Além dos inúmeros trogloditas que vieram a terreiro adjectivar e insultar José Saramago – prova de que o perdão e a tolerância cristã, como a Bíblia, também são uma batata (isto é, o que cada um quiser) – foi gratificante reconfirmar a posição oficial da Igreja Católica Apostólica Romana em relação aos textos bíblicos.
Ao contrário do que acontece com a generalidade das outras confissões/versões do cristianismo, como as igrejas do movimento evangélico protestante, por exemplo, que se mantém monoliticamente fiéis ao literalismo dos textos: o que lá está é o que foi, sem tirar nem por nem lugar para simbolismos – o criacionismo da terra recente, que afirma, com base numa leitura literal do Antigo Testamento, que o planeta tem uns meros milhares de anos, é um exemplo extremo deste literalismo, que afecta milhões de parvos neste mundo, para usar a terminologia do teólogo católico Carreira das Neves, que não acredita que os crentes da Bíblia sejam todos parvos -, a ICAR eleva-se sobre a parvoíce e revela-se um exemplo positivo de adaptação ao zeit geist, ao espírito do seu tempo.
Desde logo na abordagem liberal q.b. aos textos sagrados, tidos pelos católicos, pelo menos pelos católicos eruditos e mais dados ao pensamento místico e cifrado, como uma obra de «literatura» escrita por homens supostamente inspirados pelo Deus judaico-cristão, ao longo de muitas gerações e aberta às interpretações – é claro que para os teólogos da ICAR, há interpretações válidas e não válidas, sendo que as válidas são as dos teólogos da ICAR.
É uma enorme ficção, um grande repositório de fábulas, simbolismos, mitos e metáforas que carece, como sublinhou o também teólogo (que é gente que se farta de pensar nestas coisas dos simbolismos bíblicos) Tolentino Mendonça, de uma “leitura simbólica”. Isto é, a Bíblia segundo a ICAR não deve ser lida à letra. Pelo menos nas partes más – isto é, “más” na conjuntura cultural e moral da respectiva época, já que noutros tempos as interpretações teológicas validadas pela Santa Sé deram para justificar guerras, tortura ou escravidão, entre outras coisas hoje em dia mais ou menos fora de moda. Excelente. A esmagadora maioria do povo judaico, por exemplo, acredita piamente que a Bíblia também é um livro de História, da História do seu povo, por muito que a arqueologia e a ciência provem que muito do que lá está é falso (isto é, “simbólico”), incluindo a fuga do Egipto, que nunca aconteceu a não ser na cabeça do escritor das escrituras.
A ICAR não, a ICAR não é o Jerry Falwelll nem o Bispo Tadeu. A ICAR mostra ser intelectualmente superior neste aspecto e completa a quadratura do círculo, que é dar uma roupagem racional a conteúdos espirituais. Mais uma vez, excelente.
Agora só falta é avisar a malta.
ps: e não deixaria de ser extremamente interessante conhecer de que forma é que cada católico se relaciona com a Bíblia, por meio de um inquérito nacional, por exemplo para ver até que ponto é que a interpretação metafórica das elites da Igreja tem correspondência no todo do rebanho. Desconfio que Carreira das Neves tinha um desgosto.

O homem que diga que o Corão é uma manual de terrorismo e aí sim tem a minha admiração. Até lá continua a ser mais um parvo. Apenas.
Isso da parvoíce, como a Bíblia ou o Corão, também é um assunto muito relativo.