Um dos argumentos mais imbecis contra o ateismo, ou mesmo contra a descrença religiosa em geral, prende-se com a alegação dos crimes cometidos “em nome do ateismo”. O que não é, definitivamente, a mesma coisa que crimes cometidos por ateus. Os ateus são pessoas iguais às outras e como tal também acontece por vezes fazerem o que não devem. Sendo certo que os crentes o fazem com muito mais frequência, como demonstra a enorme percentagem de gente religiosa hospedada em cadeias (em Portugal não conheço estatísticas dos credos da população prisional, mas é assim nos países em que as há). Mas o argumento usado, por exemplo por gente como o autor cristão norte-americano Dinesh de Souza, é o de que o ateismo não presta porque alguns dos maiores massacres da história foram cometidos em nome do ateismo e obviamente por ateus.
Gente como o cavalheiro citado refere imediatamente os casos de Estaline, Pol Pot, Mao e Hitler. Criaturas que deram mau nome ao século XX mas que não o fizeram, definitivamente, em nome do ateismo. Ao contrário da Inquisição ou das guerras santas, iniquidades motivadas directamente pela religião, os crimes daqueles senhores não foram motivados pelo ateismo. Quanto mais não seja, porque o ateismo não é nenhuma doutrina, é uma condição filosófica que não implica mais nada para além da descrença em deuses ou deusas. E antes que venha o velho argumento, sim, os ateus também são gente moral. Isto é, passível de comportamento moral. Ou imoral. Depende, tal como com qualquer crente que se preze. E o comportamento imoral daqueles cavalheiros do apocalipse deveu-se não a qualquer descrença em particular, mas em primeira análise a uma personalidade doentia (fruto, certamente, de infâncias mal passadas e ambientes familiares disfuncionais), e depois a ideologias políticas não menos doentias, mas alheias ao “ateismo”. Se aqueles quatro fossem portugueses e adeptos do Benfica, certamente ninguém se lembraria de dizer que os genocídios se deveram ao benfiquismo…
Adiante.
Seja como for, e sendo certo que acho não existirem dúvidas em relação aos três “comunistas” da lista negra (mesmo que Estaline tenha sido seminarista), já acho extremamente duvidoso e mesmo falacioso incluir Hitler no rol dos ateus… Pelo menos publicamente, pelo contrário, o homem (católico romano de cepa) nunca professou a descrença. Aliás, um dos grupos perseguidos pelo III Reich eram precisamente os ateus, que também eram deportados em massa para campos de concentração. Além disso, como explicar o apoio da Igreja Católica, sobretudo da filial alemã, ao Fuhrer, se este fosse apóstata?
Mas se dúvidas persistem, que tal este excerto a seguir citado, uma das várias intervenções de Hitler comprovando a sua simpatia pelo cristianismo?:
“My feelings as a Christian points me to my Lord and Savior as a fighter. It points me to the man who once in loneliness, surrounded by a few followers, recognized these Jews for what they were and summoned men to fight against them and who, God’s truth! was greatest not as a sufferer but as a fighter. In boundless love as a Christian and as a man I read through the passage which tells us how the Lord at last rose in His might and seized the scourge to drive out of the Temple the brood of vipers and adders. How terrific was His fight for the world against the Jewish poison. Today, after two thousand years, with deepest emotion I recognize more profoundly than ever before the fact that it was for this that He had to shed His blood upon the Cross. As a Christian I have no duty to allow myself to be cheated, but I have the duty to be a fighter for truth and justice… And if there is anything which could demonstrate that we are acting rightly it is the distress that daily grows.
For as a Christian I have also a duty to my own people.”
Adolf Hitler, num discurso a 12 de Abril de 1922 (Norman H. Baynes, ed. The Speeches of Adolf Hitler, April 1922-August 1939, Vol. 1 of 2, pp. 19-20, Oxford University Press, 1942)
Ateu?…



Primeiramente, parabéns pelo blog, é bastante interessante. O crente e o ateu tem a mesma origem segundo entendo. Ambos são pessoas que “sabem” alguma coisa, que conhecem a “realidade” de alguma coisa. O crente sabe que foi “Deus” que fez o mundo. E o ateu “sabe” que o mundo veio do nada. Nunca vi uma definição do que vem a ser nada. O mundo é existência. Mesmo uma ínfima partícula é algo. Mesmo a anti-matéria é existência. Então o que há é existência. E o nada é uma abstração, assim como pode ser Deus é uma abstração, se o indivíduo nunca teve uma experiência daquilo que considera “Deus”. A mente que não estiver presa a abstrações de nenhuma espécie, será dotada de uma energia que a impulsiona na busca da realidade sobre a existência. A vida são relações, sem relações não há vida. Então o que leva um ser “humano” à desumanidade, independente de ser “ateu” ou “religioso”? A palavra religioso, precisa ser desmitificada. Religioso, não é quem pertence a religião organizada, religioso segundo entendo é aquele que percebe a ligação existente entre as diversas formas de vida. O humano, não está separado de outro humano, o humano não está separado da natureza, da água e do ar. Então se em algum momento da vida, o ser humano se tornou egocêntrico, isto é separado do mundo, apegado a uma crença de origem religiosa ou científica, ser religioso é perceber a necessidade de comunhão e contato com a vida, com a totalidade da existência, perceber a necessidade da lucidez na ação, do pensar e sentir com profundidade, de forma a não causar dano à outro. O que leva alguém a violência gratuita contra outro ser humano? Não é o estar preso a idéias fixas sobre o que é? Não leva a violência pertencer a grupos organizados, que desejam moldar o mundo segundo uma ideologia? Segundo sinto, se naturalmente não sabemos…., está desperta a sensibilidade, somos cuidadosos, olhamos, observamos, buscamos justeza na ação, podemos ver a totalidade das implicações de nossos atos, então teremos clareza quando podemos ou não podemos cooperar com um processo coletivo. Então atos impensados surgem independente de crença. O ateísmo comunista, e os comunistas declaravam-se ateus, não foi complacente com seus contrários, e como sabemos usou da violência.
Um abraço,
Márcio.
Obrigado Márcio pelo feed-back. O seu comentário é um pouco confuso, mas vou tentar debater. Antes de mais, considero-me agnóstico. Mais próximo do ateismo, é certo, mas eventualmente mais aberto à dúvida e ao mundo da chamada espiritualidade. Experimento tudo e tiro as minhas conclusões, basicamente.
Seja como for, o seu raciocínio parte de um erro muito comum em relação a gente como eu, que não professa religiões (OK, como viu, não disse “gente não-religiosa”, pois compreendo a sua definição de religião, no seu sentido geral e não institucional que não é nova para mim). Voltando ao seu equívoco: Não conheço nenhum agnóstico, nem nenhum ateu, já agora, que “saiba” que o mundo veio do nada. Seria um absurdo. Um absurdo quase tão grande como alguém “saber” sem margem para dúvida que o mundo foi criado por este ou aquele deus em particular. O crente não sabe. O crente, quanto muito, intui, tem fé que assim seja. Acha que foi o seu deus que criou tudo isto. Mas a realidade é que não tem provas, nem tal é evidente. Pelo contrário, ainda é um grande mistério. Um mistério que a ciência (em projectos como o acelerador de partículas recentemente inaugurado na Suíssa) ainda continua a tentar desvendar.
Mas basicamente, os ateus e os agnósticos (como os crentes), simplesmente não sabem. E, regra geral, vivem muito confortavelmente com essa ignorância. E têm confiança que o conhecimento racional e a ciência, tal como fizeram, por exemplo, em relação à real posição do nosso planeta no cosmos (depois de milhares de anos de gente religiosa a “saber” que a Terra estava no centro do sistema solar e que tudo o resto, incluindo o sol, girava à nossa volta), hão-de eventualmente dar-nos respostas. Isto dito, fica um pouco sem sentido a sua argumentação em torno do nada e da existência. Está bem e ninguém discorda.
Mas o seu pensamento levanta outras questões interessantes. Desde logo, o Márcio tem uma concepção de religioso que é sua e que é simpática. Mas infelizmente a maior parte das pessoas religiosas vive a sua religiosidade de forma um pouco diferente. Vive a sua religiosidade enquanto membro de uma comunidade, enquanto seguidor de uma doutrina. Enquanto devoto de um dogma. E não enquanto parte de um todo universal ecológico e humanista. Seria bom que fosse assim, mas a realidade é diferente da nossa vontade. A realidade histórica e presente, é que as religiões (não eventualmente, até concedo isso, A Religião) significam separação. De facto, são um dos elementos mais divisivos da experiência humana. Separa-nos uns dos outros e separa-nos do mundo natural. Neste último aspecto não incluo as religiões animistas, por exemplo, que professam uma comunhão interessante com a natureza, mas penso imediatamente na tradição das três grandes religiões do Livro, homocêntricas, onde o homem tem um papel preponderante, dominador, em relação ao que o rodeia. A Bíblia, por exemplo, diz-nos que tudo o que é animal, mineral e vegetal à nossa volta foi aqui posto para nosso usufruto e dominação. E os animais não têm alma, como sabe, são criaturas “inferiores”…
A mesma dinâmica de separação pode ser constatada na forma como os crentes de determinada religião encaram os crentes de outras religiões. Basta atentar nas evangelizações forçadas do cristianismo ao longo de séculos, ou na forma como o islamista comum encara os crentes de outras religiões (a vida de um cristão na Arábia saudita, como sabe, não é nada fácil…).
Essa é, infelizmente, a realidade. Que é um “pouco” diferente da sua vontade/concepção abstracta e benigna do que é ser-se religioso, caro Márcio. Nessa definição até eu me encaixo. E não me tenho como religioso, apesar de admitir que possa estar enganado.
E nesse sentido, até acho que concordo consigo, quando questiona: «O que leva alguém a violência gratuita contra outro ser humano? Não é o estar preso a idéias fixas sobre o que é? Não leva a violência pertencer a grupos organizados, que desejam moldar o mundo segundo uma ideologia?». Sim.
Para terminar, apesar de não concordar que “atos impensados surgem independente da crença” (muitos casos de violência organizada surgiram e surgem precisamente POR CAUSA da crença), e de achar que o ateismo dos comunistas é marginal às consequências da sua doutrina ideológica, não entendo bem o que pretende dizer com este remate:
«Segundo sinto, se naturalmente não sabemos…., está desperta a sensibilidade, somos cuidadosos, olhamos, observamos, buscamos justeza na ação, podemos ver a totalidade das implicações de nossos atos, então teremos clareza quando podemos ou não podemos cooperar com um processo coletivo. Então atos impensados surgem independente de crença. O ateísmo comunista, e os comunistas declaravam-se ateus, não foi complacente com seus contrários, e como sabemos usou da violência»
De resto: Paz e Saúde!
Salve João,
Falando em atenção e cuidado, talvez não tenha lido o texto com profundidade, que ele merece, desculpe. A princípio, me pareceu uma defesa do ateísmo e uma simples crítica a religião organizada. Acho que a mente que não pertence a nem um grupo pode pensar com um grau de isenção, que não quer dizer insensibilidade. Então quando os seres humanos se organizam e criam uma religião ou uma ideologia, estão assim causando divisão, num mundo que embora seja uno, está dividido pelo nacionalismo e fronteiras, e “culturas” e raças. Também são divisoras as ideologias. Quando disse que ateístas sabem e religiosos sabem, coloquei sabem entre aspas, porque a compreensão da vida não pode ser conhecida e definida, pois a vida é movimento, então a compreensão da vida deve se dar em movimento constante também. Então ser ateísta ou outros istas, nos afastam daquilo que somos, seres humanos que necessitam pensar e sentir, e principalmente conviver humanamente. O problema humano, segundo sinto, é o identificar-se com algo “coletivo”, que nesse caso não é a humanidade, não é o planeta, mas uma divisão, uma parte do todo. Este desejar fazer parte de algo maior, fenômeno comum, inclusive em torcidas de times de futebol, ( só agora percebi, que você citou o Benfica) aqui no Brasil e creio que no mundo, surge muita pancadaria, há uma grande disposição para atos coletivos violentos, através do processo de identificação com o coletivo, representado por bandeiras e etc. Tudo isto passa pela necessidade de compreensão de nosso mundo interior, das influências que sofremos e que causamos.
Saudações,
Márcio.
Desde logo, não se enganou, o texto também é uma defesa do ateismo e também é uma crítica à religião organizada. Eventualmente simples, concedo, isto é um blog, não um ensaio. Mas não, de todo, uma defesa de qualquer “ismo”. Como você, também eu sou alérgico a “ismos”. No caso do futebol, por exemplo, adoro jogar e ver uma boa partida, mas não tenho qualquer simpatia clubistica. Também não sou nacionalista. Gosto do meu país por razões emocionais, mas acima de tudo gosto da vida e do mundo em geral, adoro a diversidade que nos rodeia.
É por isso que concordo consigo e partilho a sua visão de “mundo uno” e da sua defesa do auto-conhecimento, e que a minha defesa do ateismo neste caso particular é motivada não pela adesão emocional/irracional a um ismo, desde logo porque o ateismo não é nenhuma doutrina ou credo organizado, mas por uma necessidade de repor justiça em relação a uma crítica recorrente que visa um determinado grupo de pessoas, unidas apenas pela mesma mundivisão. Uma mundivisão que simplesmente não reclama deuses ou explicações sobre-naturais.
De resto, acho inevitáveis esses processos de identificação do indivíduo com algo maior. O homem, como a generalidade dos outros animais, é uma criatura social, precisa, em nome da sua sobrevivência, de uma incorporação num colectivo. A grande questão, que é óbvia, é a forma como se vive essa entrega, o grau de entrega a essa identificação colectiva. E a triste realidade é que essa entrega é muitas vezes desequilibrada e excessiva: incondicional e intolerante. Não aceita a diferença. Logo, é destrutiva. É por isso que o chamado “caminho do meio” do budismo, ou do taoismo, por exemplo, me parece tão atractivo.
Também gosto de jogar bola. Ultimamente jogava numa comunidade japonesa, onde eu era uma das exceções a nacionalidade. Era muito bacana. Todos na faixa dos 40 a 50 ou um pouco mais. Um time com camisa e outro sem e etc . Uma confraternização, salvo alguma outra pessoa, coisa administrável. Até que um dia resolveram “organizar”. Camisas para todos, medalhas, troféus e nomes para os times. Não é que virou uma guerra! Agora só jogo com a minha filha e faço questão de perder, mas continua sendo bom, porque a bola é um brinquedo vivo. Não considero inevitável o processo de identificação com algo maior, embora reconheça que somos produtos de algo maior, do mundo, da vida, da terra, de relações paternas, amigos, professores, da língua e etc. Nunca vi um ser humano se identificando com a vida, que bem observado, trata-se de total impessoalidade. A divisão do mundo visando segurança tribal, provoca um grande mal. Se o sujeito passa fome do outro lado do muro, em geral não se escuta. Então não estou próximo de nenhum grupo, ou melhor considero que todos somos a humanidade, e este é o nosso país e nossa família, e isto é ser verdadeiramente social, ser vulnerável, não estar entricheirado na defesa de uma posição fixa. É fácil falar, mas não é fácil praticar, pois é de ser tratado como louco, aquele que assim pensa. Mas penso que a natureza dará uma grande lição no homem, ou melhor já está dando. Poluição, aquecimento, epidemias são problemas globais, e cada vez mais ficará evidente, a necessidade de uma nova visão do mundo, e este é no meu entender o único papel da política, unificar a humanidade, planejar a vida globalmente. Todo o processo histórico da humanidade, é de uma desumanidade imensa, em função do veneno da identificação com criações do próprio homem. Todo país, toda bandeira, toda tribo, tem seu nascimento no tempo, são criações de uma mente que foge da compreensão de si, buscando segurança no grupo. Entendo ser um processo de perpetuação de si, um desejo do homem de não acabar, fruto do egocentrismo. Mas o planeta, a árvore, a vida, não é invenção do homem, é um acontecimento com o qual o humano, necessita conviver, sem criar divisões, para com elas se identificar, e a compreensão da finitude humana, da constante mudança do fluir da vida.
Abraço,
Márcio, gosto da sua forma de pensar. Em boa hora tropeçou neste blog. O processo de identificação é inevitável no sentido mais natural do conceito. O ser humano é, efectivamente, uma criatura social. Não somos como os ursos polares, animais mais solitários por natureza, somos mais como os nossos primos primatas nesse sentido. A realidade é que precisamos uns dos outros, precisamos de dinâmicas de cooperação, de grupo, por muito individualista que seja a nossa natureza pessoal.
Isto é uma coisa. Outra diferente são os grupos “não-naturais”, digamos assim, artificiais, que o homem foi inventando ao longo da história (religiões, nações, clubes, ideologias, associações, grémios, etc.), que são produtos culturais. Em meu entender há que distinguir entre estas duas realidades e no meu entender, na segunda realidade nem tudo é mau. Lembro-me por exemplo de colectivos de solidariedade, ou ambientalistas, com propósitos nobres. Instituições como o Greenpeace, a Oxfam, a Amnistia Internacional, Médicos sem Fronteiras, a Cruz Vermelha, etc, etc. São cada vez mais as ONG’s a agir e há cada vez mais gente a querer participar.
E o fato é que, apesar do seu pessimismo em relação à nossa espécie, há efectivamente muita gente que escuta quem está do outro lado do muro, não só escuta como tenta fazer a diferença: é solidário na acção. Cada vez mais gente, de resto, está desperta para ouvir e apoiar o outro menos afortunado.
As novas tecnologias de informação, sobretudo a internet, têm desempenhado um papel fenomenal e revolucionário no que respeita, por exemplo, à nossa percepção enquanto cidadãos do mundo, enquanto membros de uma grande comundade global e cada vez menos nacional ou tribal. E isso é bom. Vivemos tempos de espanto, meu amigo, admiráveis. Enfrentamos desafios e problemas enormes, é certo, mas também estamos cada vez mais apetrechados para os enfrentar. Nesse sentido sou um pouco mais optimista, porque também assisto ao despertar de uma nova consciência. Uma consciência global e cooperativa, um fenómeno nunca visto, fascinante. Acredito também que os nossos filhos e netos (se nada de muito grave acontecer entretanto, porque tudo isto é muito frágil…) terão muito mais e melhores condições para que essa nova visão do mundo aconteça.
A realidade, caro amigo Márcio, é que há cada vez mais gente a pensar (e a agir) como você. Muitas vezes é uma questão de olhar para o mundo com algum sentido de equilíbrio. Olhar para a história com objectividade, perceber o que fomos e onde chegámos – esse também é um processo de auto-conhecimento, não a nível individual, mas social. Isso e não nos rendermos à torrente de desgraça e violência que dominam os média e que nos impedem muitas vezes de reconhecer (e admirar) o outro lado do retrato. Há sempre um outro lado do retrato…
Há um video que passo a vida a aconselhar ás pessoas, porque acho que pode fazer a diferença no modo como olhamos para nós e para o mundo. Espero que entenda inglês. Porque vale a pena:
http://www.ted.com/index.php/talks/steven_pinker_on_the_myth_of_violence.html
Olá João, bom dia,
Não considero que haja pessimismo neste ver o mundo. Chamamos de processo cultural esta identificação, mas me pergunto se isto é uma real cultura(criação) ou isto é apenas um condicionamento psicológico? Somos seres “sociais”, entre aspas, pois há em nós uma grande dose de reserva, uma profunda divisão interior. Este ser social, baseia se numa mentalidade mercantil de relacionar-se quando há prazer e de afastar-se quando há dor. Mas a vida contém tudo. Não dá para escolher apenas o prazer. É necessário trabalho, é necessário doar-se, é necessário ceder a vez ao outro. Mas face a fragmentação da mente, desenvolvemos um processo cultural baseado num pensamento divisório, o meu pensamento, o teu pensamento, a minha família a tua família, teus costumes e os meus de cá, mas não enxergamos na profundidade do ser humano. Abaixo da pele, somos todos iguais. Temos necessidade absoluta de alimentos, abrigos e roupas. E essa luta por uma consciência verdadeiramente humana, não é de hoje. Jesus Cristo foi um exemplo disto, e alguns outros homens. Podemos alegar que ele não existiu, mas a mensagem dele existe e se lida sem a perversão da mente pela religião organizada, soa bem clara. Face a estas questões, necessitamos desenvolver mais uma idéia, a chamada tolerância. A tolerância seria algo desnecessário, se nossa mente não estivesse a dividir o mundo culturalmente, o gosto de um lado e de outro lado o não gosto. Será que isto é cultura ou é ausência de um pensar verdadeiramente criativo? A “religião” que engessa a mente, que coloca o homem em bitolas, realmente deve ser combatida, mas para isto é importante não criarmos um grupo novo dos ateístas, porque assim continuaríamos divididos. Reconheço que há pessoas de bem, pais dedicados, ongs maravilhosas, muito embora, pessoas que participam destes grupos, possam estar fazendo algo de bom, sem uma verdadeira reflexão, buscando um lugar no céu ou um sentido para a vida e não há porque condená-los. Uma nova consciência não tem pertecimento, é uma atitude, segundo sinto, livre. Livre de fronteiras, de simpatias e antipatias, vem da contemplação, da vida como ela é, uma dádiva, um acontecimento misterioso, e o ser humano livre, parece ser o único que pode botar ordem na casa, que está pegando fogo.
Um abraço,
Márcio.
Um “condicionamento psicológico” motivado pelo quê?
Mas sim, até posso concordar que somos seres sociais devido a uma visão utilitarista do outro. Porque nos convém, porque precisamos uns dos outros, enfim. Mas não é assim na natureza? Não é assim com os restantes animais? As hienas não andam em matilha porque lhes convém? Porque lhes é útil? Por muito inteligentes e criativos que sejamos enquanto espécie, por muito sofisticada que seja a nossa massa encefálica, continuamos a ser “apenas” mais uma peça na ecologia planetária e a vida é como é, não como achamos que devia ser.
Não aceitar esta realidade é que é, no meu entender, estarmos divorciados do “todo” vital que o Márcio fala. É evidente que as coisas não são assim tão simples, mas este é quanto a mim um bom ponto de partida. Como somos mais inteligentes e criativos que os restantes animais, desenvolvemos complexos sistemas morais, que visam condicionar a nossa natureza predadora e harmonizar a nossa vivência social, que também se foi tornando mais complexa á medida em que nos multiplicámos e urbanizámos. E também fomos desenvolvendo um profundo sentido de individualidade, do tal eu separado, sobretudo no chamado mundo ocidental e muito por obra e graça do cristianismo, que potenciando a herança grega clássica, colocou o indivíduo no centro de uma nova mundivisão, de uma nova e revolucionária teologia (ecce homo) que acabou por nos separar ainda mais do outro e no mundo natural. E esse é um dos principais legados do alegado Jesus Cristo… Por muito que nos seja simpática a visão humanista que o Márcio refere, o efeito a longo prazo foi o que se vê: o incremento do tal pensamento divisório.
A diferença entre nós, caro Márcio, é que tudo isto, incluindo as perversões das dinâmicas colectivas e individuais, me parece extremamente humano… Verdadeiramente humano. Mais ainda: exclusivamente humano! Mais humano não concebo. Podemos não gostar, o Márcio não gosta, mas, mais uma vez, as coisas são como são, e não como gostaríamos que fossem. E, face a isto, também não acho que sejamos todos iguais abaixo da pele. Não, pelo contrário, somos todos diferentes… Principalmente debaixo da pele. Ao nível da “pele”, sim, seremos todos iguais, temos todos as mesmas necessidades e paixões básicas, as mesmas sensações, medos e angústias. Mas lá por baixo, meu amigo, cada um de nós é uma jóia rara, irrepetível, exclusiva. E para dizer a verdade, gosto dessa diversidade. E ser contra isto é mais ou menos tão irrealista como ser contra a globalização. Que é mais ou menos o mesmo que ser contra o vento, ou contra a chuva… São factos da vida e, em lugar de nos amargurarmos com tudo isto, temos de saber viver com eles da melhor forma. Da forma mais construtiva e pacífica. E é aí que entra a tolerância, que é um dos tais conceitos morais que a nossa espécie tem vindo a desenvolver no sentido da harmonia social. Poderia ser desnecessária,sim, se… se vívessemos no paraíso na terra tal como o Márcio o concebe. Mas infelizmente (ou não…) não é assim e valores como a tolerância são, sim, necessários. Assim como é necessário aprofundá-los e divulgá-los ainda mais.
Seja como for, em relação aos ateistas ou aos crentes, são outras questões inevitáveis. As pessoas têm todas opiniões diferentes sobre o mundo e a vida. É da vida… A verdadeira questão, quando confrontados com a aceitação dessa realidade incontornável, são as diferenças na forma como se vive uma ou outra mundivisão. Desde logo, com mais ou menos tolerância. E, já agora, o “grupo” dos ateistas não é novo, já é muito antigo, tem séculos.
Quanto à sua perspectiva em relação a quem participa em ONG’s, ou a quem age de forma solidária não-organizada, espontânea, não posso concordar. O Márcio está a fazer uma leitura amargurada e, sim, pessimista, infundamentada acerca das motivações dos outros. A generalizar sem sustentação, a tomar a floresta pela árvore, a ser injusto e até paternalista (“não há porque condená-los”, coitadinhos…). Quem lhe garante a si que as pessoas que participam nesses grupos o fazem sem uma “verdadeira reflexão”? Que autoridade tem para proclamar que a maioria dessas pessoas não o faz de forma livre e descomprometida? O que o leva a ser tão negativo em relação à generosidade humana e tão assertivo da sua “verdade”?
Ah, e a “casa está pegando fogo” há milhares de anos… Aliás todas as gerações desde há milénios que lamentam a degradação e a violência da sua respectiva época. Todos os tempos são sempre os piores dos tempos. E constato que ainda não viu o vídeo.
Infelizmente, não vi o vídeo, não falo inglês, mas guardei o endereço, posso pedir ao meu filho que o traduza para mim, se for fazê-lo vou demorar muito.
Isso que vemos como demasiadamente humano, extremamente humano como diria Nietzche, é apenas nossa natureza animal. Ser humano, segundo sinto é transcender qualquer noção de coisa natural, é inclusive transcender a natureza animal, territorialista, interiorizada, psicológica. As coisas mudam. Quando dizemos que as coisas são como são, devemos observar que elas mudam, as coisas são mutantes, até as pedras. Então, muito do condicionamento existente, necessariamente deve deixar de existir antes que seja tarde. Mas, face as grandes mudanças, face a necessidade premente de relação inteligente, não só entre homem e homem, mas entre o homem e a natureza, voce há de convir, que há muito deixamos de ser inteligentes, para tornarnos, lobos de nós mesmos, nossos próprios destruidores. Há inteligência em se auto destruir? Sinto que em algum momento, nos condicionamos de forma a romper uma cadeia evolutiva, através do próprio pensamento humano, e assim deixamos de ser inteligentes, tornando-nos fragmentários. Fixamos uma coisa chamada “eu”, e a endeusamos, tornamos coisa distinta. Esta consciência separada do todo, tornou-se nosso problema. Não existe um eu separado de relações, segundo entendo. João, assim como o resto da humanidade, só existem em relação, então coletivo e indivíduo, são uma única coisa. Na percepção da vida como um estado de relações, inclusive gerador do eu, surge um indivíduo, que não é individualista, este indivíduo, não está dividido, separado do todo. Que seria o Márcio sem relações, nada. Então esta minha separação do todo tem uma função de organização, uma função social. O Márcio mora na casa dele, não na casa do João. Mas o “eu”, nós bem observamos, constitui a “parte” mais importante da sociedade. Os grandes líderes, os grandes causadores de guerras, não são religiosos ou ateus, são apenas, seres egocêntricos, que sabidamente, consideram-se separados do todo, e que desejam uma perpetuação de seu nome, sua história, sua megalomania, e colocam, como animais, sua busca de prazer, acima de qualquer lampejo de real humanidade. Toda liderança, já pressupõe, no meu entendimento, semente de corrupção e de desigualdade. É uma visão utópica? Eu acho que não. Acho que é a visão da vida, como ela realmente é. Uma teia de relações, onde não há necessidade de eu me separar do todo, há a necessidade de compreensão de que eu também sou o todo, que eu crio o todo, através de meu modo de relação. Assim, surge um verdadeiro pensar. Para verdadeiramente pensar, a mente não está presa a simpatias ou antipatias, mas está acompanhando o movimento, dela mesma, pois ela também é viva, mudando, mudando, mudando…., nunca sabe, pois todo saber é fixo, é um ponto de partida. Mas aonde está o ponto de partida da vida? A vida é o presente, este instante. Necessitamos de um novo homem a cada momento, e verdadeiramente o somos, apenas não percebemos.
Um abraço do tamanho do mundo que é você,
Olá Márcio,
Obrigado por esta conversa interessante. Sim, naturalmente, que tudo muda é uma evidência indiscutível. Aceitar esse estado de permanente impermanência é sinal de sabedoria e nem toda a gente o faz. Muito bem.
Não sei se concordo muito com a asserção da transcendência do que é ser-se humano, mas sei que também é importante aceitar a nossa natureza animal. Aceitar isso é aceitar que, realmente, fazemos parte de algo maior. Esse algo maior é a natureza, e não qualquer abstração religiosa ou metafísica. Esse algo maior, em suma, quanto a mim, não é Deus, é o cosmos, é o meio ambiente. Essa percepção é o primeiro passo fundamental para melhor respeitarmos e preservarmos o que nos rodeia. Enquanto acreditarmos que fazemos parte de algo maior que a natureza (algo de natureza religiosa), muito difícil será vivermos em harmonia com a realidade circundante. Não digo que o Márcio pense assim, mas milhões de pessoas fazem-no sem dúvida e vivem separadas da sua natureza animal, natural. O que se reflecte negativamente na sua relação com o ecosistema que os sustenta.
Seja como for, e apesar de não perceber ainda muito bem de que “condicionamentos” é que o Márcio fala, também sei que há coisas que mudam mais depressa do que outras. O facto de o homem ser o lobo do homem não é um “fenómeno” novo. Mais uma vez: Objectividade histórica! A verdade é que o homem sempre foi o lobo do homem. Em civilização ou não. Até os simpáticos e românticos indios ianomanis se guerreiam desde tempos imemoriais. Em guerras menos destrutivas simplesmente porque é gente menos dotada tecnologicamente e menos dotada em termos demográficos. Não nos tornámos assim, nem deixámos de ser inteligentes: somos assim há milénios. A diferença (além do mediatismo que amplia os acontecimentos) é que hoje somos mais de seis biliões e temos uma capacidade tecnológica, incluindo destrutiva, muito maior. Mais uma vez, por muito que tudo mude ou que não gostemos, as coisas são como são.
Não, também não vejo grande inteligência num acto de auto-destruição. E acho que o Márcio ainda não entendeu a minha forma de ver as coisas. Em relação a muito do que já falámos, não estou a tomar partido, não é que não tenha paixões e opiniões, não sou nenhum robot, mas tento ter uma perspectiva distanciada e fria do que É. E acho que essa procura de objectividade desapaixonada é um bom ponto de partida para uma visão e acção mais equilibradas. E já procurei explicar em poucas palavras o processo histórico e antropológico da fragmentação do eu. Que só é “coisa distinta” se não soubermos ter uma relação equilibrada e lúcida com o que nos rodeia – uma relação não-endeusada. E isso significa aceitarmos que, apesar de sermos “eus” unos e exclusivos e maravilhosos na nossa individualidade, não passamos de animais, pensantes mas animais, tão parte da natureza quanto um caracol ou uma margarida. Aceitar que não somos filhos diletos de nenhuma divindade. Mas chegados neste ponto, parece-me que estamos realmente a alar da mesma coisa e concordamos no essencial. Como também já procurei explicar, “não existe um eu separado de relações”. É certo, as relações são parte integrante do ser humano, ser social. O que acho, por outro lado, é que ser-se individualista é negativo se esse individualismo for egoista. E nem sempre o é. Depende. Além da mudança há outra lei incómoda e incontornável da vida: é tudo relativo – o que não significa, obviamente, que devemos viver a nossa vida segundo esse princípio, naturalmente, por isso é que temos princípios e valores éticos e morais, que nos impedem, por exemplo, de achar que ser cruel para uma criança é aceitável em determinadas circunstâncias.
Já não concordo muito, por outro lado, com a sua definição dos “grandes líderes” (todos? ou só os ditadores?). Não tenho tanta certeza que sejam “apenas seres egocêntricos”, cada caso é um caso. Mas definitivamente, não concordo nada com a frase «colocam, como animais, sua busca de prazer, acima de qualquer lampejo de real humanidade». Então o Márcio acha mesmo que os animais buscam o prazer acima de todas as coisas??!! Querido amigo, aconselho-o rapidamente a ver uma qualquer colecção de documentários da National Geographic sobre o reino animal…
Além disso, o que o Márcio chama de “real humanidade” não passa da SUA concepção de “humanidade”. Não é “real”, é sua definição subjectiva, e sem dúvida nobre, do que é ser “humano”; e esse é um debate filosófico que já tem barbas e, esperemos!, há-de continuar a aprofundar-se. Porque o ser “humano”, a noção do que é “humanista”, também é algo que muda. E também é algo relativo.
Também discordo com veemência que toda a liderança pressuponha “semente de corrupção e desigualdade”. Outra noção que não é real, mas sim subjectiva. Não é o que É, muito menos uma utopia (uma utopia é a idealização de um mundo melhor, não uma noção errónea), é a sua visão pessimista acerca dos líderes. Uma visão que nem eu nem muita gente partilha. Bem sei que a América do Sul não tem tido uma história muito feliz com os seus líderes, mas pelo menos na Europa temos tido mais “sorte”, pelo menos desde há umas dezenas de anos para cá, e as nossas democracias têm produzido algumas lideranças de razoável qualidade. Mas concedo, uma visão utópica será, de facto, um mundo sem líderes. Chama-se anarquismo e não acho que seja uma solução muito sensata, dada a nossa humanidade complexa e dualista. E atenção, Humanidade não é Humanismo. Humanidade é tudo o que é humano e tudo o que é humano é tudo o que os seres humanos fazem, de mau ou de bom. O egoismo e a generosidade são, de igual forma, manifestações de humanidade. Humanidade não é o nosso ideal pessoal do que é “verdadeiro”. Ou mesmo justo ou correcto. Aí é que entramos no domínio da palavra humanismo, que é um ideal (uma abstracção, uma construção da nossa mente e da nossa cultura), nobre e fundamentalmente humano, é certo, mas que não é uma constante natural do que é ser “humano”. Seria bom que todos fossemos humanistas, mas essa é a nossa vontade enquanto pessoas de bem, não é parte inalienável e biológica da nossa “humanidade”. É uma construção da nossa mente e da nossa experiência histórica social, como a moral ou a ética. Humanidade é o que realmente somos, inteiros, criaturas complexas com capacidade para o melhor e para o pior.
Mas, apesar de dar extrema importância ao passado e ao futuro porque são eles que nos dão as coordenadas para um presente mais frutífero e verdadeiro, concordo em absoluto que a vida é sobretudo o presente, este instante. Também é assim que procuro viver, valorizando isso e aceitando essa dinâmica de constante mudança.
Quanto ao video, não se preocupe, é muito interessante mas não é fundamental. Mostra apenas como, ao contrário da opinião geral, não vivemos agora nos tempos mais violentos de sempre. Pelo contrário. Mas isso são contas de outro rosário…
Olá João,
Nossa conversa se alonga. Mas acho que podemos apreender mais observando a vida, nossas relações, nosso corpo, uma partida de futebol, nossa conversa, o transito, do que lendo filosofias distantes. Quando falo de condicionamento humano, falo de nosso pensar.
1) Nosso pensar está condicionado por um conceito de oposição. Em geral, citamos: O negativo e o positivo, forças energéticas, ou o calor e o frio, ou o dia e a noite, o claro e o escuro, o sol e a chuva e etc. Se bem observado, não há oposição nisto. O negativo e o positivo, convivem juntos, possibilitam movimento. O calor e o frio, são apenas estados diferentes da temperatura, não há oposição, assim como o dia e a noite, o sol e a chuva, são seres complementares que possibilitam a existência da vida, como são a própria vida. Só que se observarmos, por pensarmos com base em opostos, isto se transporta para nossas relações, surge assim: Capitalistas e os anti-capitalistas, comunistas e os anti, os crentes e os ateus, os nazi e os anti, e por ai vai. O que acontece se não pensamos em termos de oposição? Isto não quer dizer que não vamos combater a possíveis injustiças, uma mente que não é partidária, não cria grupos, não obedece condicionamentos, está atenta. O homem é lobo do homem faz tempo, porque raciocina desta forma, mesmo os simpáticos ianomanis, tem sua linguagem e sua hierarquia, seus territórios. Mas acho que através desse “raciocínio”, dividimos a humanidade em raças, negra, branca e etc. Assim temos uma mente que tem medo de não criar antagonismos, não concebe o que é uma mente livre de antagonismo, a única que pode superar o condicionamento tribal, aquela que pode questionar o próprio pensamento.
2) O pensamento está condicionado a nomear. Para tudo damos um nome, com o objetivo de comunicar-nos, mas a palavra, se torna mais importante do que a coisa em si. E as palavras estão contaminadas por uma visão pessoal. Veja a palavra amor. A palavra amor, pode significar: sexo, paternidade, patriotismo, deus e etc. A palavra deus, então, nem se fala. A palavra árvore, por exemplo, não causa muito problema, porque a ela não temos apego psicológico, emocional. Mas, veja o que acontece quando o sujeito fala: Portugal, Brasil, Benfica, meu Jesus, meu partido, meu pais, minha bandeira e etc. Se meu país entrar em guerra, pouco me importa se está certo ou errado, não é assim que se raciocina? Mas o processo de nomear, merece mais aprofundamento. O que acontece quando observo as coisas sem dar nome? Você já tentou? Observe, o que ocorre com seu pensar, quando você observa uma pessoa, uma árvore, ou a totalidade da vida, sem estar nomeando, classificando. Isso no meu sentir não significa inatividade ou tornar-se anti-grupos, ou subserviente a qualquer ideologia, significa um estado de alerta natural, não imposto por nenhuma autoridade externa, ou interior, significa integração ou meditação, mas não é fácil.
3) O pensamento também está condicionado para acumulação. Acreditamos que quanto mais cultura e mais leitura, mas capazes seremos, o que no meu sentir é também um engano. Observando a história, vemos que barbaridades, assassínios, são cometidos por pessoas incultas e por pessoas eruditas. Os nazistas não eram incultos. Então apenas cultura e conhecimento não traz sensibilidade. Quanto mais acumulamos, quanto mais nos intelectualizamos, menos sentimos. E um dos fatores de desumanização, de perda da sensibilidade é o sentimento e pensamento, separados. Sentimento e não sentimentalismo, ou emocionalismo.
Quando nos condicionamos e dizemos que há inteligência, penso que nos enganamos. Na verdade, nos condicionamos por aceitar autoridade de pensamentos científicos ou religiosos. A ciência nos traz muito progresso material e conforto, mas no campo das relações humanas, nós temos que ser os cientistas, os “filósofos” no sentido de investigadores de nós próprios. E o conhecimento científico tem suas limitações. Ao olharmos a água por exemplo = H2O, há nisso uma explicação para o ser água? Aceitamos teorias sobre a criação do universo como verdades conclusas, mas o mistério é sempre maior, então usemos o conhecimento científico para nosso conforto, mas não façamos dele um deus, tomemos consciência de nosso real não sei.
Sim, podemos aprender com tudo isso. Apenas acrescentaria que podemos aprender com tudo, em geral e em particular… incluindo filosofias “distantes”. Tudo é aprendizagem. E aprender com Sócrates ou Kant nunca é uma experiência distante, é sempre uma experiência pessoal e enriquecedora. Um livro é sempre um amigo íntimo.
E que seja longa, a conversa, não importa, enquanto vivermos temos todo o tempo do mundo…
Simpatizo com o seu argumento do pensamento condicionado pelo conceito de oposição. Na maior parte das vezes é verdade que isso acontece, a maior parte das pessoas age realmente com essa matriz em mente, que também passa pela não aceitação da diferença. Aliás, uma das razões porque não me reclamo ateu, além da repulsa pelos “ismos”, tem a ver com a conotação (não obstante errada) que o termo assumiu enquanto oposição ao mundo da crença religiosa. Não sou anti-religioso, não tenho qualquer problema com a espiritualidade alheia, o meu problema é mais com o fanatismo, o radicalismo, e outros ismos daninhos que tais. O agnosticismo é um rótulo mais neutro, que me permite maior liberdade para dizer “não sei”. Seja como for, também não dou assim tanta importância aos rótulos e, na verdade, não interessa, é só um ismo vazio. Como para o Márcio, também o meu ideal é “uma mente livre de antagonismos”.
Também concordo com tudo o que diz no ponto 2. E também sei que não é fácil, por experiência própria, pela prática e aprendizagem de meditação (Zazen, no caso), por uma procura activa dessa postura de vida. Esse é, quanto a mim, o caminho da verdadeira liberdade, a liberdade interior independente de qualquer autoridade externa.
A cultura, o conhecimento, a leitura, dão-me prazer, e não só. Compreendo o ponto de vista segundo qual não fornecem verdadeira sabedoria, mas a mim não me tem feito mal nenhum. Seja como for, e aceitando como óbvio que pessoas inteligentes e cultas são tão capazes de atrocidades, é também óbvio que não é uma porta de entrada automática no mundo do esclarecimento e de uma vida preenchida e pacífica, mas a ignorância é infinitamente pior. O problema, mais uma vez, não é a acumulação de conhecimento, é a forma como o utilizamos (ou não), com mais ou menos humildade, com mais ou menos tolerância. Como tudo, depende. E não acredito nem aceito que «Quanto mais acumulamos, quanto mais nos intelectualizamos, menos sentimos». É evidente que não, amigo Márcio. Éevidente para mim, aliás, que nem sequer há uma relação de causa e efeito entre as duas coisas. Assim como não temos de ser ignorantes para “sentir”, também um intelecto bem nutrido não é condição para a ausência de sentimento. Isso é um absurdo. Tão absurdo que também sei, por experiência própria e de gente que conheço, que muitas vezes essa consciência que o Márcio sabiamente proclama, só se alcança depois de muita leitura… Leitura essa que conduz, idealmente, a um processo de auto-conhecimento mais profundo.
O Márcio também falha, em meu entender, na sua apreciação da ciência. Talvez por falta de leitura. A ciência é muito mais humilde do que isso, meu caro… Um exemplo: Ninguém, sobretudo os cientistas dessa área, físicos ou astrónomos, aceita «teorias sobre a criação do universo como verdades conclusas». Isso revela um desconhecimento flagrante do que é a ciência. Na ciência não há “verdades conclusas”, esse é um domínio da religião. Nem a ciência procura explicar o que é o “ser água”. O domínio da ciência é, efectivamente, o do H2O, da química, das moléculas e dos átomos, da composição da matéria. O resto é para a filosofia ou para a teologia. E só os idiotas fazem da ciência um deus. Não conheço nenhum cientista que o faça. Um cientista é por definição, um livre-pensador, um homem (ou mulher) aberto à dúvida e à interrogação, alguém que rejeita argumentos de autoridade. E quando diz que nos condicionamos por aceitar a autoridade de pensamentos científicos ou religiosos, não sei, depende. Eu não faço isso e muita gente que conheço e leio não o faz. A ciência dá-nos pistas para entender melhor a realidade, formula teorias de acordo com as evidências do seu tempo, é um processo em constante aperfeiçoamento, uma disciplina em permanente auto-questionamento, não nos dá verdades indiscutíveis. Isso, mais uma vez, pertence ao reino das religiões e das ideologias. Eu, por mim, há muito que tenho plena consciência do “nosso real não sei”. Dai o nome do blog…
Sim, Sócrates é admirável, e sua filosofia não é distante, é presente. E não pertence a ninguém, pertence a própria vida, toda verdade não tem dono, pois Sócrates é fruto de relações, apreendeu das relações da vida, e não fora a existência de Platão, provavelmente nada saberíamos a seu respeito. O nome do teu blog é bem escolhido, parabéns, acrescentei nos favoritos e sou leitor. Quanto a cultura e conhecimento darem prazer é coisa pessoal. A palavra cultura tem muitas conotações. Há algumas culturas que causam aversão, são machistas, separatistas, religiosas, fanáticas e etc., são tradições, pontos fixos. Há culturas as quais temos apego, achamos bonitas, e se tem beleza, tem arte, são necessárias pois a vida é beleza. E há a cultura, ou melhor, há criação quando estamos atentos e não apegados, somos então questionadores do que chamamos cultura, do que chamamos ciência e do pensar enquanto atividade cerebral.
Um grande abraço,
Em tempo…..
Quando faço uma crítica ao pensamento que endeusa a ciência, não é o pensamento do João. Realmente há muitas publicações e infelizmente ou felizmente, não tenho tempo para conhecer tudo a respeito, e ninguém tem, porque são tantas e de qualidade discutível, que um cidadão comum que tem que dar duro e trabalhar, não teria tempo disponível para tanta leitura, por prazer ou curiosiade científica. A ciência, tem se prestado a busca de lucro, pois a ciência, o conhecimento científico, obedece a interesses “humanos” ou melhor, custa caro, infelizmente, e os interesses financeiros, tem ambição política ou pessoal, conceitos religiosos, esquizofrenia, pedofilia e genocídios e etc. O terceiro reich, havia muitos cientistas. Então isentar a ciência, o conhecimento feito por um homem condicionado, é querer fazer um bolo, com ovos, farinha, açúcar, por para assar e depois retirar a farinha. Estive poucas vezes dentro de laboratórios. Observei pessoas apegadas ao poder, nas igrejas e também em empresas de cunho científico, ninguém está isento do tal egocentrismo, a não ser quando vemos o perigo de não se auto-conhecer, de relacionar-se com base em conhecimento, e não na atenção livre de preferências.
Caro Márcio, além do mais é um homem tolerante, encaixa bem a minha impertinência e as minhas provocações, o que é admirável e raro. Parabéns.
Em relação à primeira parte não há muito a acrescentar. Também acho que há Cultura e culturas e que o prazer do conhecimento é algo de pessoal. Adiante.
Eu percebi que não era o meu pensamento que era criticado. E quando disse, em jeito de provocação, que faltava ai alguma leitura não era no sentido em que o Márcio creio que percebeu. A Ciência não é algo feito por um homem condicionado. Pode ser ou pode não ser, mais uma vez, depende. Os cientistas são pessoas como as outras e, naturalmente, nem todos são gente equilibrada ou com sentido ético apurado. Mas uma coisa são os cientistas, outra coisa diferente é a ciência, ou melhor, o princípio ou o processo científico. Da mesma forma, temos por exemplo o cristianismo ou o marxismo, duas doutrinas com muito de louvável e admirável, e temos em paralelo duas coisas bem diferentes: os cristãos e os marxistas. São esferas bem diferentes. Uma é o princípio, outra é a concretização do princípio, a forma como a ideia é posta em prática. O que eu admiro na Ciência é sobretudo o princípio, a ideia subjacente.
A definição do que é a Ciência não é um tema pacífico mesmo entre os cientistas, mas o Dicionário Aurélio tem uma significado básico aceitável, creio eu: «Conhecimento. Saber que se adquire pela leitura e meditação; instrução, erudição, sabedoria. Conjunto organizado de conhecimentos relativos a um determinado objeto, especialmente os obtidos mediante a observação, a experiência dos fatos e um método próprio. Soma de conhecimentos práticos que servem a um determinado fim. A soma dos conhecimentos humanos considerados em conjunto. Processo pelo qual o homem se relaciona com a natureza visando à dominação dela em seu próprio benefício. Atualmente este processo se configura na determinação segundo um método e na expressão em linguagem matemática de leis em que se podem ordenar os fenômenos naturais, do que resulta a possibilidade de, com rigor, classificá-los e controlá-los.».
Aliás, lendo bem até nem concordo inteiramente com a definição do amigo Aurélio mas isto, muito sucintamente, pode dar uma ideia aproximada do que significa Ciência. E o que é mais admirável é que, ao contrário do cristianismo ou do marxismo, que reclamam adesão incondicional e inquestionável, a via científica reclama acima de tudo espírito crítico, livre pensamento e dúvida metódica, que são igualmente três dos pilares da minha filosofia de vida. Em contraponto à abordagem religiosa ou ideológica, que é dogmática, a abordagem científica é livre e aberta, está em constante refinamento e auto-questionamento, não se acomoda a uma verdade. Era neste sentido que me referia à ciência.
Seja como for, também não é, de todo, correcto afirmar que «A ciência, tem se prestado a busca de lucro, pois a ciência, o conhecimento científico, obedece a interesses “humanos” ou melhor, custa caro, infelizmente, e os interesses financeiros, tem ambição política ou pessoal, conceitos religiosos, esquizofrenia, pedofilia e genocídios e etc. O terceiro reich, havia muitos cientistas.»
É um raciocínio um pouco confuso (nem consigo imaginar onde é que a pedofilia encaixa no meio disto tudo, mas enfim), mas creio perceber o essencial. E não é justo nem correcto. Se é por exemplo certo que muitos avanços científicos, sobretudo, por exemplo, na área farmacêutica ou da medicina, são motivados pelo lucro (o que não é necessariamente mau…), e homens extraordinários como Edison (cientista/inventor, mas sobretudo um empresário engenhoso) são disso exemplo, não é menos certo que outras tantas conquistas científicas, ou até a generalidade, têm motivações eventualmente mais nobres, digamos assim, e homens como Da Vinci, Newton, Einstein, Darwin, Bohr, Planck, Sagan, Hawking, Tesla, etc. e etc., ou os milhares de cientistas que trabalham sobretudo na esfera académica, nas universidades ou em instituições estatais, por exemplo, não visam ou visaram, definitivamente, interesses financeiros ou políticos.
Tal como nem todos os crentes são fanáticos, nem todos os cientistas são mercenários. Pensar de outra forma, como o Márcio insinua, é tomar a árvore pela floresta.
Salve João,
Vou considerar nossa conversa encerrada. Nem todo crente é fanático, nem todo ateu é simpático, nem todo cientista é cético e por ai vai. O rótulo é sempre limitante. O fato é que estamos numa sociedade corrupta e a ciência, infelizmente tem se prestado mais a busca de lucro do que a resolver problemas humanos globais. Há neste momento, na órbita terrestre mais de 15 mil corpos metálicos que podem cair a qualquer momento, graças à “Deus” eles não caem, apesar de que um dia desses caiu um aqui numa área rural, mas o bom é que ninguém ficou ferido. Há também fome e poluição e etc., mas isto não é problema para urgente para cientistas, mais importante é descobriu uma vacina e depois registrar a patente da mesma. Eu tenho pouco acesso a ciência de laboratório e não consigo acompanhar a evolução da ciência como você concebe, estou mais na observação de um cidadão bem comum, bem distante dessa realidade da ciência que você me comunica. Continuo apreciando seus escritos, sua paciência e educação. Se sentir vontade vou lhe aferroar os neurônios.
Grande Abraço,
Muito bem, encerre-se então. Está enganado em relação a quase tudo o que afirma neste seu derradeiro comentário, sobretudo em relação aos cientistas, à ciência e às suas prioridades, mas paciência, fica para a próxima. Mas sempre gostava de perceber essa fixação na “ciência de laboratório”…
Ah, mas também posso acrescentar outro efeito nefasto da ciência: os acidentes rodoviários. Morre gente aos milhares todos os dias nas estradas. Não são satélites, são outro tipo de máquinas e tecnologias, carros e motos e afins, mas também são fruto da ciência.
E aferroe à vontade, meu caro, aferroe!
Ah, e um último reparo: Todo o cientista é cético. Se não o for não é cientista, é outra coisa qualquer; mas sem ceticismo não há ciência.