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 Este também não pude deixar de reproduzir aqui. Trata-se de um artigo do editor principal da revista Foreign Policy, do seu último número, acerca da crise alimentar global, de responsabilidades e caminhos. Um texto magnífico, que coloca a questão do aumento dos preços da comida em devida perspectiva. Muito didáctico e objectivo e assim de repente só um reparo: no início do último parágrafo, devia ter feito acompanhar os agricultores norte-americanos dos agricultores europeus. Aliás, o autor (a revista é americana) esquece-se um pouco da Europa, mas enfim, no geral mete os dedos nas feridas certas. Acho eu.

Missing Links: The Global Food Fight

By Moisés Naím

July/August 2008


There are many culprits we can blame for higher food prices. But the poor isn’t one of them.

The spike in food prices is a global crisis, and it is destabilizing politics and economics everywhere. Food prices have doubled in the past two years, and most signs indicate they will stay high. Not surprisingly, the poor will bear the heaviest burden. Household surveys show that the poor already devote half of their spending to food. Inevitably, this percentage will rise sharply, cutting into what people have left for basic expenses like healthcare or shelter. This crisis, which caught governments by surprise, is undermining much of the progress that was made in lifting people out of poverty in the past 10 years. The World Bank estimates that high food prices will quickly pull 100 million people back below the poverty line.

The poor are not only being hurt by the food crisis more than anyone else, but they are also being blamed for it. U.S. President George W. Bush, for example, noted that when poor countries like India prosper, people there “start demanding better nutrition and better food.” Therefore, he said, “demand is high, and that causes the price to go up.” This view is widely shared by politicians, economists, and journalists alike. I echoed it myself in a recent column. But although the emergence of a global middle class is undoubtedly a factor in driving up food prices, it is not as important as most commentators think. We are blaming the wrong people.

That is one of the surprising conclusions of Donald Mitchell’s analysis of the food crisis. Mitchell, who is the World Bank’s expert on agricultural commodities, argues that while the poor, especially in Asia, are indeed eating more meat, this increased consumption is not the cause of the spike in food prices. Take, for example, the global consumption of rice and wheat. Between 2000 and 2007, the global consumption of rice grew by 1 percent a year; consumption of wheat grew even more slowly. Meanwhile, meat consumption soared. These trends seem contradictory because when you eat chicken or steak, you are essentially consuming grains, which are the main raw material used to raise these animals for human consumption. In fact, the demand for both rice and wheat has not matched the increase in the world’s population—that is, consumers. If meat consumption in Asian countries explained today’s higher grain prices, then the demand for grains should be consistently high and countries like China and India would be unlikely to have surplus grain to export. But, as Mitchell notes, the growth in demand for these grains in the past seven years was slower than the increase in demand between 1995 and 2000, when international prices were stable and Asian consumption had yet to boom. Moreover, China and India became net grain exporters in 2000, despite their growing populations and their rising meat consumption.

So what explains the fact that while meat consumption has gone up—the indicator most commonly used to blame poor Asian countries for their responsibility for higher food prices—the demand for grains has not kept pace? Technology, says Mitchell. Innovations in animal genetics, nutrition, and production methods have revolutionized the efficiency of the production of chicken, pork, and beef. The meat produced per unit of grain feed has increased 40 percent in East Asia since 1990, for example. So then, why are the international prices of these commodities soaring?

One indirect way in which rising consumption in poor countries is contributing to higher food prices is through increased energy consumption. The higher demand for energy in poor countries has added to the pressure that led to record prices for oil and gas. In turn, these high energy prices have pushed up food prices—not only because they have made the transportation of agricultural products more expensive, but mostly because they boost the cost of fertilizers produced with hydrocarbons. Weather anomalies, such as the severe drought in Australia, have also contributed to higher food prices. So have speculators. In the past five years, the number of futures contracts for wheat (the commitment to buy or sell a given volume of wheat by a certain future date at a predetermined price) has quadrupled. Although a lot of idle money looking for quick returns has found its way to agricultural markets, the fact is that while speculators ride and accelerate existing market trends, they don’t create the underlying market fundamentals.

And one of the fundamental realities that financial speculators are exploiting is that the existing inventories of agricultural commodities are at record lows. In the past 25 years, most countries gradually abandoned the policy of stocking grains and other agricultural commodities. Now that commodity markets are in turmoil, most countries lack significant cushions to absorb the impact of any sudden disruption in their ability to import grains. Such disruptions can have many causes, some natural and others man-made. Climate change, for example, is already having a discernible effect on harvest cycles and crop yields. But the most important catalysts of the current food crisis are government policies—especially in the United States—that encourage farmers to divert their production away from crops for human consumption and toward ethanol and other biofuels. Recent studies point out that these government decisions are responsible for more than 50 percent of the recent increase in food prices and will account for more than 33 percent of food inflation in the next decade.

Of course, the explosion in food prices was an unintended consequence of policies geared to help American farmers. But it is also true that such unintended consequences could have been avoided if decisions had been based on a careful analysis of food markets rather than on the shortsighted promotion of special interests. In any case, at least we now know that the culprits of the higher food prices are not consumers in poor countries but farmers in rich ones—and the politicians they have in their pockets. »

Moisés Naím is editor in chief of Foreign Policy

Mais um excelente artigo de Desidério Murcho no Público. Desta vez sobre um dos meus temas de estimação: Convicções e crenças. E da arrogância absoluta de quem as tem.

Humildade epistémica

“Abstive-me sempre de fazer da verdade um ídolo, preferindo designá-la pelo nome mais humilde de exactidão”, declara Zenão no inesquecível A Obra ao Negro, de Marguerite Yourcenar (Dom Quixote, 1998). A humildade perante a verdade é precisamente o que não existe quando mais se pensa que existe. Vale a pena ver duas maneiras de falsamente se parecer humilde perante a verdade, quando se é exactamente o oposto disso.

Alguns autores pós-modernistas declaram ser a verdade uma mera construção humana, ou uma perspectiva entre outras. Mas se a verdade é uma mera construção humana, uma mera projecção ou uma mera perspectiva, não há qualquer diferença, quanto à verdade, entre afirmar que as mulheres devem ser discriminadas e afirmar que não o devem ser. Em ambos os casos, são perspectivas.

A diferença radical entre uma convicção ou perspectiva e uma verdade é que uma convicção ou perspectiva é apenas seja o que for que alguém pensa, ao passo que a verdade é uma propriedade das nossas convicções e perspectivas quando as coisas são como pensamos que são. Daqui se vê que identificar a verdade com a mera convicção equivale a dar-nos o toque de Midas, garantindo que tudo o que pensamos que é verdade é verdade. O que parecia uma posição humilde revela-se a máxima falta de humildade, e mais uma manifestação do velho antropocentrismo humano: afinal, deste ponto de vista, nunca podemos errar porque seja o que for que alguém pensa é uma perspectiva como outra qualquer. Eis como se pode atingir a omnisciência fingindo-se humildade.

No pensamento religioso encontramos o mesmo tipo de falsa humildade. Invoca-se a humildade perante o inefável e a grandiosidade de um deus que só vagamente pode ser intuído. Isto parece uma posição de extrema humildade, mas basta pensar outra vez para ver o gato com o rabo de fora. Vejamos: começa-se por dizer que há algo de grandioso, de misterioso, de indizível, para depois se invocar a humildade quando pedimos explicações mais pormenorizadas sobre tal hipótese. Mas esta invocação de humildade serve apenas para fazer parar arbitrariamente o pensamento num ponto e não noutro porque a própria hipótese grandiosa de que há um deus qualquer que escapa à nossa compreensão não é uma hipótese humilde: se for verdadeira, significa que as pessoas religiosas têm um acesso privilegiado e infalível à verdade — pressuposto este que não passa, em si, de falta de humildade. A fé é o contrário da humildade cognitiva, pois é a ideia de que é possível saber de Deus de uma maneira especial, diferente da maneira como sabemos que está a chover ou que as mulheres não devem ser discriminadas.

Tanto uma perspectiva como outra estão erradas porque pressupõem que não erramos. Só conseguimos criar ciência e filosofia e artes quando estamos dispostos a rever as nossas convicções e as nossas metodologias. Sem esta humildade, inventamos sonhos antropocêntricos infantis, que nos obrigam a uma luta inglória contra a realidade do que somos.»

A propósito de um debate público que tarda em Portugal, e que tem aqui neste texto um interessante ponto de partida, eis um texto muito interessante dum docente universitário chamado Brissos Lino, publicado no Setúbal na Rede:

Laicidade do Estado e a Liberdade Religiosa em Portugal

Sejamos francos. De que falamos quando falamos de laicidade do Estado? E de liberdade religiosa? O estado actual das coisas em Portugal não permite reconhecer uma coisa nem outra.

A separação entre Religião e Estado é uma conquista da civilização ocidental. Mas o que temos em Portugal é apenas uma separação teórica, no papel. A efectividade dessa separação ainda está por implementar.

Comecemos pela discriminação que continua a ser feita entre igreja maioritária (católica) e ou outros (denominados “minorias religiosas”). Para começar existe um instrumento jurídico estabelecido entre o estado português e a Santa Sé, ou Estado do Vaticano, que procura regulamentar as relações entre aquela confissão religiosa e a República Portuguesa. A Concordata que vinha do salazarismo (1940) foi revista e actualizada há poucos anos. Mas não existe instrumento idêntico que contemple as outras confissões. Ora este documento jurídico, assinado na lógica do direito internacional, coloca imediatamente um elemento de diferenciação entre cidadãos portugueses, por motivo da sua religião ou ausência dela, ao arrepio do espírito e da letra da Constituição Portuguesa.

Daqui decorrem, naturalmente, toda uma série de discriminações práticas entre pessoas que, por motivo de terem fé diferente, são favorecidos ou prejudicados enquanto cidadãos. Quando se faz uma lei apenas para “os outros”, falamos de quê senão de discriminação?

Mas o problema maior nem sequer reside no ordenamento legal mas sim na mentalidade e na praxis social. (…)

continua aqui

Todos ao Chiado

Mais uma prosa minha repescada ao tapor. Desta vez não é para tapar buracos, mas porque tem serviço público:

Terminacão do Anjo Daniel Abrunheiro

Lançamento de novo romance de Daniel Abrunheiro e Relançamento da Portugália Editora

24 de Junho de 2008 às 18h30 na Livraria Sá da Costa em Lisboa

– Rua Garrett 100 102| Chiado –

Confesso que não tenho lido nos últimos anos muita nova literatura portuguesa. Vou lendo sobretudo uns excertos, na net, em jornais ou revistas ou em visitas mais prolongadas às livrarias e não muito mais. Tive também uma recente experiência de cerca de ano e meio na gestão de uma livraria e muitas vezes, nas horas mais mortas, que eram bastantes, tentava entrar nos novos autores que lá arribavam. Raramente passava das primeiras páginas - esta experiência serviu, entre outras virtudes, para perceber a gigantesca avalanche de mediocridade que se publica todos os dias neste país…

Seja como for, também sou uma tentativa de escritor e tento andar atento às novidades, às entrevistas e às críticas.

Tenho andado entretido com outras leituras (”so many books, so little time”…), mas só para situar um pouco estilisticamente, também, não apreciei por aí além algumas incursões a novos valores como o José Luís Peixoto, e muito menos dos best-sellers Rodrigues dos Santos ou Sousa Tavares (este último, no entanto, melhor que o penúltimo. Mas pior que o primeiro). Gosto mais de Pedro Paixão, ou de Pedro Rosa Mendes, por exemplo, e nos menos novos prefiro o universo pessoal e criativo (e a escrita) do Lobo Antunes ao Saramago.

Dos que eu vou conhecendo, no entanto, há um novo escritor português que me cativa. É o Daniel Abrunheiro (tem link ali ao lado) e também é por sermos amigos. Distantes, mas de longa data. A amizade, neste caso, conta apenas por ter sido a porta de entrada para a sua obra e para a sua escrita. Confesso que se não fosse um amigo provavelmente não me teria dado ao trabalho de conhecer mais e melhor. Teria perdido uma pérola. Mas o facto é que nunca fomos amigos chegados, daqueles com quem se troca confidências ou meras conversas de café. Geografias, afectos, obrigações e outras determinantes da vida afastaram-nos de um contacto mais chegado. Conheço-lhe a intimidade sobretudo pela escrita, dos livros, da poesia, dos blogues, dos jornais.

A circunstância de ser um amigo, como tal, não me torna mais parcial o julgamento em relação à criação. E o que eu acho é que é uma leitura cativante, enriquecedora e, principalmente, um universo literário, uma poética, original, que é das coisas mais raras e preciosas de se encontrar num escritor.

É uso e costume nestas coisas traçar paralelos e esmiuçar referências. Na criação literária do Daniel, por exemplo - além de nomes entretanto esquecidos como Altino do Tojal ou algum do “realismo mágico” português encarnado em certa escrita de Gomes Ferreira, por exemplo - leio Lobo Antunes nas entrelinhas. Sobretudo o fabuloso Lobo Antunes das crónicas. Pelo domínio das palavras, uma escrita rica, livre e criativa que ganha uma vida muito original nas páginas dos dois autores, mas acima de tudo pela paixão das pequenas coisas e gestos, pelo olhar compassivo sobre as pessoas reais e quotidianas, pela atenção dedicada à espuma dos dias, à vanguarda da vida onde tudo se esgota em turbilhão num momento.

Os budistas creio que acreditam que esse momento em que coisas acontecem, essa espuma fugaz dos dias, o pequeno gesto, é na verdade a essência da vida e da realidade, e que tudo o resto, passado e presente, é construção da nossa mente. E escritores de quotidianos como Daniel Abrunheiro ou Lobo Antunes navegam em águas profundas mas estão lá, na crista, atentos e respeitosos ao gesto e ao momento, atentos ao que passa e é mais importante, atentos e sensíveis às emoções e aos dias dos outros. É essa, em meu entender, a essencialidade e a importância da sua obra.

O Daniel Abrunheiro vem agora ao caso porque vai lançar um novo livro. E ainda por cima um romance, obra de fôlego que o autor vai parir em Lisboa depois dos livros de curtas e da poesia digital (talvez a faceta literária mais exaltante do amigo autor, digo-o eu que infelizmente nem sou muito dedicado à poesia). É e vai ser assim, segundo Abrunheiro no seu blog:

«Sob a égide do Grupo Editorial e Livreiro da Fundação Agostinho Fernandes, renasce publicamente em Lisboa, no próximo dia 24 de Junho (às 18h30, na Livraria Sá da Costa em Lisboa, na Rua Garrett 100-102, ao Chiado), a Portugália Editora. À Portugália, surgem associados dois outros nomes de importância maior no panorama da edição em língua portuguesa: Livraria Sá da Costa Editora e Buchholz. Deram-me estes senhores a honra de integrar o catálogo por eles chancelado. Entre 24 de Novembro de 2006 e 8 de Abril de 2008, escrevi uma coisa chamada Terminação do Anjo. É um romance, talvez.»

Sem ter a ver com amizades, mas apenas com a expectativa de um aficionado perante o nascituro e com as qualidades artísticas do pai, é com prazer e honra que aconselho vivamente a presença no renascimento da Portugália e no parto da “Terminação do Anjo”, que já ganha como um dos melhores títulos do ano. Um acontecimento literário a não perder!

Este texto já tem uns meses mas só agora tive a feliz oportunidade de o ler. E gostei tanto que senti a vontade de partilhar. Também vem a propósito da falácia da falência de valores nas sociedades seculares e das acusações de “relativismo” por parte das instituições religiosas. É possível e frequente, um pensamento ético (e uma conduta moral, já agora) sem o envolvimento de Deus e dos seus ministros:

Tolerância e ofensa

por Desidério Murcho

A tolerância é uma das noções mais difíceis de compreender. Confunde-se geralmente com o relativismo epistémico e esta confusão denuncia incapacidade ou até falta de vontade para aceitar a tolerância. Os pensadores pós-modernistas são responsáveis por contaminar a cultura contemporânea com esta confusão grave, que acaba por tornar impossível a genuína tolerância.

Ser tolerante é aceitar o direito de alguém afirmar o que pensamos firmemente ser falso ou errado ou inaceitável ou ofensivo. Isto é de tal modo difícil de assimilar que os pensadores pós-modernistas se sentem na necessidade de declarar que não há “verdades”, mas apenas “construções sociais da realidade”. E, por causa disso, todas as diferentes “construções” são igualmente aceitáveis. Pensa-se então que esta atitude é tolerante, quando, ironicamente, torna impossível a tolerância. Pois se ninguém pode realmente estar errado nem dizer coisas falsas nem inaceitáveis, não podemos realmente ser tolerantes: limitamo-nos a aceitar todas as perspectivas que reconhecemos à partida serem tão aceitáveis como as nossas.

Pior: a falsa tolerância abre as portas ao fanatismo, cada vez mais presente na sociedade contemporânea. O fanatismo consiste em usar sistematicamente a noção de ofensa para silenciar os outros. Assiste-se assim à imposição de um discurso falsamente politicamente correcto, proibindo-se seja quem for de dizer seja o que for que possa ser ofensivo seja para quem for. Não se pode dizer que o cristianismo, o islamismo, o budismo ou o judaísmo são basicamente tolices supersticiosas, porque isso é ofensivo. Não se pode dizer, como James Watson, que os negros são menos inteligentes do que os brancos. Não se pode fazer cartoons a gozar com Maomé. E, numa reviravolta digna dos Monthy Python, os docentes da Universidade de Roma La Sapienza declaram-se ofendidos com as opiniões do Papa sobre Galileu e os estudantes encenam protestos mediáticos análogos aos protestos contra os cartoons do Maomé.

A tolerância pressupõe a convicção do erro. Só podemos tolerar o que estamos convictos que é um erro inaceitável, uma falsidade patente, um absurdo ofensivo. Tolerar é tolerar humanamente. Não é tolerar epistemicamente, no sentido de defender que qualquer afirmação é igualmente justificável epistemicamente. Não é epistemicamente justificável a opinião de que o Holocausto não existiu ou que qualquer negro é menos inteligente do que qualquer branco ou que os seres humanos descendem de Adão e Eva. E é precisamente porque tais opiniões são claramente falsas, claramente injustificáveis, que podemos ser tolerantes relativamente a quem as defende. Ser tolerante é defender as pessoas que têm ideias falsas, idiotas ou inaceitáveis e atacar essas ideias; não é atacar as pessoas para evitar o incómodo de provar que as suas ideias são falsas. E, se tais ideias nos ofendem, paciência. Não é possível garantir a liberdade de expressão e ao mesmo tempo garantir que não seremos ofendidos.

Publicado no jornal Público de 22/01/2008

Chocolate Jesus

Então e a Noruega?

Russel e a Dinamarca

Portugal e a religião

Para disfarçar a falta de tempo para este blog, e visto ser tema pertinente para este espaço, passo a reproduzir aqui uma divagação que escrevi há uns dias para o tapor, o blog colectivo onde também desabafo e converso. Chama-se Portugal e foi escrito no dia 10 de Junho:

Há uns tempos vim para aqui falar de religião e obtive algumas reacções adversas da parte de alguns confrades, no sentido de que não devia vir para aqui falar dessas coisas. Não porque sejam crentes, os estimados confrades, o que seria mais compreensível para mim, mas simplesmente porque é uma perda de tempo. Não se chega a lado nenhum e é como discutir o sexo dos anjos, é inútil, dizem. O argumento é, de resto, habitual. E continua a ser habitualmente incompreensível para mim, que até gosto de discutir o sexo dos anjos, o feitio dos deuses, o mistério da criação e outras trivialidades inconsequentes. Mas não é por isso que acho essa posição incompreensível.

Quem reflecte e discute com alguma seriedade (isto é, com frequência e liberdade) os deuses, as religiões e as fés, fá-lo porque é um exercício intelectual tão essencial e importante como a filosofia ou a ética; fá-lo porque quer perceber melhor a essência e a natureza das coisas, mas fá-lo, sobretudo, porque as religiões, os deuses e as fés não são assuntos irrelevantes para a nossa existência física, concreta, social, económica e cultural. Afectam profundamente a forma como vivemos, enquanto indivíduos e enquanto comunidade. E nessa medida é tão importante como discutir política, finanças, ciência ou história.

E se compreendo perfeitamente que para um crente essas sejam matérias indiscutíveis - são muito poucos os crentes que façam reflexões críticas acerca da sua religião (entendida aqui como a organização/instituição a que aderem), e muito menos os que o fazem em relação à sua fé obviamente, porque um dogma não se discute - e nessa medida efectivamente de debate inútil, uma evidente “perda de tempo”, já não consigo perceber, nem admitir, que num espaço de liberdade como tem sido o Tapor, essas não sejam matérias de controvérsia. São-no, obviamente, quanto mais não seja porque, havendo ou não liberdade de pensamento, tudo é controverso. E são mais discutíveis, digo eu, do que o torneio europeu de futebol em curso ou a carreira do John Holmes. Para não dizer importantes, pronto já disse. Mas o facto é que, apesar de muito pouco, a religião já foi tema de algum intenso debate aqui no porco, a última de que me lembro foi há cerca de dois anos, em torno do secularismo e da (discutível) contribuição judaico-cristã para o mesmo. Mas por norma é tema alheio ao Tapor.

A prova da sua importância, no entanto, saiu na edição de hoje, Dia de Portugal, do Público.

Portugal é o país mais pobre da Europa Ocidental e só não o é da União Europeia porque os novos países-membros do Leste ajudaram na estatística. Vinte anos depois da nossa entrada na UE, com biliões em subsídios injectados no país para efeitos de “coesão”, a realidade é que não saímos da cepa torta e hoje somos talvez a sociedade europeia menos preparada para os desafios da chamada “globalização” e para a sociedade do conhecimento, a “terceira vaga” que os Toffler anteciparam há umas décadas. Sem falar na impreparação para crises e desafios mais concretos e presentes, nomeadamente os económicos, os relacionados com recursos ou com competitividade global.

Muito do problema nacional, por outro lado, prende-se com questões de mentalidade e derivados, como comportamentos, atitudes e padrões culturais. As mentalidades são moldadas sobretudo por tradições e convicções, factores que por seu turno condicionam (e perpetuam) os tais comportamentos, atitudes e padrões. Acresce que o domínio das convicções com impacto social se divide fundamentalmente nas de cariz religioso e nas de natureza ideológica (i.e., políticas). E isto para concluir que sim, são questões importantes e discutíveis e que, em meu entender, os portugueses são como são e Portugal é como é, em primeira instância, devido à religião e à política, dois mundos simbióticos quando não estão devidamente separados um do outro.

De resto, todos os países são fruto e reflexo das mais diversas crenças e tradições. E nós, portugueses, somos fruto e reflexo do catolicismo romano e das políticas que este credo foi avalizando ao longo dos séculos.

O Público chamava, enfim, a atenção para um estudo internacional promovido pelo projecto Social Survey Program. O estudo versa o tema “identidade nacional” e há-de estar por aí melhor explicado pela net (aqui, por exemplo). O que interessa, para o caso, é que as gordas da primeira página do jornal gritavam: “Ser português é ser católico, pensa a maioria”. Lá dentro mais gordas assustadoras: “Em Portugal, nação e Igreja são equivalentes”. Os dados do estudo, acrescentava o jornal, «revelam que mais de dois terços dos portugueses consideram a religião um factor de identidade nacional, muito mais que em outras nações da União Europeia. O estudo mostra ainda que o orgulho nacional está muito ligado à História». Isto reflecte um pouco a ideia genérica que fazemos de nós próprios, enquanto povo, e é como tal talvez pouco fiável em relação às dinâmicas sociais efectivas e presentes, mas é extremamente revelador no que respeita a convicções (no caso, a ideia que fazemos de nós próprios) e tradições. Logo, a mentalidades e atitudes. «Ser português equivale a ser religioso, e mais concretamente católico: é assim que pensam 68,5 por cento dos cidadãos» portugueses, segundo o estudo, que abrangeu 34 países (nenhum dos quais muçulmano e vinte dos quais europeus). Portugal está em sétimo da geral, na importância dada «à religião como elemento definidor da identidade nacional. Na União Europeia, só é ultrapassado pela Polónia e Bulgária».

O estudo é muito interessante e aborda outras questões, como o facto da nossa fonte primordial de orgulho (para uma esmagadora maioria de quase 99 por cento) seja o passado (quantas vezes mitificado…), ou seja, não o que somos, mas o que supostamente fomos. «Nesta postura, Portugal está muito mais próximo de alguns países do Leste, como a Bulgária, a Eslováquia ou a Rússia, do que dos seus pares ocidentais. “Um enorme fosso”, constata Sobral (José Sobral, historiador e um dos coordenadores do estudo em Portugal). Para os portugueses, a grandeza continua então a ser pertença do passado», acrescenta o artigo.

O factor religioso, no entanto, foi o que mais surpreendeu (apesar de toda a evidência!…) os estudiosos, que concluíram que «o sentimento religioso faz parte de um bolo que nos afasta da maioria dos nossos parceiros europeus». Mas vale a pena perceber melhor o “fenómeno”, que estas coisas das identidades nacionais são efectivamente muito interessantes. Para José Sobral, esta mentalidade tem raízes tanto longínquas como recentes. «Recuando à época medieval, os portugueses viam-se e eram apontados, nas narrativas nacionalistas, “como tendo uma relação especial com Deus”: eram uma espécie de povo escolhido”, a quem fora dada a missão de espalhar a fé pelo mundo. “Este sentimento foi reforçado de modo a legitimar a expansão imperial”, frisa Sobral. Apesar do abanão da I República, o catolicismo voltou a florescer no Estado Novo, tendo-se reconstituído como um pilar do “nacionalismo oficial”, promovido por Salazar».

O paralelo com a vizinha Espanha (cujo desenvolvimento disparou desde que saiu da ditadura franquista e abriu a sua economia e, sobretudo, desde que aderiu à União), país que também encarnou nos mesmos católicos moldes essa missão evangelizadora e imperial, é fantástico e é sublinhado pelo historiador. «É revelador que, apesar dos reis católicos e da conquista, da guerra civil, do longo reinado de Franco e da relação especial que este manteve com a Igreja Católica, “apenas” 44,2 por cento dos espanhóis acreditam hoje que ser religioso é um atributo significativo da sua identidade. Em França e nos países nórdicos, esta percentagem está abaixo dos 20 por cento.».

É esta, enfim, a relevância de discutir religião. Por que se somos assim, pobres, tristes e iletrados, em muito grande medida o devemos à religião. Aliás, em grande medida o devemos a não se discutirem temas como a religião. Somos como somos porque estivemos durante séculos mergulhados em tradições e convicções religiosas de determinada natureza. Tradições essas extremamente convenientes à classe dirigente, a governantes como Salazar, homem mais pragmático do que propriamente crente, para quem a preponderância da religião, sobretudo de uma que prega a submissão e o conformismo (porque a recompensa está no céu e etc.), era uma questão essencialmente instrumental, no sentido da pacificação social - cumpre lembrar que os “católicos progressistas” eram não só uma pequeníssima minoria entre a população nacional, circunscreviam-se praticamente a Lisboa, como eram segregados e criticados pela instituição e pela generalidade dos paroquianos menos dados às rebeldias. Para os poderosos, com efeito, esta associação com a igreja sempre foi ouro sobre azul.

Os efeitos nefastos da preponderância política e social das religiões é mais gritante nos países islâmicos, obviamente, mas o caso português é exemplar no lado ocidental, pela negativa, dos respectivos malefícios sobre uma sociedade. Refiro-me criticamente e especificamente à Igreja Católica Apostólica Romana, tradição e convicção que tem imperado em Portugal desde há quase mil anos e que moldou decisivamente (desgraçadamente, digo eu, mesmo que nem tudo seja mau…) a atitude e o modo de ser português.

Nem todas as religiões, por outro lado, terão os mesmos efeitos que a religiões católica ou muçulmana, estruturalmente conservadoras e tradicionalistas, mais avessas à inovação e à diferença. O caso dos Estados Unidos, por exemplo é muitas vezes invocado pelos crentes como uma prova de que uma sociedade pode ser religiosa e ao mesmo tempo progressista e próspera. É certo. Os norte-americanos são esmagadoramente religiosos. O que falta referir é que professam, desde que são nação, uma religião bem diferente da nossa. Quer os norte-americanos quer os europeus do Norte (essa outra parte do mundo atrasada e analfabeta) são sobretudo povos de tradição protestante. E isso faz, como fez, uma enorme diferença na forma como os países evoluíram, mesmo que o Deus seja o mesmo…

Neste caso já não me estou a referir ao sexo dos anjos, estou a falar de ética, moral e comportamentos, usos e costumes, questões concretas que dizem respeito ao discutível universo religioso. O que a realidade nos mostra (por muito que alguns militantes religiosos apregoem a falácia da “falência dos valores” nas sociedades seculares) é que as sociedades mais religiosas, ou pelo menos, as mais adeptas de determinadas religiões, são invariavelmente as mais atrasadas – o drama do continente africano é um assunto diferente e muito particular.

O que este estudo confirma, quanto a mim, é a Igreja católica enquanto causa profunda e persistente do nosso atavismo, da nossa forma de ser conservadora, ignorante e fatalista, dos políticos medíocres a que nos conformamos e do estado em que estamos, mesmo atendendo aos sinais positivos para o futuro, que também os há nas novas gerações, cada vez com mais “mundo” e consciência dos novos desafios (globais) que têm de enfrentar. São também, sintomaticamente, gerações cada vez mais secularizadas, urbanas e menos dadas às crenças, às tradições e aos rituais religiosos institucionalizados, sendo significativo o crescimento, exponenciado pela net, do ateismo, do agnosticismo ou de correntes espirituais alternativas, nomeadamente as conotadas com a “new age”. Ou da simples indiferença. Mas a realidade que este estudo aflora é que a maioria ainda sente que é religiosa e que é isso que ainda a identifica enquanto nação, enquanto principal elemento agregador. Uma nação católica apostólica romana, fiel ao Papa, como no tempo dos afonsinhos.

Só um exemplo: A tendência católica, tal como o maometismo, privilegia conceitos morais como a caridade e a aceitação. E isso gera uma mentalidade assistencialista, de ajuda piedosa ao doente e ao desafortunado. Não é de resto por acaso que uma das chaves do sucesso de facções muçulmanas como os xiitas de Moqtada Al Sadr no Iraque, do Hezbollah no Líbano ou do Hamas em Gaza, são as redes de assistência social às populações, que monopolizam a ajuda em certas zonas. É óbvio que se trata de uma questão de conquistar simpatias, mas trata-se também da mesma lógica assistencialista profunda que anima a tradição católica, que cada vez menos monopoliza, de resto, a assistência aos pobres e aos desvalidos.

O protestantismo, pelo contrário, assumiu uma tradição ética e moral muito diferente, estimulando sobretudo a iniciativa individual, o empreendedorismo e a insubmissão. Desde logo em relação à doutrina papal; à autoridade centralista do Vaticano, que se exercia com um peso brutal nos governos terrenos das nações e à teologia romana oficial. O protestantismo chegou e traduziu a Bíblia para vernáculo, para a língua do povo, deixou de ser exclusivo em latim para meia-dúzia e passou a ser vox-populi, permitiu que cada um fizesse a sua pequena exegese, fragmentou-se em milhares de sub-cultos evangélicos (além das principais sub-divisões originais, a luterana, a calvinista e a anglicana) e, sobretudo, permitiu um espírito (uma mentalidade) mais livre, crítico e dinâmico, mais facilitador de educação, ciência e cultura, mais adepto de ensinar a pescar e menos de oferecer o peixe. E também menos intolerante.

Ora, tudo isto fez toda a diferença, na forma como as diferentes sociedades evoluíram, já que quer o catolicismo romano quer o islamismo, se deixados à “rédea solta”, como aconteceu em Portugal até 1974, se assumiram como forças paralisantes e castradoras. O catolicismo, quanto a mim, tem a vantagem de, apesar de tudo, se adaptar melhor às mudanças e às novidades do mundo e de ser mais aberto à dialéctica. Mas isso não o torna imune à crítica e acho que já vai sendo tempo destes assuntos e destas responsabilidades históricas serem discutidas, deixarem de ser tabu ou, pior, mito.

A internet e o ego

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68 em perspectiva

Um excelente artigo e uma visão quanto a mim equilibrada acerca de 1968, esse ano que é tido por muitos como de “charneira” para a civilização ocidental. O que foi e o que efectivamente legou à posteridade:


1968: the global legacy

Fred Halliday

“With the coming of the dawn, the promises of the night fade away”. In politics, as in love, the old Spanish saying sounds a pertinent warning; not least in regard to the memorialisation and assessment which the events of 1968 (and particularly the Paris uprising of May of that year) are receiving on their fortieth anniversary.

Anyone who lived through those exhilirating and formative times - as I did at the age of 22 - can testify to the hurricane force of that year. Like every such phenomenon it carried multiple elements: in this case a generation’s visceral rejection of the accumulated conformism of post-1945 Europe and north America; a heady encounter with new forms of music, art, thinking, and debate; and a many-centred solidarity with global movements of protest and revolt - be they in Vietnam and Latin America, in Czechoslovakia and Russia, or in the United States among African-Americans and anti-war protesters.

As one of the editors of the newly founded radical weekly Black Dwarf, I well remember the day in which we decided on the frontpage affirmation that to me encapsulated the aspirations and enthusiasms of that time more than any other: “Paris, London, Rome, Berlin. We shall fight, and we shall win!”

The problem is that, in many ways, we lost. 1968 was a wonderful time. It shaped the intellectual and moral framework of my adult years. It does not deserve the sneering, partisan dismissal of some of its unacknowledged beneficiaries (such as Tony Blair and Nicolas Sarkozy). But it is equally ill-served by the kind of one-dimensional and (in the true sense) uncritical celebration that contemporary media, publishing and intellectual cultures too often regurgitate.

Continua aqui

Jóga

Mais uma pérola Pessoal e Transmissível a merecer aqui transcrição parcial, com a devida vénia ao entrevistador Carlos Vaz Marques (CVM) e à TSF. Desta vez a conversa foi (ontem) com o casal de escritores e intelectuais norte-americanos Alvin e Heidi Toffler, autores de algumas das obras mais influentes do século XX como “A Terceira Vaga” ou “O choque do futuro”, que anteciparam conceitos como a sociedade do conhecimento e os novos paradigmas sociais e económicos decorrentes. A “terceira vaga” ainda está a começar, garantem, mas é inexorável. Meia-hora de conversa imperdível, de que fica aqui uma pequena amostra:

Alvin Toffler e a Europa - “O que me parece triste é ter havido uma Cimeira em Lisboa, há dez anos, uma Cimeira da União Europeia, onde aprovaram uma declaração dizendo “precisamos de…” não utilizaram a expressão terceira vaga, mas estavam a falar disso… precisamos de ter uma economia mais avançada, e por aí adiante, onde se comprometiam a criar, até2010, a mais competitiva, a mais avançada, a mais bem sucedida economia do mundo, querendo com isso dizer uma economia do conhecimento. Publicaram essa declaração chamando-lhe Documento de Lisboa. Um ano depois a UE publicou um relatório dizendo: “Infelizmente não fizemos grandes progressos no ano que passou, mas para o ano devemos fazê-los”. No ano seguinte saiu um relatório semelhante, “infelizmente não fizemos nada este ano, mas faremos certamente…”, ano após ano, o facto é que a Europa devia estar no pelotão da frente no desenvolvimento da “terceira vaga” mas tem estado na retaguarda comparativamente com outras zonas do mundo…

Heidi Toffler - … Penso que uma das razões para isso é o facto da Europa ser avessa ao risco. Muito disso tem a ver com o que são as vossas leis de falência, a América tem leis de falência muito pouco estritas, o que encoraja as pessoas a fazer qualquer coisa, e se falharem não têm de arcar com consequências sérias, não vão para a prisão, nem são penalizadas para o resto da vida, por terem assumido um risco e falhado. Na realidade, deparamo-nos com pessoas que depois de um fracasso, reaparecem mais capazes (…) Julgo que devido às monarquias na Europa, esta sempre teve uma maior consciência de classe, além disso a nobreza olhava para o comércio como algo de indesejável e por isso os empreendedores não são valorizados da mesma forma que o são na América. Temos aquele mito “vai para o Oeste, jovem, que encontrarás a tua oportunidade”. E julgo que, nesse aspecto, as leis da falência reflectem a diferença, portanto, somos (os norte-americanos) menos avessos ao risco, encorajamos a exploração e a inovação de uma forma que não existe entre os europeus»

Alvin - (…) Ainda não há um país da terceira vaga, mas podemos ver que há alguns países que estão a mover-se mais rapidamente que outros nessa direcção, a caminho de uma economia baseada no conhecimento. Acho que a Europa começa a levar agora a sério esta questão e acho que vai começar a mover-se mais nessa direcção. Parece-me que, uma vez mais, os asiáticos estão muito conscientes disto. Os chineses são muito explícitos a este respeito, falam disto, compreendem esta mudança que está a acontecer mas, repito, ainda ninguém completou esse processo. E uma das razões para isso é nós ainda não o termos concluído. Embora os estados Unidos o tenham iniciado, ainda não completaram o processo, de se tornarem um país da terceira vaga. E a parte mais difícil ainda está para vir. A parte mais fácil é a tecnologia, isso é o mais fácil, apesar de todas as dificuldades na mudança das empresas e das estruturas. O mais difícil vai ser mudar as instituições, os enquadramentos sociais… Não podemos ter avanços tecnológicos profundos ou grandes mudanças sem termos mudanças no sistema social ou no sistema político…

CVM - Dê-me um exemplo, para se perceber melhor, de uma forma mais concreta aquilo a que se está a referir…

Heidi Tofler – Burocracia!

Alvin – A resposta é que na Europa, nos estados Unidos e no resto do mundo, todos nós sabemos que numa sociedade industrial todos nós desenvolvemos magníficas burocracias, somos realmente bons nisso. Claro que houve um tempo em que a burocracia fazia sentido. Se estamos a criar um país industrializado, a burocracia é uma forma bastante eficiente de organizar uma empresa, ou uma agência governamental e por ai adiante, mas à medida em que isso começa a ser abandonado, em que se inicia o percurso a caminho de uma terceira vaga, baseada no conhecimento, que exige respostas muito mais rápidas, uma muito maior troca de informações, não apenas para cima e para baixo, hierarquicamente, mas para os lados, para cima, para baixo, para fora e por ai adiante, num sistema muito mais complexo, a consequência disso é que as nossas burocracias, no meu país e no seu país, na Europa ou na Ásia, as burocracias são obstáculos no caminho em direcção ao cumprimento das possibilidades da terceira vaga. Em consequência disso, acho que estamos a assistir ao desmoronamento da eficiência burocrática e das funções burocráticas. O pior exemplo disso é o que tivemos nos estados Unidos com o desastre do furacão Katrina, quando o governo nacional foi incapaz de lidar com o governo estadual, incapaz de lidar com o governo local e na realidade a burocracia responsável por salvar as pessoas, falhou por completo (…)»

Heidi – (…) Se pararmos para pensar, percebemos que a burocracia foi uma invenção social. Nós estamos habituados às invenções tecnológicas, mas não pensamos na quantidade de instituições que temos actualmente como invenções sociais. Alguém inventou o hospital, alguém inventou a escola…

Alvin – Todos estes arranjos (“arrangements”) foram invenções, na era industrial temos uma organização piramidal, com alguém no topo e toda uma série de pontos hierarquizados mais abaixo, era algo que fazia sentido. Agora vamos ter de alterar esta forma de organização e inventar outros tipos, uma maior diversidade de estruturas organizacionais, vamos ter de alterar o nosso sistema de educação, que na realidade é o pior de todos os exemplos possíveis em termos de obsolescência, os nossos sistemas educativos foram criados para preparar crianças rurais para trabalharem em fábricas. E as pessoas diziam nos EUA, quando houve um enorme debate sobre se deveríamos ter um sistema público de educação, os pobres diziam “não, não nos podemos dar ao luxo de que os nossos filhos não vão trabalhar nos campos, porque vamos morrer à fome”, e os ricos diziam, “não, mas é que eles não são eficientes quando chegam às fábricas, portanto, o que nós queremos é um sistema escolar que crie, e vou citar, isto é exactamente o que se diz, disciplina industrial”. O que isto significava é que se um miúdo que ia para os campos com a família, para os trabalhos agrícolas, chegava um pouco mais tarde, dez minutos atrasado, alguém poderia fazer o trabalho por ele, mas se alguém chega dez minutos atrasado à linha de montagem faz com que um milhar de operários fique paralisado, a coisa pára. Por isso era necessário ser pontual e é por isso que havia campainhas, relógio de ponto á entrada da fábrica, para demonstrar que era preciso estar lá a tempo. E toda a gente passou a usar relógio, o tempo tornou-se muito importante. O que aconteceu foi que construímos escolas para preparar as crianças para a vida futura e a vida futura que elas iam ter era trabalhar numa fábrica ou na burocracia. Isso, hoje, é prepará-los para ontem. Mas agora que temos este sistema, com milhões de professores por todo o mundo a ensinar que foram eles próprios criados neste tipo de educação, vamos enfrentar a crise de ter de inventar novos sistemas educativos que façam sentido para crianças que vão ter empregos avançados, para economias avançadas (…)

E eis um artigo que se me afigura muito pertinente e merecedor de multiplicação. Chama-se “Porque não nacionalizar?” e é a prova de que o JN ainda tem vai tendo a sua utilidade, apesar de tudo:

«Se o mercado não consegue disciplinar os preços, os lucros nem o selvático prendar dos recursos empresariais com os vencimentos multimilionários dos executivos, então por que não nacionalizar os petróleos e tentar outros modelos? Quem proferiu este revolucionário comentário foi Maxine Waters, Democrata da Califórnia, durante o inquérito conduzido pelo Congresso, em Washington, às cinco maiores petrolíferas americanas. Face à escalada socialmente suicidária dos preços dos combustíveis, o órgão legislativo americano convocou os presidentes para saber que lucros tinham tido e que rendimentos é que pessoalmente cada um deles auferia. Os números revelados deixaram os senadores da Comissão de Energia e Comércio boquiabertos. Desde os 40 mil milhões de dólares de lucro da Exxon no ano passado, ao milhão de euros mensais do ordenado base do chefe Executivo da Conoco-Phillips, às cifras igualmente astronómicas da Chevron, da Shell e da BP América. Esta constatação do falhanço calamitoso do mecanismo comercial, quando encarada no caso português, ainda é mais gritante. Digam o que disserem, o que se está a passar aqui nada tem a ver com as leis de oferta e procura e tem tudo a ver com a ausência de mercado onde esses princípios pudessem funcionar.

Se na América há cinco grandes empresas que ainda forçam o mercado a ter preços diferentes, em Portugal há uma única que compra, refina, distribui e vende. É altura de fazer a pergunta de Maxine Waters, traduzindo-a para português corrente

- Se o país nada ganhou com a privatização da Galp e se estamos a ser destruídos como nação pela desalmada política de preços que a única refinadora nacional pratica, porquê insistir neste modelo? Enunciemos a mesma pergunta noutros termos

- Quem é que tem vindo sistematicamente a ganhar nestes nove anos de privatização da Galp, que alienaram um bem que já foi exclusivamente público? Os espanhóis da Iberdrola, os italianos da ENI e os parceiros da Amorim Energia certamente que sim. O consumidor português garantidamente que não. Perdeu ontem, perde hoje e vai perder mais amanhã. Mas levemos a questão mais longe houve algum ganho de eficiência ou produtividade real que se reflectisse no bem-estar nacional com esta alienação da petrolífera? A resposta é angustiantemente negativa. A dívida pública ainda lá está, maior do que nunca, e o preço dos combustíveis em Portugal é, de facto, o pior da Europa. Nesta fase já não interessa questionar se o que estamos a pagar em excesso na bomba se deve ao que os executivos da Galp ganham, ou se compram mal o petróleo que refinam ou se estão a distribuir dividendos a prestamistas que exigem aos executivos o seu constante “quinhão de carne” à custa do que já falta em casa de muitos portugueses. Nesta fase, é um desígnio nacional exigir ao Governo que as centenas de milhões de lucros declarados pela Galp Energia entrem na formação de preços ao consumidor. Se o modelo falhou, por que não nacionalizar como sugeriu a congressista Waters? Aqui nacionalizar não seria uma atitude ideológica.

Seria, antes, um recurso de sobrevivência, porque é um absurdo viver nesta ilusão de que temos um mercado aberto com um único fornecedor. Se o Governo de Sócrates insiste agora num purismo incongruente para o Serviço Nacional Saúde, correndo com os existentes players privados e bloqueando a entrada de novos agentes, por que é que mantém este anacronismo bizarro na distribuição de um bem que é tão essencial como o pão ou a água? Como alguém já disse, o melhor negócio do Mundo é uma petrolífera bem gerida, o segundo melhor é uma petrolífera mal gerida. Na verdade, o negócio dos petróleos em Portugal, pelas cotações, continua a ser bom. Só que o país está exangue. Há fome em Portugal e vai haver mais. O negócio, esse, vai de vento em popa para o Conselho de Administração da Galp, para os accionistas, para Hugo Chávez e José Eduardo dos Santos. Mas para mais ninguém. A maioria de nós vive demasiado longe da fronteira espanhola para se poder ir lá abastecer.»

Mário Crespo, in Jornal de Notícias de 26/05/08

Para descomprimir, permito-me aconselhar a leitura deste artigo humorístico, que saiu no mesmo dia no concorrente alfacinha, o Diário de Notícias.

Meditar

As minhas investigações e incursões pelo rico universo da espiritualidade conduziram-me a certo ponto a uma prática maravihosa que, ao contrário do que julgava a minha ignorância, tem tão pouco de religiosa como nadar ou jogar xadrez. Refiro-me à meditação. A comparação é forçada, naturalmente, e não falta quem a pratique com intenção e contexto religioso. Mas esta disciplina, chamemos-lhe assim, tem muito mais que se lhe diga. Não é por acaso, de resto, que um dos mais famosos ateus da actualidade, Sam Harris, também a cultiva. Ou pelo menos é um entusiasta do assunto.

A minha relação com a meditação já foi mais regular e dedicada. Nos últimos tempos, por um misto de preguiça e excesso de outras ocupações, não tenho praticado como fiz durante algum tempo, com disciplina, uma vez por semana, num sítio dedicado e com um orientador. O interesse e o gosto, esse, permanece e mal possa retomo as sessões semanais. Porque é realmente uma experiência muito enriquecedora e salutar. E, definitivamente, meditar não é reflectir, é uma experiência mais profunda e integral, que exige muita dedicação, persistência e entrega até dar resultados.

É curioso, já agora, que a maior parte das pessoas não passa da segunda sessão. A generalidade até vai à espera de ter uma espécie de epifania espiritual na primeira tentativa… As pessoas querem respostas fáceis e rápidas aos seus anseios mas a meditação, claramente, não oferece isso. Não é um caminho fácil, mas é sem dúvida um desafio compensador. De resto, não se explica, faz-se.

No meu caso, “pratico” uma variante chamada Meditação Za-Zen. Não foi propriamente uma questão de escolha consciente, foi mais uma questão de ausência de alternativa. Simplesmente na cidade onde vivo era a única oferta disponível. O Zazen é uma tradição meditativa budista, mas não é condição essencial ser-se budista para a praticar, não compromete o meu agnosticismo, por exemplo, se calhar pelo contrário, até o reforça… Além disso, o próprio budismo, não é uma religião, no sentido em que o mundo monoteista, judaico-cristão e islâmico, entende o conceito. Valoriza muito mais, por exemplo, a experiência da vida concreta e presente e não se prende tanto com temas como Deus, a morte, a expiação, o perdão, o martírio, etc..

Enfim, mas esses já são assuntos para outro post. Este é dedicado à meditação e vem a propósito de um artigo que saiu há uns dias no suplemento de saúde do New York Times, precisamente sobre a meditação budista e sobre como os psicólogos e os psicoterapeutas se estão a interessar cada vez mais pelo assunto. Depois das neurociências, que há muito estudam esta prática - é famosa a capa da National Geographic, creio que há cerca de um ano atrás, com o monge Myngiur Rinpoche cheio de sensores na cabeça, quando foi objecto de uma investigação da Universidade do Wisconsin em torno da actividade mental do meditador -, são os psis a aprofundar o tema. Nos Estados Unidos, naturalmente, por aqui ainda é encarado como uma espécie de bizarria esotérica, ou uma pancada New Age. Não é, é muito mais e muito melhor. O artigo chama-se Lotus Therapy:

«The patient sat with his eyes closed, submerged in the rhythm of his own breathing, and after a while noticed that he was thinking about his troubled relationship with his father.

“I was able to be there, present for the pain,” he said, when the meditation session ended. “To just let it be what it was, without thinking it through.”

The therapist nodded.

“Acceptance is what it was,” he continued. “Just letting it be. Not trying to change anything.”

“That’s it,” the therapist said. “That’s it, and that’s big.”

This exercise in focused awareness and mental catch-and-release of emotions has become perhaps the most popular new psychotherapy technique of the past decade. Mindfulness meditation, as it is called, is rooted in the teachings of a fifth-century B.C. Indian prince, Siddhartha Gautama, later known as the Buddha. It is catching the attention of talk therapists of all stripes, including academic researchers, Freudian analysts in private practice and skeptics who see all the hallmarks of another fad.

For years, psychotherapists have worked to relieve suffering by reframing the content of patients’ thoughts, directly altering behavior or helping people gain insight into the subconscious sources of their despair and anxiety. The promise of mindfulness meditation is that it can help patients endure flash floods of emotion during the therapeutic process — and ultimately alter reactions to daily experience at a level that words cannot reach. “The interest in this has just taken off,” said Zindel Segal, a psychologist at the Center of Addiction and Mental Health in Toronto, where the above group therapy session was taped. “And I think a big part of it is that more and more therapists are practicing some form of contemplation themselves and want to bring that into therapy.”»

continua aqui

Muito, mas muito interessante este artigo da New Scientist, acerca das origens e mecanismos de desenvolvimento da crença religiosa entre os seres humanos. O artigo tem como base um estudo que aponta a religião como produto da evolução e de mecanismos de adaptação. Vale a pena a leitura deste artigo, mas vale ainda mais a pena estudar o estudo que lhe deu origem:

«God may work in mysterious ways, but a simple computer program may explain how religion evolved

By distilling religious belief into a genetic predisposition to pass along unverifiable information, the program predicts that religion will flourish. However, religion only takes hold if non-believers help believers out – perhaps because they are impressed by their devotion.

“If a person is willing to sacrifice for an abstract god then people feel like they are willing to sacrifice for the community,” says James Dow, an evolutionary anthropologist at Oakland University in Rochester, Michigan, US, who wrote the program – called Evogod (download the code here).

Dow is by no means the first scientist to take a stab at explaining how religion emerged. Theories on the evolution of religion tend toward two camps. One argues that religion is a mental artefact, co-opted from brain functions that evolved for other tasks.

Aiding the people

Another contends that religion benefited our ancestors. Rather than being a by-product of other brain functions, it is an adaptation in its own right. In this explanation, natural selection slowly purged human populations of the non-religious.

“Sometime between 100,000 years ago to the point where writing was invented, maybe about 7000 BC, we begin to have records of people’s supernatural beliefs,” Dow says.

To determine if it was possible for religion to emerge as an adaptation, Dow wrote a simple computer program that focuses on the evolutionary benefits people receive from their interactions with one another.

“What people are adapting to is other people,” he says.

Religious attraction

To simplify matters, Dow picked a defining trait of religion: the desire to proclaim religious information to others, such as a belief in the afterlife. He assumed that this trait was genetic.

The model assumes, in other words, that a small number of people have a genetic predisposition to communicate unverifiable information to others. They passed on that trait to their children, but they also interacted with people who didn’t spread unreal information.

The model looks at the reproductive success of the two sorts of people – those who pass on real information, and those who pass on unreal information.

Under most scenarios, “believers in the unreal” went extinct. But when Dow included the assumption that non-believers would be attracted to religious people because of some clear, but arbitrary, signal, religion flourished.

“Somehow the communicators of unreal information are attracting others to communicate real information to them,” Dow says, speculating that perhaps the non-believers are touched by the faith of the religious.

Ancient needs

Richard Sosis, an evolutionary anthropologist at the University of Connecticut in Storrs, US, says the model adds a new dimension to the debate over how religion could have evolved, which has previously relied on verbal arguments and speculation. But “these are baby steps”, he cautions.

Sosis previously found that in some populations – kibbutzim in Israel, for instance – more religious people receive more assistance from others than the less faithful. But he notes that the forces that maintain religion in modern humans could be very different from those that promoted its emergence, thousands of years ago.

Palaeolithic humans were probably far more reliant than modern humans on the community they were born into, Sosis says. “[Now] you can be a Lutheran one week and decide the following week you are going to become a Buddhist.”»

in New Scientist, 27 de Maio de 2008

Ontem fiz uma longa viagem e, para variar, comprei para ler no comboio o Jornal de Notícias, título dirigido por um especialista em imprensa pimba, o senhor Marcelino (ex-director desse outro pilar do jornalismo de referência, O Correio da Manhã, só superado pelo colosso 24 Horas) desde que foi comprado por um empresário pimba, o senhor Oliveira. Uma excelente combinação, em suma, para se ter sucesso de vendas neste país de saloios.

Mas vem esta a propósito de um dos destaques da edição de dia 26, com chamada de primeira página intitulada “Saúde – Mil vítimas da guerra de Angola tratadas por portugueses – Equipa de médicos fica em Luanda até 2011”. Quem pense que se trata da AMI, da Cruz Vermelha ou da Associação Saúde em Português ou de outra ONG do género pode tirar o cavalinho da chuva. Lá dentro, em artigo de página inteira, percebia-se, enfim, o que se trata.

E trata-se, basicamente, de uma firma chamada Lifecare, dirigida por um senhor chamado Francisco Campos, cirurgião plástico e empresário, que estabeleceu um contrato (o JN, no entanto, prefere usar o eufemismo “parceria”) com o governo angolano no sentido de prestar serviços médicos e de formação neste país africano.

A Lifecare recebe uma pipa de massa (presume-se, já que o JN sublinha com simpatia que “o montante que o Governo investiu na parceria não é revelado”) para fazer o serviço contratado, a que os pacientes, “cerca de mil angolanos”, poderão aceder gratuitamente. O que não deixa de ser louvável. Pelo menos da parte do Governo angolano, que assim presta um serviço importante à população abrangida. Já a Lifecare, essa, faz o que lhe pagam para fazer.

Tudo isto estaria muito bem (negócios em Angola são já rotineiros para muitas empresas nacionais), não se desse o bizarro caso do JN apresentar este negócio como se tratasse de uma actividade humanitária!…

Fico agora à espera que o JN dê o mesmo destaque às empresas de construção civil, por exemplo, que estejam em Angola a construir casas e infra-estruturas mediante “parcerias” com o poder angolano. Afinal, a habitação e as acessibilidades também são áreas fundamentais para a qualidade de vida dos angolanos. E não se percebe porque é que não hão-de ter o mesmo tratamento…

É óbvio que também não admira que o senhor Francisco Campos, tal como o benemérito Mira Amaral focado em anterior post do blog, discorde, na entrevista que lhe fizeram, das recentes acusações de Bob Geldof ao governo angolano. Corrupção?! Não, que ideia! O Geldof é que é ignorante e mal-educado: «É um insulto – não só ao Governo de Angola, mas a uma África que não conhece», afirma o empresário-cirurgião. Pois.

Nem de propósito, a propósito de um dos últimos posts, foi hoje divulgada a seguinte notícia pela Agência Lusa:

«Portugal é um dos 10 países mais pacíficos do mundo, segundo o último relatório do Índice Mundial da Paz divulgado esta terça-feira, em Londres, que coloca no primeiro lugar a Islândia e no último o Iraque, escreve a agência Lusa.

No índice, que avalia o pacifismo de 140 países e o seu nível de tranquilidade, Portugal aparece no sétimo lugar, a seguir à Irlanda e antecedendo a Finlândia

A lista dos 10 menos violentos por ordem decrescente é a seguinte: Islândia, Dinamarca, Noruega, Nova Zelândia, Japão, Irlanda, Portugal, Finlândia, Luxemburgo e Áustria.

«O mundo aparece ligeiramente mais pacífico este ano», sublinhou num comunicado Steve Killelea, autor do índice.

«É encorajador, mas precisamos de pequenos passos feitos individualmente pelos países para que o mundo faça mais progressos no caminho da paz», assinalou o filantropo australiano.

De acordo com o índice, o país mais violento é o Iraque, antecedido da Somália, Sudão e Afeganistão (137º).

Entre os 10 mais violentos estão também a Rússia (131º), seguida do Líbano, Coreia do Norte, República Centro Africana, Chade e Israel (136º).

Nesta classificação, Angola (110º lugar), Indonésia (68º) e Índia (107º) são os países que fizeram mais progressos em comparação com o índice do ano anterior.

Os países do G8 (os sete mais industrializados e a Rússia) obtêm posições muito diferentes, com o Japão na quinta posição, entre os 10 mais pacíficos, seguido do Canadá (11º), Alemanha (14º), Itália (28º), França (36º), Reino Unido (49º), Estados Unidos (97º) e Rússia (131º) na cauda do pelotão.

A classificação lançada em 2007 com 121 países, passou a integrar 140 países em 2008 e analisa 24 critérios internos e externos, como a contribuição para as missões de paz da ONU, o nível de criminalidade e o risco terrorista.

O índice é elaborado a partir de dados reunidos pelo departamento de informações Economist, ligado ao semanário The Economist, e serve nomeadamente para os investidores, segundo o seu autor. »

Está tudo aqui

 

Outro grande concerto da minha vida, há muitos anos algures em Coimbra:

A propósito de Portugal

Já agora, sobre pobreza e sobre como este país anda desfasado do ritmo global de riqueza. A propósito do anterior post:

«(…) Segundo dados do Eurostat e do PNUD (2004), Portugal é dos países europeus onde a desigualdade social é maior. Os elevados valores da desigualdade (medida pelo índice de Gini, que afere as desigualdades segundo uma escala que varia entre um valor mínimo de 0 e um máximo de 100), colocam Portugal na cauda dos países europeus, além de que cerca de 20% da população vive ainda no limiar da pobreza, aumentado as bolsas de exclusão, a precariedade no emprego e o sobre-endividamento das famílias. Os diagnósticos disponíveis têm vindo todos eles a reiterar esta tendência. No Livro Branco das Relações Laborais (Dezembro de 2007) constata-se que as desigualdades se acentuaram entre 1995 e 2005, o que foi comprovado por todas as escalas de medição utilizadas (seis no total), tendo, por exemplo, o índice de Gini revelado o seu agravamento no mesmo período de 34,4 para 35,1.

Em suma, a herança autoritária e tutelar, a cultura de dependência e compadrio, a mentalidade patriarcal, são traços que continuam abundantemente presentes no quotidiano dos portugueses. A pobreza larvar penetra em sectores que supostamente estariam imunes a essa ameaça, endividados (ou falsamente prósperos) muitos vão dissimulando as suas dificuldades, mas para outros sectores (que rondarão os 20% da população) a pobreza é mais do que um risco, é uma realidade presente. Mas, por detrás destes problemas pairam os poderes estruturais de onde derivam largamente estas desigualdades: o hiperliberalismo, a ineficácia das instituições e das políticas e a ganância lucrativa de sectores privilegiados que beneficiam das dificuldades da maioria, os superlucros dos grandes gestores, da economia financeira, etc. É nesse sentido que o combate a este segundo conjunto de problemas depende directamente da capacidade que tenhamos, ou não, de responder ao primeiro conjunto de questões. Trata-se, aliás, de questões indissociáveis uma da outra. Porque se a democracia é, mais do que um sistema consolidado, um processo em permanente aprofundamento, expandi-la e aprofundá-la em dimensões onde ela ainda não penetrou, será sem dúvida uma forma de construir a democracia económica, ou seja, de combater as desigualdades e os seus efeitos na expansão da pobreza.»

Elísio Estanque in Boa Sociedade

É isto e circo:

«(…) O mundo agressivo e brutal do futebol, com a sua pedagogia de grosseria e violência, ordinário e vulgar, movimentando poderosos interesses políticos, nacionais, autárquicos e regionais, servindo uma economia paralela, que para nosso mal ainda é a única que funciona em muitos sítios, imerso em corrupção, não aflige nem preocupa ninguém. A começar pelos nossos deputados, que dão a caução institucional da Assembleia da República a um dirigente desportivo acabado de sancionar por “corrupção tentada” e que saía de uma acareação num tribunal. Políticos e dirigentes desportivos ajudam-se mutuamente para impulsionar carreiras políticas populistas que o mundo do futebol protege e apoia, e parecem a única coisa que verdadeiramente mexe em Portugal, junto com os negócios da “alta”. Ainda um punhado de inocentes pensava que isso era uma pecha do salazarismo, quando meia dúzia de palavras e imagens de cinco minutos, no fim dos telejornais, passavam por ser um excesso e onde um filme como O Leão da Estrela se limita a descarregar sobre o tampo de uma mesa aquilo que hoje obriga a operações paramilitares de contenção de turbas violentas. Não, não andamos para a frente, andamos para trás, para o país chamado Futebolândia, para a futebolização plena da nossa vida pública.

Mas não é só o futebol, é tudo o resto. É o mundo das telenovelas, com o seu sangue, suor e lágrimas, transformado em “casos”, o caso Maddie, uma coisa abstracta e virtual, sem corpo real, já sem a violência do crime, já transformado numa soap opera de plástico, o caso Esmeralda, uma competição absurda à volta de uma menina imaterial, tão abstracta e morta na virtualidade como a “pequena Maddie”, onde todos os dias uma inovação aparecida depois do caso Casa Pia, os “pedopsiquiatras”, divulga relatórios que deviam ser confidenciais em tempo real, para movimentar as celebridades que vão beijar o sargento e demonizar o pobre pai que só é “biológico”, com a justiça a claudicar perante a pressão dos tablóides em que se transformou muito daquilo que conhecíamos como “comunicação social”.

E depois o estendal dos acidentes e doenças. Os acidentes são hoje a única coisa que mobiliza directores de informação, pressionados pelo controlo de custos, a atirar a correr para Freixo de Espada à Cinta o “carro de exteriores” à compita com outros “carros de exteriores”, para mostrarem camião virado ou, melhor ainda, um autocarro, ou, se andarem depressa, um ferido a ser desencarcerado, ou um morto na berma. E então se houver crianças feridas ou mortas, melhor ainda para as audiências.

(…)

A cultura da irrelevância está impante como nunca, espectáculo e pathos brilham no sítio que anteriormente ainda era frequentado, de vez em quando, pela razão, pelo bom senso, pela virtude. Esta é, obviamente, a melhor comunicação social, a melhor televisão para os governos, e o actual cuida bem que não lhe falte dinheiro para as suas quinhentas horas de futebol. Compreende-se: a bola não pensa, é para ser chutada.»

Pacheco Pereira in Público e Abrupto

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