A propósito da actual guerra civil no Libano, lembrei-me de um livro que acabei de ler recentemente, “As Cruzadas vistas pelos Árabes”, de Amin Maalouf. O autor, curiosamente, é libanês, mas para o caso é mais ou menos secundário. Antes de mais, é um livro fascinante. Já há muito que na Europa os historiadores têm levantado o pano sobre a verdadeira natureza da “guerra santa” cristã no Médio Oriente, desmontando aos poucos muito do romantismo que durante séculos envolveu as Cruzadas e figuras duvidosas como o rei inglês Ricardo, chamado Coração de Leão. Até romances como “Baudolino”, de Umberto Eco (outra preciosidade), têm lançado uma luz mais objectiva acerca da selvajaria e do fanatismo que animavam os valorosos soldados de Cristo. Mas este livro tem o condão de apresentar ao Ocidente a perspectiva do “outro lado”, precisamente como o título indica.
Seja como for, em “As Cruzadas…”, Maalouf não faz nenhum relato emocional ou panfletário de denúncia das atrocidades levadas a cabo pelos Franj (designação genérica que os muçulmanos atribuíam aos invasores europeus) no Médio Oriente – mais ou menos dentro do triângulo Istambul, Bagdad e Cairo. Numa linguagem acessível ao comum dos leitores, a que não será alheio o facto do autor ter sido jornalista, Maalouf descreve antes com admirável distanciamento os acontecimentos naquela zona do mundo, mais ou menos entre os séculos XI e XIII, sem dúvida nenhuma a zona do mundo mais conturbada e massacrada da história da humanidade.
Ou seja, o livro não só expõe o carácter bárbaro e primário dos invasores cristãos (e, pelo meio, das ainda mais primárias e violentas hordas mongóis que nessa altura também se lembraram de invadir e arrasar o Médio Oriente vindos de Leste…), em contraponto com a sofisticação e o avanço da cultura árabe da altura, como grande parte se dedica a relatar a forma como essa sofisticada cultura islâmica passava a vida em guerras e massacres mútuos. À excepção de algumas curtas fases de unidade e estabilidade política, sob a regência de Saladino, por exemplo (que apesar disso passou grande parte da vida a combater outras cidades e facções locais), a maior parte do tempo foi passada realmente em lutas intestinas, de carácter político (poder e sucessão, basicamente) e territorial, entre emires, califas, reis, príncipes ou vizires em constante guerrilha; ou religioso (já então era profunda e sangrenta a divisão entre xiitas e sunitas).
É certo que toda a publicidade em torno da obra se centra mais na dicotomia entre os rústicos europeus e os civilizados árabes, no sentido expresso de “inverter o olhar” ocidental e questionar: “afinal quem eram os bárbaros?”. Nesse sentido é eficaz, sem dúvida, e os europeus saiem muito chamuscados na fotografia, mas também é um fresco fabuloso dos desenvolvimentos internos no mundo árabe.
O que é que isto tem a ver com a actual situação no Líbano. Porque não só nos lembra que a História tem tendência a repetir-se, com os judeus e encarnar os cruzados católicos da altura (na óptica dos árabes, enquanto “invasores”, especialmente invasores da “cidade santa” de Jerusalém) como naquela parte do mundo não tem feito outra coisa senão repetir-se… Parece uma tragédia existencial saída de um mito grego.
E o que é mais trágico é que, como o suplício de Sísifo, este também parece ser eterno. Sendo certo que hoje em dia a questão israelita evoluiu para outros patamares mais terrenos, também não é menos certo que o drama se eterniza porque tem uma natureza profundamente religiosa. É esse, o “Reino dos Céus”, ontem como hoje, o combustível principal dos conflitos que se mantém naquela zona, agora entre judeus (com “procuração” cristã) e árabes e como sempre entre xiitas e sunitas.
Reduzir a tragédia histórica do Médio Oriente a uma questão de território e recursos é um disparate que o livro de Maalouf ajuda a corrigir. Quando os líderes militares e governantes de ambas as partes são tolerantes e possuem real “sentido de Estado” (como o citado Saladino, por exemplo, ou alguns, poucos, chefes cruzados mais cultivados), quando esses, raros, líderes não se deixam conduzir pela religião mas pelo bem-estar das populações, a paz acontece e o território e os recursos são partilhados. Como aconteceu em plenas Cruzadas, por alguns, curtos mas significativos, períodos.
Saladino, crente fervoroso mas pragmático, nunca perdeu de vista a reconquista de Jerusalém, pelo seu simbolismo religioso, mas enquanto estadista proto-secular digamos assim, convivia perfeitamente com a presença de comunidades cristãs e europeias no Médio Oriente, com os Franj governando outras cidades e feudos nas franjas do seu império. Além disso era extremamente tolerante em relação à liberdade de culto. Este ambiente, como o que o reinado de Saladino proporcionou durante algumas décadas, favorecia por exemplo, alturas de maior prosperidade para todos, dado o incremento das trocas comerciais com o Ocidente e a livre e pacífica circulação de gente, ideias e costumes. E era assim que hoje poderia ser, se Deus não envenenasse o ambiente. Pois o facto é que quando os saladinos desapareciam, não faltavam sucessores fanatizados a reancender a chama mística e a fazer correr novamente o sangue. Como hoje.

