Mais uma pérola Pessoal e Transmissível a merecer aqui transcrição parcial, com a devida vénia ao entrevistador Carlos Vaz Marques (CVM) e à TSF. Desta vez a conversa foi (ontem) com o casal de escritores e intelectuais norte-americanos Alvin e Heidi Toffler, autores de algumas das obras mais influentes do século XX como “A Terceira Vaga” ou “O choque do futuro”, que anteciparam conceitos como a sociedade do conhecimento e os novos paradigmas sociais e económicos decorrentes. A “terceira vaga” ainda está a começar, garantem, mas é inexorável. Meia-hora de conversa imperdível, de que fica aqui uma pequena amostra:
Alvin Toffler e a Europa – “O que me parece triste é ter havido uma Cimeira em Lisboa, há dez anos, uma Cimeira da União Europeia, onde aprovaram uma declaração dizendo “precisamos de…” não utilizaram a expressão terceira vaga, mas estavam a falar disso… precisamos de ter uma economia mais avançada, e por aí adiante, onde se comprometiam a criar, até2010, a mais competitiva, a mais avançada, a mais bem sucedida economia do mundo, querendo com isso dizer uma economia do conhecimento. Publicaram essa declaração chamando-lhe Documento de Lisboa. Um ano depois a UE publicou um relatório dizendo: “Infelizmente não fizemos grandes progressos no ano que passou, mas para o ano devemos fazê-los”. No ano seguinte saiu um relatório semelhante, “infelizmente não fizemos nada este ano, mas faremos certamente…”, ano após ano, o facto é que a Europa devia estar no pelotão da frente no desenvolvimento da “terceira vaga” mas tem estado na retaguarda comparativamente com outras zonas do mundo…
Heidi Toffler – … Penso que uma das razões para isso é o facto da Europa ser avessa ao risco. Muito disso tem a ver com o que são as vossas leis de falência, a América tem leis de falência muito pouco estritas, o que encoraja as pessoas a fazer qualquer coisa, e se falharem não têm de arcar com consequências sérias, não vão para a prisão, nem são penalizadas para o resto da vida, por terem assumido um risco e falhado. Na realidade, deparamo-nos com pessoas que depois de um fracasso, reaparecem mais capazes (…) Julgo que devido às monarquias na Europa, esta sempre teve uma maior consciência de classe, além disso a nobreza olhava para o comércio como algo de indesejável e por isso os empreendedores não são valorizados da mesma forma que o são na América. Temos aquele mito “vai para o Oeste, jovem, que encontrarás a tua oportunidade”. E julgo que, nesse aspecto, as leis da falência reflectem a diferença, portanto, somos (os norte-americanos) menos avessos ao risco, encorajamos a exploração e a inovação de uma forma que não existe entre os europeus»
Alvin – (…) Ainda não há um país da terceira vaga, mas podemos ver que há alguns países que estão a mover-se mais rapidamente que outros nessa direcção, a caminho de uma economia baseada no conhecimento. Acho que a Europa começa a levar agora a sério esta questão e acho que vai começar a mover-se mais nessa direcção. Parece-me que, uma vez mais, os asiáticos estão muito conscientes disto. Os chineses são muito explícitos a este respeito, falam disto, compreendem esta mudança que está a acontecer mas, repito, ainda ninguém completou esse processo. E uma das razões para isso é nós ainda não o termos concluído. Embora os estados Unidos o tenham iniciado, ainda não completaram o processo, de se tornarem um país da terceira vaga. E a parte mais difícil ainda está para vir. A parte mais fácil é a tecnologia, isso é o mais fácil, apesar de todas as dificuldades na mudança das empresas e das estruturas. O mais difícil vai ser mudar as instituições, os enquadramentos sociais… Não podemos ter avanços tecnológicos profundos ou grandes mudanças sem termos mudanças no sistema social ou no sistema político…
CVM – Dê-me um exemplo, para se perceber melhor, de uma forma mais concreta aquilo a que se está a referir…
Heidi Tofler – Burocracia!
Alvin – A resposta é que na Europa, nos estados Unidos e no resto do mundo, todos nós sabemos que numa sociedade industrial todos nós desenvolvemos magníficas burocracias, somos realmente bons nisso. Claro que houve um tempo em que a burocracia fazia sentido. Se estamos a criar um país industrializado, a burocracia é uma forma bastante eficiente de organizar uma empresa, ou uma agência governamental e por ai adiante, mas à medida em que isso começa a ser abandonado, em que se inicia o percurso a caminho de uma terceira vaga, baseada no conhecimento, que exige respostas muito mais rápidas, uma muito maior troca de informações, não apenas para cima e para baixo, hierarquicamente, mas para os lados, para cima, para baixo, para fora e por ai adiante, num sistema muito mais complexo, a consequência disso é que as nossas burocracias, no meu país e no seu país, na Europa ou na Ásia, as burocracias são obstáculos no caminho em direcção ao cumprimento das possibilidades da terceira vaga. Em consequência disso, acho que estamos a assistir ao desmoronamento da eficiência burocrática e das funções burocráticas. O pior exemplo disso é o que tivemos nos estados Unidos com o desastre do furacão Katrina, quando o governo nacional foi incapaz de lidar com o governo estadual, incapaz de lidar com o governo local e na realidade a burocracia responsável por salvar as pessoas, falhou por completo (…)»
Heidi – (…) Se pararmos para pensar, percebemos que a burocracia foi uma invenção social. Nós estamos habituados às invenções tecnológicas, mas não pensamos na quantidade de instituições que temos actualmente como invenções sociais. Alguém inventou o hospital, alguém inventou a escola…
Alvin – Todos estes arranjos (“arrangements”) foram invenções, na era industrial temos uma organização piramidal, com alguém no topo e toda uma série de pontos hierarquizados mais abaixo, era algo que fazia sentido. Agora vamos ter de alterar esta forma de organização e inventar outros tipos, uma maior diversidade de estruturas organizacionais, vamos ter de alterar o nosso sistema de educação, que na realidade é o pior de todos os exemplos possíveis em termos de obsolescência, os nossos sistemas educativos foram criados para preparar crianças rurais para trabalharem em fábricas. E as pessoas diziam nos EUA, quando houve um enorme debate sobre se deveríamos ter um sistema público de educação, os pobres diziam “não, não nos podemos dar ao luxo de que os nossos filhos não vão trabalhar nos campos, porque vamos morrer à fome”, e os ricos diziam, “não, mas é que eles não são eficientes quando chegam às fábricas, portanto, o que nós queremos é um sistema escolar que crie, e vou citar, isto é exactamente o que se diz, disciplina industrial”. O que isto significava é que se um miúdo que ia para os campos com a família, para os trabalhos agrícolas, chegava um pouco mais tarde, dez minutos atrasado, alguém poderia fazer o trabalho por ele, mas se alguém chega dez minutos atrasado à linha de montagem faz com que um milhar de operários fique paralisado, a coisa pára. Por isso era necessário ser pontual e é por isso que havia campainhas, relógio de ponto á entrada da fábrica, para demonstrar que era preciso estar lá a tempo. E toda a gente passou a usar relógio, o tempo tornou-se muito importante. O que aconteceu foi que construímos escolas para preparar as crianças para a vida futura e a vida futura que elas iam ter era trabalhar numa fábrica ou na burocracia. Isso, hoje, é prepará-los para ontem. Mas agora que temos este sistema, com milhões de professores por todo o mundo a ensinar que foram eles próprios criados neste tipo de educação, vamos enfrentar a crise de ter de inventar novos sistemas educativos que façam sentido para crianças que vão ter empregos avançados, para economias avançadas (…)

