal…
O que me parece, basicamente, é que nem todos os crentes são religiosos, certo (veja-se o caso dos comunistas), mas que todos os religiosos são crentes. E ser religioso, quanto a mim, é acima de tudo acreditar numa explicação sobre-natural (seja lá o que isso for… ) para a vida.
Agora, ser-se religioso sem se ser crente é que me custa mais a engolir, desculpe lá o mau jeito…
Eu nunca falei em ser religioso sem ser crente, falei apenas em ser religioso sem aderir a uma ortodoxia, o que quer dizer que o ponto comum na comunidade religiosa assim estruturada está mais na prática ritual e menos nas crenças. Ausência de doutrina não implica ausência de fé, a diversidade da mesma não impede a unidade na prática.
Para usar uma metáfora, é como se tivessemos um grupo profissional de redactores de cartas. Se as escrevem, pressupõe-se que acreditam que alguém as recebe ou, pelo menos, que o acto de as escrever tem algum valor, mas o que define os redactores enquanto grupo não são as opiniões ou crenças que cada um deles tem a respeito dos destinatários das cartas, mas a prática de as escreverem. Assim é com as comunidades religiosas ortopráxicas.
E eu, como religioso, posso assegurar-te que não o sou por acreditar numa explicação sobre-natural para a vida. Quando muito sou religioso por ter uma vivência das coisas que é em parte passional, emocional ou irracional e traduzo isso em formas rituais que me definem como praticante de uma religião.
Agora é que eu acho que estamos definitivamente a complicar sem necessidade…
Pronto, aceito perfeitamente, és um cidadão religioso ortopráxico com uma fé livre e heterodoxa mas ritualista, muito bem. Não me vou por a fazer juízos sobre as opções de cada um, mas acho que não é muito comum (a não ser que me dês um exemplo concreto de “comunidade ortopráxica” que me esteja a escapar…). Mas lá está, é mais um sinal da perda de influência real das religiões institucionais.
Mas juro que gostava de perceber melhor a natureza da tua religiosidade. O que é que significa ao certo, se for possível explicar, ser-se religioso por se ter «uma vivência das coisas que é em parte passional, emocional ou irracional»? Em que medida é que isso é de ordem espiritual? Onde é que entra Deus nessa entrega emocional a rituais? Sei lá, questões deste género…
Quanto à vivência das coisas em parte passional ou irracional, resume-se a deixar a ciência explicar e, paralelamente, ter a liberdade de viver os fenómenos emocionalmente (para pôr as coisas em termos muito simples). Um bom cientista saberá, certamente, explicar quais os processos químicos que ocorrem quando estou apaixonado, emocionado, assustado, excitado, etc. E, no entanto, não é por isso que quando alguém me pede uma prova de amor eu puxo de uma análise ao sangue. Do mesmo modo, a ciência pode saber explicar as estações do ano, o ciclo lunar, a metereologia ou os tremores de terra e eu aceito e uso essa explicação. Mas, do meu quotidiano, faz *também* parte uma vivência emocional, irracional da realidade, vivência essa que é religiosa e que se traduz em oferendas e ritos a divindades associadas a fenómenos naturais, instituições, actos ou grupos humanos. Não nega a ciência tal como um acto romântico não nega a natureza química (ou hormonal) da paixão, mas as duas coisas co-existem de algum modo, desde que se sabia qual o lugar e valor próprios de cada uma e mesmo a vivência emocional tenha um filtro racional para evitar excessos passionais (como o prescindir de tratamento médico viável por confiança na religião).
Deu para perceber alguma coisa? :p
Caro Joaopc,
Gostei do seu post.
Prova que é um homem lúcido, virtude essa tão importante e tão rara. Além disso, revejo-me bastante no seu pensamento. Eu defino-me como agnóstico deísta, i.e., o meu lado mais racional diz-me que é de todo impossível avaliar a existência ou não de uma divindade. O meu lado mais sentimental diz-me, perante a maravilha que é todo o Universo que nos rodeia, que deve existir algo superior, transcendente, chamemos-lhe Deus ou qualquer outra coisa, pouco importa. Daí a minha definição como deísta. Mas, sou claramente não-religioso (das religiões do livro e de todas as outras), céptico, livre pensador e laico.
Para mim é óbvio que os chamados livros (Tora, Novo Testamento e Alcorão) são livros escritos e idealizados por humanos e não revelações divinas.
Mas, dada a ubiquidade das religiões, em todas as épocas e culturas e em todas as zonas geográficas, parece-me também que apesar de criações humanas as religiões vão ao encontro de uma necessidade de todos os seres humanos: a procura do transcendente, a procura de respostas para as perguntas existenciais do tipo quem somos, de onde vimos, o que fazemos aqui, para onde vamos, respostas tão importantes para quem é tão pequeno e tão frágil face a este Universo tão imenso e tão complexo. Finalmente uma procura de compreensão para a maior de todas as incógnitas, a morte, a nossa e a dos outros.
Portanto, entendo perfeitamente porque a maioria das pessoas professa algum tipo de religião. Mas entendo também todos os outros que andam à procura de outro tipo de respostas, mais racionais (deístas, agnósticos, ateus, etc.).
Eu classifico-me nesse tipo. Não tenho nada contra as religiões, desde que respeitem igualmente as minhas convicções. Mas sou completamente contra todas as formas de teocracia, mais ou menos disfarçadas, até porque para além do seu papel de religare, as religiões possuem claramente um papel de controlo e condicionamento social,
que acho inaceitável.
Por isso, vou continuar a visitar este seu blog, porque me parece que por aqui, se pode aprender e discutir ideias de forma sã.
Sotnas
Exemplos de comunidades ortopráxicas:
Nova Roma
Wildvine.org
Portus Kale
Hellenion
The Troth
Order of Bards, Ovates and Druids
Nätverket Forn Sed
O grau de rigidez da prática ritual é variável, dependendo do ênfase que cada grupo e da tradição a que se dedica. Reconstrucionistas como a Nova Roma ou o Portus Kale tendem a ser mais rigorosos, wiccans e derivados como os neo-druidas da OBOD são muito mais flexíveis. Por outro lado, a quantidade de informação do passado também afecta o grau de ortopraxia: tradição mais ricas em fontes como a romana ou grega tendem a ser mais rigidas, mas outras como a celta ou nórdica são por vezes forçadas a preencher a falta de informação com inspiração pessoal. A adaptação das religiões antigas aos tempos modernos também é outro factor. Em qualquer dos casos, a ortopraxia nunca é plena, tal como na Roma Antiga era.
Errata: tal como na Roma Antiga também não era.
Obrigado pelo input ó Sotnas. É sempre bem-vindo quem vier por bem. Podemos discordar nalgum pormenor, mas creio que estamos metafisicamente em sintonia. Seja como for, isso não interessa para nada, não estou aqui para fazer comunidade, como diria o Luiz Pacheco, mas sim para exprimir, divulgar e trocar ideias. De preferência ideias diferentes das minhas. Por isso volta sempre.
E por falar em ideias diferentes… que tal estas do surpreendente amigo Héliocoptero, que já me obrigou a “perder” algumas horas para perceber melhor o que é o “ortopraxismo” e o que são todas aquelas referências? Confesso que já li algumas coisas sobre o culto Wiccan, por exemplo, e outros de natureza neo-pagã, mas a maioria desses nomes que deixas é-me completamente desconhecida. Ignorância…
Joaopc,
Obrigado pela tuas palavras. De facto, se dizes que este blog não existe para fazer comunidade nem proselitismo, mas para troca de ideias, apoio em toda a linha. Para proselitismo já basta o das religiões. Mas ideias diferentes, muito diferentes das tuas, não tenho efectivamente.
Vou voltar e, entretanto, vou também pesquisar o que raio será ortopraxismo.
Sotnas
Não há dúvida que a chamada espiritualidade dá pano para muitas mangas…
Este universo da chamada religiosidade “pagã”, que o Héliocopetro aqui introduz, é também um dos mais interessantes. E não sei se são agora mais numerosos ou apenas mais visíveis, mas o facto é que também me parece ser uma tendência crescente.
A que não será alheio, penso eu, um certo regresso a valores naturalistas e de maior respeito e empatia pela natureza (paradoxalmente à crescente urbanização dos povos…), elo que esse que a tradição judaico-cristã quebrou tragicamente ao introduzir uma visão supremacista do ser humano, filho dileto do Criador, perante o meio-ambiente: uma coisa separada.
Movimentos como estes presumo que tentam recuperar também esse elo perdido. No mínimo é simpático e noto tolerância nas tuas palavras. Isso é bom. E se todos os ortopraxistas são assim, viva o ortopraxismo!
Ainda não tive tempo de aprofundar a questão, mas percebo a necessidade dos rituais, da praxis nutrida e transmitida, etc. Mas e a questão das “divindades”, por exemplo? São meros símbolos e metáforas, ferramentas para consumo ritualistico, ou há de facto crença na sua existência e influência concreta? E que divindades são essas?
A origem do movimento neo-pagão tem muito de consciência ecológica, sim, principalmente desde os anos 60 e 70, e constitui ainda hoje uma das suas principais linhas de pensamento. Não será universal, nomeadamente entre reconstrucionistas, na medida em que não se limitam à adoração de divindades dos elementos naturais, mas subjacente até ao mais urbano dos cultos pagãos está sempre a ideia de que a terra e a paisagem não são apenas uma fonte de matérias-primas, mas um espaço digno de respeito e até com valor ontológico próprio (génios locii, trolls, sidhe, espíritos locais, etc.), uma visão coincidente, aliás, com práticas comuns no xintoísmo ou budismo. E o número de neopagãos é crescente, sim: o mais recente estudo de filiação religiosa nos Estados Unidos coloca-os acima da fasquia do um milhão e depois há ainda os números da Europa, América do Sul e Oceânia.
Quanto à questão das divindades, a resposta depende em larga medida de a quem fazes a pergunta. Entre wiccans e grupos derivados encontrarás quem fale das divindades enquanto metáforas, arquétipos, manifestações de uma única ou par de divindades ou ainda como entidades reais e concretas. Entre reconstrucionistas, a predominância vai para o denominado politeísmo rígido, isto é, a generalidade das divindades são vistas como entidades concretas e de influência real, muito embora sobre a sua natureza precisa haja todo o tipo de opiniões: mais antropomórficas, mais platónicas, insondáveis, naturalistas, etc. Se juntares numa mesma sala dez pagãos modernos, és capaz de obter cinco a dez respostas diferentes sobre a natureza das divindades. Uma definição de politeísmo rígido pode ser encontrada na página da Associação de Tradições Politeístas:
http://www.manygods.org.uk/
De notar a codificação de crenças comuns, da doxa, nomeademente no ponto c) da definição de politeísmo.
Pessoalmente, encaro as divindades como entidades independentes, reais, de influência concreta e manifestas no mundo natural e humano, mas não faço desta minha crença um facto universal ou um dogma ao qual todos devem aderir. As crenças pessoais são isso mesmo: pessoais!
Que divindades são depende, uma vez mais, da pessoa a quem o perguntas: as minhas são maioritariamente romanas, mas outros “convivem” mais com celtas, gregas, nórdicas, bálticas, germânicas, eslavas, ibéricas, fenícias ou finlandesas, com enfoque num panteão específico ou não, eclética ou sincreticamente. Uma vez mais, há vivências para todos os gostos.
É sempre a aprender…
E ainda há quem pense que esses deuses já estavam todos mortos e enterrados, sim senhor, folgo em vê-los a todos vivos e de boa-saúde
Acho sempre extraordinária esta necessidade premente de deuses na vida das pessoas e é por estas e por outras que acho que a dimensão religiosa nunca será erradicada, é como se fosse algo intrínseco. Por muito que a ciência explique como é que o mundo funciona, há-de sempre haver alguém que prefere acreditar numa versão transcendente qualquer e vê mistérios, deuses, semi-deuses e milagres em todo o lado…
Mas acredita ó Héliocoptero, que respeito as tuas convicções e que me despertam o maior interesse. No meu caso, para além do que leio e estudo, tenho procurado experimentar tudo. Sem grandes resultados em abono da religiosidade (admito que seja bloqueio meu, ou coisa parecida).
Naturalmente que a experiência do catolicismo romano fracassou há muito tempo na minha vida, mas há cerca de um ano atrás participei, por exemplo, em vários encontros de natureza xamânica, ligados mais às tradições espirituais dos indigenas norte-americanos. Foi uma vivência interessante, com gente igualmente interessante, simpática e equilibrada, mas apesar dos rituais e da teoria continuei na mesma, desgraçadamente céptico…
E com a convicção cada vez mais enraizada de que não preciso de divindades nem de rituais para me sentir bem comigo próprio, com o mundo e com os outros. Mas não tenho nada contra quem precisa. Desde que, naturalmente…
João,
Disseste uma coisa que eu acho importantíssima:
“No meu caso, para além do que leio e estudo, tenho procurado experimentar tudo.”
Experimentar é essencial! A escolha de uma religião (ou de nenhuma), quando se quer fazer essa escolha, deve ser uma opção consciente, requer leitura, paciência e experimentação. Não sou adepto da ideia de que quando se tem uma religião deve-se tê-la até ao fim e que não se pode mudar duas, três ou quatro vezes. Deve-se mudar as vezes que for preciso até se encontrar o que se quer, seja uma religão, agnosticismo ou ateísmo, e não me choca até que diferentes fases da vida de uma mesma pessoa possam pedir diferentes “soluções” espirituais.
Aliás, considere-se o seguinte. Desde pequenos que nos perguntam o que é que queremos ser quando formos grandes, desde tenra idade que nos confrontam com a necessidade de escolher uma profissão e andamos nisto durante a adolescência até bem para lá da entrada na maioridade. E, no entanto, não é por isso que muitas pessoas deixam de mudar de agrupamento, curso, profissão ou estudar outra vez até darem com aquilo de que gostam. Se é assim com uma escolha que somos confrontados desde miúdos, porque é que não há-de ser igual com uma temática com a qual não somos livremente expostos desde pequenos? A maioria dos pais não estimula os seus filhos a escolherem a sua própria religião (ou nenhuma), o tema não é discutido à mesa, não se oferecem livros sobre o assunto nem em que é que querem acreditar quando forem grandes. Pelo contrário, o comum é herdar as crenças dos pais. É de espantar que quando alguém quer escolher de forma livre a aberta tenha que andar anos a ler, a pesquisar e a experimentar, mudando três, quatro ou cinco vezes?
Certo. Mas atenção que eu não ando desesperado (nem pouco mais ou menos) à procura de um caminho espiritual para a minha vida! Nem sequer sinto essa necessidade de transcendente. É mais por uma questão de curiosidade, vamos lá, de perceber como é, de ter uma opinião mais fundamentada. Tudo o que vier é enriquecimento.
Mas também levantas questões interessantes que agora não tenho tempo de atender. Já cá volto.
No meu caso também não ando à procura de novas espiritualidades, porque aquela que é a minha (agnosticismo-deísmo) me satisfaz perfeitamente, pelo menos nos tempos que correm e desde há muitos anos. Contudo, porque sou curioso por natureza e fascinado desde sempre por história em geral e história das religiões em particular, estou aberto a novas ideias não com o intuito de conversão, mas apenas com o objectivo de aprender e de me enriquecer enquanto ser humano.
Joaopc e Héliocoptero já ouviram falar no Imperador Juliano ?
Foi um adorador do Deus Sol em contraponto com o cristianismo triunfante de forma que ficou conhecido como Juliano o Apóstata.
Sotnas
Já eu cá sou mais da sensibilidade empirica. Mas para dizer a verdade às vezes até me faz espécie arvorar aqui neste blog tão assertivamente o meu agnosticismo. Qualquer dia tiro-lhe esse cunho vincado. Não gosto de rótulos, gosto de ideias e o meu agnosticismo é acima de tudo uma ideia de liberdade. Mas não deixa de ser surpreendente conhecer pessoas com ideias tão diversas: um neo-pagão e um agóstico-deista… Não quererás dizer teista?
Quanto ao Juliano, sim , já conhecia, e o nosso amigo Heliocóptero ainda deve conhecer melhor do que eu de certeza, dadas as inclinações. Figura muito interessante, sim senhor, só foi pena ter durado tão pouco tempo no poder…
O imperador Juliano é uma referência para mim, sim. Mesmo não me revendo nas noções teológicas dele e não tendo particular devoção pelo culto solar, vejo no denominado “Apóstata” alguém cuja tentativa de preservar a diversidade religiosa europeia merece que se honre a sua memória.
Pela piedade e craveira intelectual, foi um homem ao nível do imperador Marco Aurélio, mas infelizmente nasceu na época errada. Tivesse reinado tanto tempo quanto Constantino e a História era capaz de ter tomado um caminho diferente.
Incrível…joaopc. Os teus artigos revelam uma ignorância tremenda em todos os sentidos. Fazes mençao a uma certa “ignorância” no teu texto, mas a verdade é que tu a detens por completo. Ela faz parte de ti. (Recorda-me uma qualquer letra de música…:-)) Tu copias uns textos e fazes a tua interpretação. Ainda bem (ou mal) que te lembraste de te debruçar sobre o sentimento religioso porque se calhas a debruçar-te sobre medicina ou raio que o valha… onde andarias??! És o meu herói!!!!
Sem dúvida, Heliocópetro, a história teria sido bem diferente se o homem não tivesse ido meter o bedelho no Médio Oriente. Agora se teria sido melhor ou pior…
Em relação a este André também estou completamente agnóstico… Acertou numa, eu de facto copio uns textos e faço as minhas interpretações, é isso exactamente que aconselho toda a gente a fazer. Mas de resto não sei, é um mistério que aqui aterrou no blog. Se calhar é milagre. Há que investigar no seu dialecto: Então ignorante onde pá? Olha dá-me lá fáchavor um exemplo. É que se não desenvolves a tua tese, tu e que passa por imbecil pá, porque desse comentário não se extrai nada que se aprenda, que seja útil, que corrija, é um mero estado de espírito. E destrutivo, ainda por cima. Tás a ver não?
Bem, no seu curto reinado, Juliano demonstrou ser menos sanguinário, mais “racional” (no sentido em que recorria mais à argumentação e concorrência religiosa do que à perseguição aberta) e mais refinado que os seus antecessores, pagãos e cristãos. Era um imperador de elite, na melhor acepção do termo. Se se teria mantido assim num reinado tão longo quanto o de Constantino e o que sucederia após a sua morte tivesse o seu projecto resultado é, de facto, uma incógnita.
Certo certo, só mesmo o exemplo que ficou.
Não duvido nada que tivesse feito um reinado marcante e positivo, era realmente uma figura muito mais tolerante e esclarecida do que qualquer outro imperador ou regente cristão que se seguiu. Não posso esquecer, no entanto, o papel que, apesar de tudo que é muito e mau, o cristianismo, entretanto consolidado como instituição, teve após a derrocada do império romano do ocidente e a completa destruturação social, económica e cultural da Europa. Foi de facto a única instituição que se manteve e que manteve um fio de unidade com o passado. O facto é que com Juliano no poder algumas décadas, o mais certo era o cristianismo não ter passado do estatuto de seita das catacumbas… Seja como for, não passam de conjecturas sem utilidade. Foi como foi, paciência.