Há uns tempos discutia com uma pessoa das minhas relações acerca do Médio Oriente, quando este, à falta de melhor argumento, se saiu com a peregrina noção de que Israel não faz sentido e está ali a mais naquela zona porque “é um país com fronteiras artificiais”. O meu conhecido, está visto, é daqueles adeptos ferrenhos dos “palestinianos” para quem Israel constitui a encarnação da opressão e da violência contra os martirizados árabes (e não só, Arafat, essa “lenda” palestiniana era egípcio, por exemplo) que por ali habitam na Palestina, atitude muito típica de uma certa esquerda ocidental, amante de tudo o que cheire a “revolucionário”.
Dando de barato, por agora, a questão da “legitimidade histórica” da posse do território que é hoje Israel (qual é mais antiga, a presença árabe ou a presença hebraica?), esta ideia de “país artificial” persiste nas mentes de muita gente. Naturalmente que o meu conhecido, por sinal licenciado em História, não me conseguiu dar um único exemplo de “país natural”. Porque as fronteiras são riscos que as pessoas fazem em mapas. Artificiais são todos os países e Israel não é excepção. O que o torna excepção é a chamada “questão judaica”, enfim, a religião.
O processo de criação de nações, por outro lado, difere muito de caso para caso, mas regra geral é violento e compreende uma parte que perde e uma parte que ganha. É difícil se não impossível construir um país que satisfaça toda a gente. Alguns exemplos ao longo da história: A criação de Portugal aborreceu os árabes; a criação da Argélia chateou os franceses e a criação dos Estados Unidos deixou os índios pior que estragados.
No caso de Israel, sobrou para os árabes.
Ao jeito de declaração prévia de interesses, tenho a referir que tal como simpatizo com os americanos, também nutro uma grande simpatia e admiração pelo povo hebraico e pela sua história. Não tenho qualquer tipo de preconceito anti-semita e apesar de me fazer alguma confusão o conceito de “estado judaico” (não obstante ser um estado secular com liberdade religiosa, não deixa de ser um país fundado e agregado em torno de uma confissão religiosa específica), tenho como incontestável a legitimidade nacional israelita.
Os israelitas também. E ao contrário dos cruzados de há mil anos, os hebreus regressaram para ficar. Por um lado porque é ali que os descendentes das míticas 12 Tribos de Israel têm as suas raízes “genéticas”. Muito antes dos árabes, foi dali que os judeus foram dispersos em diáspora, derrotado e expulsos pelos Assírios, primeiro, e depois pelo famoso imperador da Babilónia Nabucodonosor (acontecimentos que se deram há cerca de 2500 anos atrás, mais coisa, menos coisa). Por outro lado, porque ao contrário dos cruzados de antigamente, os israelitas de agora não têm nenhum sítio para onde regressar se a empresa falhar… E é por isso, por entender a irreversibilidade do tal “estado judaico”, reconhecido por toda a comunidade internacional menos pelos fanáticos do Corão, que os líderes muçulmanos inteligentes já não questionam a vizinhança, tirando um ou outro “pormenor” territorial. Essa é portanto uma questão bizantina. Aliás, o facto é que se não fosse o factor religioso, Israel nem era uma questão.
O nascimento de Israel é uma história fascinante e, não obstante ter sido de facto precipitado pela II Guerra Mundial, tem contornos bem mais antigos e complexos. Pelo menos tão antigo quanto a referida diáspora, já que muitos judeus nunca desistiram da “utopia” de reunião e de reconstrução da nação israelita, cujas primeiras origens remontam ao século XI antes de Cristo (há mais de três mil anos), data das primeiras dinastias hebraicas. Nessa altura, já agora, Israel, tal como Portugal, foi construído mediante uma série de conquistas territoriais. Mas ao contrário de Portugal, os conquistados não eram árabes. Aliás, nem sequer eram semitas (origem cultural comum a árabes e judeus) e muito menos eram muçulmanos, doutrina na altura ainda por inventar. Chamavam-se Filisteus e foram um dos chamados Povos do Mar, de que conhecemos melhor talvez os Fenícios. E a trágica realidade é que a descendência dos fenícios e dos filisteus dissolveu-se completamente no tempo muito antes desta questão ser uma questão. O que une os actuais palestinianos, além do facto de habitarem na Palestina, como os jordanos ou os israelitas, é o facto de serem maioritariamente muçulmanos e maioritariamente de origem árabe, já que a Palestina nunca existiu como nação, como cultura ou como tradição.
Aliás, quem fez questão de baptizar o território como Palestina (em memória dos já então falecidos filisteus) foram os romanos, no que foram secundados por outro posterior poder imperial ocupante, o britânico já no século XX, que também designou a zona como Palestina. A ONU dividiu o território salomonicamente em 1947 entre árabes e judeus, mas os primeiros, como ainda hoje se percebe, não gostaram da ideia. Mas tal como os ingleses e muitos outros povos na história, os árabes estão na Palestina como povo ocupante. Antes deles estavam lá outros, e assim sucessivamente. Sem moralismos, é assim que é e que sempre foi naquela zona do mundo. E a “causa palestiniana” é uma ideologia muito recente. Daí ter muito pouca substância, a identidade nacional e cultural dos “palestinianos”, por muito que nos revolte a situação trágica daquela gente, que aos meus olhos, reconhecendo os abusos israelitas, não passa de uma população sequestrada pelos mesmos fanáticos religiosos, de seitas sinistras como o Hezbollah ou o Hamas, que não reconhecem o direito à existência da vizinhança judaica. Precisamente, por ser judaica.


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